Além de ciência, é preciso sensibilidade social e ambiental na gestão municipal

 

Por Luiz Leduíno

 

“A gente tem uma legislação urbanística muito avançada no Brasil. O Estatuto das Cidades; a Lei da Mobilidade Urbana; o Estatuto da Metrópole; a Legislação de Resíduos Sólidos. São leis festejadas no mundo inteiro. Mas há uma completa contradição entre a lei e a realidade no Brasil”. - Professora Ermínia Maricato

Como um cientista escrevendo sobre a cidade para um jornal de um sindicato de cientistas, seria natural ressaltar a importância da ciência para a melhoria de vida da população. Contudo, as ações da administração pública municipal são tão indignantes, que antes de tratar de ciência é preciso falar de bom senso, ou da necessidade dos governantes terem um mínimo de solidariedade com aqueles que mais precisam.

Sugiro uma experiência para o leitor, não científica, fácil de fazer: em um ônibus do transporte público municipal pergunte para alguns passageiros qual seria o principal problema da cidade na visão deles. Você provavelmente vai ouvir sobre a péssima qualidade do transporte público, a falta de creches, sobre a falta de creches integrais, sobre o absurdo tempo de espera na fila para algumas especialidades médicas, sobre o desemprego que só cresce, sobre a falta de manutenção nos bairros distantes do centro. Eu acho muito pouco provável você ouvir alguém falar da necessidade de uma quadra de basquete (arena?) de 40 milhões de reais, ou de um viaduto-minhocão (arco da inovação?) de 50 milhões num cruzamento na região nobre da cidade. Mas não são justamente essas duas obras que foram anunciadas recentemente pelo prefeito de São José dos Campos?

São decisões tomadas sem nenhuma discussão com a população, sem nenhum planejamento e remetem a um ultrapassado modo de governar. De arco da inovação esse viaduto não tem nada. Deveria sim ser chamado de Minhocão do Passado. Estou fazendo analogia com o Minhocão (Elevado João Goulart) que o prefeito da cidade de São Paulo deseja corretamente transformar em um parque. Lembro também a antiga Perimetral da cidade do Rio de Janeiro, também corretamente extinta. Assim como vários outros casos similares pelo mundo. Construir minhocão não é política nem de esquerda, nem de centro, nem de direita, é pura falta de visão de cidade aliada à absoluta ausência de planejamento urbano.

Não por acaso a mesma gestão não se opôs à derrubada de árvores na Vila Betânia em prol de um estacionamento! Estacionamento!!!! Até quando o carro será privilegiado em São José dos Campos?

Quem não valoriza as pessoas e o meio ambiente, também não valoriza a cultura e a educação, muito pelo contrário. Com efeito, no primeiro mês de governo o atual prefeito fechou a Orquestra Sinfônica Municipal e encerrou unilateralmente a parceria que estava funcionando muito bem entre a Unifesp e o Laboratório de Educação Digital e Interativa (LEDI). Nesta parceria foram desenvolvidos aplicativos, como o “Sanja Runner”, um jogo criado por três estudantes da Unifesp que eram estagiários de informática do LEDI. Segundo a reportagem que noticia o lançamento do jogo em junho de 2016, publicada no portal da prefeitura de São José dos Campos (https://bit.ly/30uWCl0), “o jogo funciona assim: o personagem principal tem que entregar um trabalho escolar, mas seu cachorrinho, muito travesso, pega as folhas e sai correndo por toda a cidade. Para recuperar a tarefa escolar, o personagem principal tem que percorrer os principais pontos de São José, como Banhado, Vicentina Aranha, Igreja Matriz, entre outros. A cada fase vencida, o jogo libera informações e até um quiz sobre a história daquele ponto da cidade”. Sensacional! Porém, todos os dez estudantes da Unifesp que estagiavam no LEDI foram desligados no início do governo do atual prefeito.

Enquanto isso, a incorporação das novas tecnologias nos processos de ensino-aprendizagem é estratégico para o país, em especial para São José dos Campos, dada sua vocação tecnológica. O pesquisador Virgilio Almeida da UFMG, em artigo publicado no jornal O Valor Econômico em fevereiro desse ano (https://bit.ly/2HWYPR2) faz um alerta: “Os custos de oportunidade dos anos perdidos estão dados. O país ensimesmado negligencia a urgência dos desafios que lhe são colocados. O avanço digital vem tornando obsoleto um vasto conjunto de conhecimentos e habilidades da força de trabalho. Algumas profissões podem desaparecer num futuro próximo. A corrida para a massificação do processo de qualificação profissional em bases digitais está em curso no mundo inteiro, mas não no país, salvo por conta de iniciativas isoladas e dispersas”. Ele conta que o Reino Unido acaba de anunciar sua decisão de treinar todas as suas crianças em competências digitais, começando por formar 40 mil docentes para liderarem a iniciativa!

Um outro alerta foi publicado recentemente pela Agência Fapesp (https://bit.ly/2WOEwbN): o economista Jeffrey Sachs, em palestra realizada no dia 3 maio, afirmou que “necessitamos de ciência para tornar evidente quais são as restrições ambientais e as soluções necessárias. Se a ciência for completamente perdida, não iremos sequer saber que o planeta está se aquecendo, não entenderemos a climatologia e as dimensões do desafio, e não teremos ideia de como mapear o caminho para a segurança”.

Para enfrentar os desafios que a humanidade enfrenta, Sachs enfatiza a importância da integração do conhecimento, apoiada no tripé ciências básicas, engenharias e ciências políticas. “Necessitamos de todas estas três aproximações disciplinares, trabalhando de maneira integrada”.

São José dos Campos tem todas as condições para implantar essa integração do conhecimento à gestão municipal. Por que não integrar os saberes e conhecimentos produzidos no Cemaden, Fatec, IEAv, INPE, ITA, Unesp, Unifesp, Univap, entre outras instituições sediadas na cidade, em prol do desenvolvimento econômico, social e ambiental?

Para isso é preciso um mínimo de visão de futuro, humildade e sensibilidade social e ambiental! Como cientistas e educadores, não desistiremos!

 

Luiz Leduino de Salles Neto é Professor associado da Unifesp, doutor em matemática aplicada e computacional pela Unicamp

Compartilhe
Share this