Qual o objetivo do governo?

 

 

O Brasil está fervilhando novamente, Bolsonaro conseguiu acordar as ruas. Isto não é algo que deva ser dito com alegria, pois não se sabe onde isto vai dar. Estabilidade institucional não será, pois é coisa rara e de pouca duração na nossa ainda imatura república, surgida após um golpe. Na onda do obscurantismo científico e na onda depreciadora do intelecto, será uma maldição?

Obscurantismo significa estado de quem se encontra na escuridão, de quem vive na ignorância. É, a nível social, político e cultural, o sistema que nega a instrução e o conhecimento às pessoas com a consequente ausência de progresso intelectual ou material. Ainda: é a prática deliberada de impedir que os fatos ou os detalhes de algum assunto se tornem conhecidos.

Do conhecimento decorre a consciência das imperfeições e a vontade de corrigi-las, através das forças impulsionadoras da criatividade e da técnica. Conhecimento é poder, portanto, dar conhecimento ao povo é conceder-lhe poder, coisa não muito interessante aos dominadores. Os colonizadores querem explorar a ignorância do povo, dominá-lo e escravizá-lo.

Nem na Inglaterra, a dama do neoliberalismo, Margareth Tatcher, conseguiu fazer o que se fez aqui: a privataria geral, que vendeu estatais a preços irrisórios. Esta foi uma manobra do governo de então para, principalmente, manter o valor da nova moeda, o Real, frente ao Dólar, numa política cambial que custou um enorme aumento da dívida pública e nossa desindustrialização. Por fim, esta política não se sustentou: o Real foi desvalorizado e o país ficou sem as empresas, que foram privatizadas.

Após a interrupção da corrida neoliberal - durante os governos petistas, um novo ciclo foi iniciado, com o impeachment de Dilma Roussef. Temer foi profícuo na construção da base para a retomada desta política, retirando direitos dos trabalhadores pela Reforma Trabalhista, aprovando a PEC do Fim do Mundo – PEC do Teto dos Gastos Públicos (Emenda Constitucional 95) e ainda tentando aprovar a Reforma da Previdência, mas se atrapalhou em meio à necessidade de sufocar as ações de investigação de seus crimes.

Bolsonaro quer aprofundar as medidas de enfraquecimento do governo. Já anunciou voltar à carga com outra Reforma Trabalhista – vem aí a Carteira Verde-Amarela, tenta aprovar uma Reforma Previdenciária ainda pior que a de Temer (empobrecerá ainda mais o povo), ataca todas as entidades de defesa de direitos humanos e o funcionalismo público… Seu ministro do meio ambiente não gosta de meio ambiente, o da educação odeia educação, a dos direitos humanos não gosta de direitos humanos.

Nós, servidores públicos, somos atacados e apontados como acumuladores de privilégios, de forma generalizada, quando a realidade é a falta de servidores públicos em todas as áreas. As aposentadorias do Regime Geral da Previdência, que levavam quinze dias para serem processadas, agora levam mais de um ano! Faltam servidores na saúde, na segurança pública e na educação.

Sofrem também as universidades - do ministro da educação se ouviu que 84% dos recursos são gastos em pagamento de pessoal. É verdade, e diz respeito a quase todas as áreas do serviço público, mas citá-lo de forma depreciativa é uma desonestidade intelectual, pois mais da metade desse pessoal é composto por aposentados. Ora, em qualquer empresa privada, os aposentados não dizem mais respeito à empresa em que trabalharam, mas no Estado as verbas orçamentárias ainda têm o encargo dos aposentados. Basta que não se atualizem os orçamentos, como na EC 95, para que logo não se tenha mais capacidade de investimento.

Sofrem ainda os institutos públicos de pesquisa. Não bastassem os cortes de investimentos e o esvaziamento de RH, têm que lutar contra o governo. O governo que deveria ser o indutor do desenvolvimento da infraestrutura científica, através do seu poder de compra, ao invés disso, retira da capacidade de produção dos institutos no fornecimento das necessidades do país. Especificamente cito o ministro do meio ambiente que quer comprar dos americanos um sistema de monitoramento da amazônia, em detrimento de trabalho que já é feito há décadas pelo INPE. Ao fazê-lo, tira do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais uma de suas principais atividades e razão de ser: pra quê desenvolver satélites como o CBERS, de imageamento, se também estes serviços seriam adquiridos dos americanos?

 


 

 

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