Educação e Cultura

A culpa é da inteligência

Por Regina Carvalho

“Pois este é um mundo louco e ficará mais louco se permitirmos que as minorias, sejam elas de anões ou gigantes, computarologistas ou neo-ludditas, débeis mentais ou sábios - interfiram na estética. O mundo real é o terreno em que todo e qualquer grupo formula ou revoga leis como num grande jogo.” (Ray Bradbury, Fahrenheit 451, p. 212)

Lendo nas notícias todas as opiniões retrógradas e muitas vezes assustadoras do novo Governo brasileiro, confesso que fico deprimida. Muitas vezes fico olhando sem querer acreditar, perplexa ao extremo: poxa, estamos em 2019! Daí me lembro de eu mesma dando aula, e ao ouvir um aluno falando que hoje em dia a corrupção existe, como se tivesse sido criada ontem, eu ria: criança, vai ler Petrônio! O homem é um ser corrupto! O Satyrycon foi escrito mais ou menos em 60 d.C., e só o que mudou foi a tecnologia, não as safadezas de que somos capazes. Mas, como Nietzsche, espero sempre que o homem, o animal mais racional, em sua própria opinião, deveria ser melhor. Não é, mas não precisava ser pior…

Pois sonhei com o filme 451, e acordei pensando: dava um artigo para o Jornal do SindCT. Há dois filmes com este título, esclareço. Um, com o qual sonhei, para cinema, e que tomou algumas liberdades com o livro, do François Truffaut. E outro para TV, de Ramin Bahran. (https://www.filmesonlineplay.com/assistir-filme/fahrenheit-451/), que é outra coisa, apesar de manter um certo espírito. E a professora besta que sou vai ensinar: cada leitura é uma leitura, cada verdade é uma verdade: uma versão dela!

Porque nem os livros nem a cultura são o problema, mas as maiorias. E quando as maiorias são ignorantes (não burras), é muito difícil para as Artes e a Ciência e Tecnologia (nunca fiz diferença, façam-me o favor, convivemos uns com os outros, precisamos uns dos outros).

No momento, vemos maiorias assumirem o poder em boa parte do mundo, e as maiorias costumam ser ignorantes, sejam de direita ou de esquerda. E perseguem livros, proíbem ou destroem quadros, esculturas, filmes, invenções de vários tipos, ou por considerá-las “obras do diabo”, ou danosas para a formação de seu povo. Algumas obrigam a se fazer só um tipo de arte, que divulgue suas ideias, ou se mantenha dentro de um certo delineamento específico – arte do tipo “engajado”, de onde surpreendentemente podem surgir obras-primas, mas não é comum.

No livro do Bradbury, os bombeiros do futuro nele retratados não existem para apagar incêndios, já que as casas são incombustíveis, mas para queimar livros, que não devem existir, e assim mesmo existem, e há quem se arrisque, e até se sacrifique, para protegê-los, escondê-los, salvá-los. Encontram maneira original de garantir que alguns se salvem, inclusive a Bíblia, por decorá-los. E cada leitor é um livro. Alguns se tornam a parte de um, mas, se morrerem, o livro morrerá com eles.

Em alguma data futura, porém, livros continuarão a ser escritos, permitidos, amados. São como a fênix, renascem do fogo que os sacrifica. Sob outro formato, em novos enredos, mas sempre obras de arte a seduzir os espíritos.

E não foram só os nazistas que queimaram livros, como se parece pensar. Em 2000 a.C., tabletas de argila sumérias foram enterradas e/ou destruídas, os invasores espanhóis queimaram manuscritos maias, e a mesma Santa Inquisição queimou muitas obras árabes e suas maravilhosas bibliotecas – e destruiu muitas de suas invenções. Há muitos exemplos, ao longo da História, de que a inteligência que se armazena desta maneira incomoda o poder.

Autores são perseguidos, ameaçados, alguns se tornam hors concours (Marx, Darwin, D.H. Lawrence). Livros deveriam ser depositários do conjunto de ideias de uma época, que em alguns se trata de reescrever, para que se tornem “palatáveis”. Um exemplo recente aqui no Brasil, que muito me envergonha, é a reescrita de livro de Monteiro Lobato, por sua ideologia “racista”. Os infantis, mesmo, que a maioria de nós leu na infância – Tia Nastácia, “negra beiçuda”, nas palavras irreverentes da Emília, por exemplo, que sabemos amar a negra. Me envergonha que façam isso, me envergonha que um escritor de infantis aceite fazer isso, praticamente estuprar a obra de quem não pode mais se defender, por já estar em direito público. Getúlio Vargas se chocou com a “imoralidade” de Dona Flor e seus Dois Maridos, e recolheu toda a primeira edição.

Tocante cena na versão televisiva de Fahrenheit 451 é aquela em que a velha senhora, ao ver sua biblioteca secreta descoberta encharcada de querosene, saca um fósforo e se imola junto com seus livros. Amor e respeito, como o dos sikhs, que queimam as edições muito velhas de seu livro sagrado, Guru Grand Sahib.

Foi Freud quem lembrou frase (de 1820) de Heine, poeta romântico judeu que se converteu ao cristianismo: “Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas.” E cem anos depois os nazistas fizeram isso: livros, opositores, minorias…

 

Regina Carvalho é professora da UFSC, aposentada, mestre em Teoria da Literatura

 

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