A cultura do charlatanismo

Busca por cura milagrosa faz milhares de vítimas todo ano

Por Ruth Helena Bellinghini


 

A lei brasileira define o charlatanismo como “exploração da credulidade pública, inculcando ou anunciando cura por meio secreto ou infalível”, obviamente buscando algum tipo de vantagem, seja ela financeira ou poder, ou reconhecimento e fama. Os exemplos recentes não são poucos e as vítimas se contam aos milhares, aqui e no exterior. E a palavra-chave é credulidade.

Muita gente acredita que só caem na lábia dos charlatães pessoas muito simples, desinformadas, mas uma pesquisa recente da Universidade de São Paulo mostra que a esmagadora maioria dos brasileiros que não vacinam seus filhos pertencem à chamada elite, têm formação universitária, ganham bem, moram em bairros de alto padrão e, claro, foram vacinados na infância. O movimento antivacina, para quem não sabe, teve início com um charlatão chamado Andrew Wakefield, médico que publicou um estudo dizendo que vacinas causavam autismo. Seu objetivo não era esclarecer ninguém, mas ganhar rios de dinheiro processando a indústria farmacêutica. O estudo é tão tosco que confunde DNA e RNA.

Gilberto Chierice, químico industrial e professor da Universidade de São Paulo, passou décadas produzindo suas cápsulas de fosfoetanolamina num laboratório imundo, cheio de goteiras, ferrugem e sem filtros de ar, e distribuindo a pacientes de câncer, recomendando que parassem quimio e radioterapia porque, supostamente, sua pílula só funcionaria em sistemas imunológicos “intactos”. Chierice nega que tenha feito essa recomendação, mas dezenas de pessoas confirmam. Testes feitos no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) com pacientes de câncer mostraram que suas pílulas não servem para nada, mas uma legião de pacientes desesperados continua comprando as cápsulas pelo correio, via Uruguai, agora fabricadas nos Estados Unidos por dois de seus ex-associados. Quando o paciente morre, os parentes costumam justificar o fiasco da tal “pílula da USP” dizendo que ou o doente começou a usá-las tarde demais ou que era pílula falsa, ou seja, que não passou pelas mãos abençoadas de Chierice...

João Teixeira de Faria, vulgo João de Deus, acusado por dezenas de mulheres de assédio sexual e estupro, durante décadas, atraiu desesperados para Abadiânia, em Goiás, com a promessa de curas espirituais milagrosas, com perdão da redundância. Além de reza e passes, seu receituário incluía Passiflora, um fitoterápico calmante vendido por cerca de R$ 15, mas pelo qual cobrava R$ 100. Não importava a doença, dá-lhe passiflora do “santo homem”.

A charlatanice, claro, não é uma exclusividade tupiniquim. O médico italiano Tuillio Simoncini jura que o câncer é causado pelo mesmo fungo que provoca o “sapinho” e que bastam injeções de bicarbonato de sódio para curá-lo. Matou dois pacientes assim, perdeu o diploma, mas continua ganhando muito dinheiro. Charlotte Gerson, de 96 anos, seguiu os passos do pai, o médico Max Gerson, que defendia uma dieta com fígado cru de carneiro e enemas de café quente para eliminar “toxinas” e curar de tuberculose a câncer. Banida dos EUA, Charlotte e o instituto que ela criou atuam no México.

A Wikipedia lista mais de 200 falsas curas para o câncer, que vão do uso de ímãs à ingestão de urina, passando pela tal “medicina quântica”, que “cura” pela força do pensamento, chá de graviola, cápsulas de ipê roxo e outros absurdos.

A charlatanice costuma apelar para o medo e para o senso comum, partindo do pressuposto que o câncer é uma doença simples e, portanto, fácil de curar. O câncer não uma doença única que aparece em diferentes partes do corpo, mas cerca de 200 doenças diferentes que se caracterizam apenas pela proliferação descontrolada de células. Charlatães tendem a mostrar o câncer como algo simplesinho. Invariavelmente, se dizem vítimas de complô da indústria farmacêutica, que teria trancado a sete chaves a cura do câncer. Se são mais de 200 doenças, obviamente não pode haver uma única cura, assim como não existe antibiótico que dê conta de todas as infecções. Fora isso, nenhum laboratório guardaria a sete chaves qualquer medicamento eficiente, sob o risco de perder espaço para os concorrentes. Outro apelo comum entre os charlatães são as tais das “toxinas”. Fígado e rins trabalham 24 horas por dia a vida inteira livrando o corpo de toxinas e que, portanto, sucos e dietas detox são pura enganação.

Especialistas em cuidados paliativos, que atendem esses pacientes quando não há mais possibilidade de cura, mas boas chances de o doente ter qualidade de vida, dizem que na maioria das vezes é a família inconformada que pressiona o paciente a aderir a essas práticas, argumentando que eles “têm de lutar”, mesmo que isso signifique perder qualidade de vida. A morte é inevitável, mas precisa ao menos ser digna.

 

Ruth Helena Bellinghini é jornalista da área de ciência e saúde, com especialização no Massachusetts Institute of Technology (MIT) e no Marine Biological Lab, Woods Hole MA.

 

 

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