Academia Brasileira de Ciências discute a Agenda 2030

A Academia Brasileira de Ciências – ABC promoveu, de 14 a 16 de maio passado, no Rio de Janeiro a sua Reunião Magna 2019, tradicional evento anual, que busca promover a interação da comunidade. Neste ano a reunião focou-se nos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.

A proposta foi promover o debate de assuntos que possam estimular uma reflexão sobre a Agenda 2030 do Desenvolvimento Sustentável, avaliar a situação do Brasil quanto aos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável – ODS e os impactos que esperamos para o futuro do país e o planeta. A Agenda 2030 é um plano de ação para erradicar a pobreza, proteger o planeta e garantir que as pessoas alcancem a paz e a prosperidade, elaborado por líderes mundiais na ONU, em 2015.

Dezenas de cientistas de diversas partes do mundo, professores, jornalistas, ativistas e especialistas de áreas distintas discutiram os desafios cruciais para atingir a ousada meta proposta pela ONU, elaborando teorias e mostrando soluções práticas que tenham sido testadas e aprovadas, no sentido de contribuir para um mundo melhor e sustentável.

Na Conferência Magna de abertura, o Professor Antonio Manuel da Nóvoa, representante de Portugal na UNESCO, falando como a educação pode ser o motor da liberdade, vaticinou: “Podemos ser a primeira geração a acabar com a pobreza e a última a ter a possibilidade de salvar o planeta.” Diz o professor que nos últimos 50 anos o mundo inteiro caminhou na direção do iluminismo, com a agregação dos direitos das mulheres, das minorias étnicas e de gênero e ampliação dos direitos trabalhistas, avanços estes obtidos pela Educação, Ciência, escolas públicas e movimentos dos direitos civis. No entanto, alerta o Professor Nóvoa, o momento atual parece nos remeter à idade das trevas, onde uma onda varre o mundo, com o recuo nos temas de diversidade (cultural, sexual...) e o crescimento da “indústria das crenças” contra a ciência (mudanças climáticas, vacinas, escolas públicas...). A consequência deste recuo geracional é o regresso dos nacionalismos, fechamento às migrações, anti-intelectualismo e a perseguição às minorias.

Neste cenário distópico, a Professora Janice Perlman, da Columbia University, falou sobre “Cidades inclusivas, sustentáveis e justas”, abordando os problemas, desafios e soluções para o processo de urbanização no século XXI.

Estudiosa das mega-cidades, em especial das favelas cariocas, mostrou, através de seus estudos de mais de 40 anos sobre o tema, que as comunidades, antes fator de integração de seus membros, hoje são enxotadas para cada vez mais longe e cada vez mais criminalizadas por sua cor escura. Perlman relembrou algumas de suas descobertas, publicadas em “O Mito da Marginalidade”, sobre os migrantes que saíam do campo para morar nas favelas cariocas. Eles se sentiam atraídos pela cidade e tinham orgulho de estar no meio urbano. No entanto, foram integrados de forma assimétrica ao mesmo, se tornando marginalizados, o que, mais tarde, foi usado como justificativa para as políticas de remoção.

Paulo Buss, ex-presidente da FIOCRUZ ressaltou que saúde e desenvolvimento devem andar juntos e, citando relatório do Banco Mundial, mostra que, após uma queda acentuada nos níveis de pobreza no período 1995-2014, a pobreza voltou a crescer no 3% no período 2015-2018, agregando um contingente de 43 milhões a este batalhão dos desvalidos. E uma consequência perversa desta marca foi o aumento da taxa de mortalidade infantil. Conclui o professor Buss: se não combatermos a pobreza, dificilmente se alcançará o ODS 3: Assegurar vida saudável e promover o bem-estar de todos, em todas as idades.

Falando sobre o ODS 6: Garantir a todos a disponibilidade e a gestão sustentável da água e do ar, Malu Ribeiro da SOS Mata Atlântica nos chama a atenção para um paradoxo, quando nos diz que educar as crianças sobre o consumo racional da água é importante (fechar a torneira quando se escova os dentes, banhos curtos, etc), mas precisamos também “ensinar” aos grandes usuários da água (grandes produtoras rurais e mineradoras) que o recurso é um bem comum e poluir rios e descuidar de barragens poderá acelerar o processo de tornar o planeta inabitável.

Os diversos palestrantes que se sucederam convergiram num ponto em comum, os 17 ODS devem ser perseguidos, mas, se não alcançados plenamente, o foco deve ser em quatro deles: ODS 1: Erradicar a pobreza em todas as suas formas em todas partes; ODS 4: Garantir uma educação de qualidade e equitativa, e promover oportunidades de aprendizagem permanente para todos; ODS 10: Reduzir a desigualdade dentro e entre países; ODS 13: Adotar medidas urgentes para combater as mudanças climáticas e seus impactos.

Olhando para nosso umbigo, observa-se que a contribuição do Brasil neste esforço global deverá ser bastante reduzido, haja vista a recente guinada do governo no sentido de reduzir os investimentos no combate à pobreza e à redução das desigualdades, os cortes na educação e C&T, bem como os ataques às universidades públicas, o anticientificismo como crença, as teorias conspiratórias sobre a ONU e o globalismo, bem como o negacionismo climático.

A deputada catarinense Caroline de Toni publicou um vídeo nas suas redes sociais, onde diz que “a Agenda 2030 é mais uma gracinha da ONU e que é para termos cuidado, pois estes 17 objetivos podem mudar o rumo de nossas vidas”. Pergunto: quem se sente ameaçado por uma agenda que busca erradicar a pobreza, reduzir as desigualdades, proteger o planeta e garantir que as pessoas alcancem a paz e a prosperidade?

Pasteur, brilhante cientista, declarou certa vez: “Os grandes avanços do conhecimento e da sociedade são frutos do acaso; mas o acaso costuma privilegiar os mais bem preparados.” Se a maçã de Newton tivesse caído na cabeça de um néscio, provavelmente teria causado apenas uma dor de cabeça. O acaso levou ao poder o governo atual, mas as consequências desta dor de cabeça, provavelmente perdurarão por muito tempo.

 

Para conhecer as 17 ODS, acesse: http://www.agenda2030.com.br

 

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