O POUSO DA ÁGUIA

Viagem à Lua completa 50 anos

Por José Bezerra Pessoa Filho

 

Enquanto saboreava seu café da manhã e folheava a Folha de S. Paulo daquela friorenta manhã de domingo, 20 de julho de 1969, você se deparou com a seguinte manchete:

ÀS 17H16 A NAVE POUSA NA LUA,

que vinha acompanhada do seguinte texto:

“Hoje às 17h16 – 4 minutos e 30 segundos antes do previsto - O Módulo Lunar, com Armstrong e Aldrin a bordo pousará na Lua, junto ao Mar da Tranquilidade, enquanto Collins continuará na nave-mãe, em órbita circular.”

Você logo se perguntou: será que a Globo vai mostrar? Também não pôde deixar de rir ao ler que os astronautas estavam 4,5 minutos adiantados em uma viagem com quase 100 horas de duração e que levou séculos para ser realizada. Aquilo só podia ser piada de Chico Anysio, pensou.

Na medida em que você foi lendo o Caderno Especial que a Folha de S. Paulo dedicou ao evento do século, você descobriu que Armstrong e Aldrin pousariam na Lua às 17h16, mas, por determinação da NASA (Agência Espacial Americana), só sairiam da espaçonave seis horas e meia depois.

Naquela manhã você ainda descobriria que o programa lunar inteiro custaria 26 bilhões de dólares, e a Apollo 11, 350 milhões. Uma das matérias dizia que o gênio alemão, Von Braun, já tinha um plano para levar humanos à Marte em uma viagem de 450 dias. Naquilo que poderia ser considerada a avant-première do turismo espacial, a empresa aérea americana Pan Am tinha uma lista de espera com 16.700 interessados em viagens à Lua. Mas havia uma notícia preocupante. Três dias antes do lançamento da Apollo 11, os soviéticos lançaram a espaçonave não tripulada Luna 15, com o objetivo, não revelado à época, de coletar rochas lunares e trazê-las à Terra antes que os americanos o fizessem. A preocupação americana era que a Luna 15 atrapalhasse a Apollo 11. Felizmente, isso não ocorreu e a Luna 15 jamais regressou à Terra.

À tarde você se surpreendeu ao saber, pelo jornal, da campanha Economize hoje para ter amanhã, promovida pelo Governo do Estado de São Paulo. Era a crise hídrica que se abatia sobre o estado. A Folha também trazia reclames da Sears e do Mappin, anunciando, dentre outros, fogões, rádios, telefones de mesa, gravadores cassetes, câmaras fotográficas Kodak, móveis e máquinas de escrever. Tudo estampado em vários tons de cinza, que naquela época tinham outro significado.

Enquanto operários europeus pleiteavam chegar mais tarde ao trabalho na segunda-feira para assistir ao pouso lunar, a Folha de S. Paulo trazia a notícia de que o deputado Pinheiro Júnior, presidente da União dos Servidores Públicos do Estado de São Paulo, pleiteava a redução do tempo de trabalho de 33 para 30 anos. A seleção brasileira, com Pelé & Cia, estava em Bogotá preparando-se para o primeiro jogo das eliminatórias da Copa do Mundo de 1970.

Após o jantar você vestiu o pijama e sentou-se à frente da sua TV TELEFUNKEN, que na época era propagandeada como a MÁQUINA DE IR À LUA. Algumas horas depois, veio-lhe o seguinte devaneio: dois vultos, vestidos de branco, se mexiam de uma maneira estranha em um mundo acinzentado. No primeiro plano havia a locução do repórter Hilton Gomes e ao fundo um som que você não compreendia muito bem, mas que se assemelhava ao inglês. Pouco a pouco você foi caindo em si. Constatou que faltavam quatro minutos para meia-noite. Despertou para descobrir que assistia ao mais importante evento da histórica da civilização humana. Estávamos na Lua!

Se você se recorda, ainda que parcialmente, desse relato, considere-se uma pessoa privilegiadíssima, pois a grande maioria dos terráqueos só o conhece por meio dos livros de História, de vídeos do Youtube e de arquivos antigos como os da Folha de S. Paulo, de onde esse conteúdo foi extraído. Quanto à inspiração para assim apresentar o maior feito de nossa civilização, ela veio de Pálido Ponto Azul, escrito por Carl Sagan (1934-1996) e por mim considerado o mais belo livro de todos os tempos.

Eu, aos sete anos de idade, residia na Veneza brasileira: Recife. Àquela hora, enquanto dormia, eu sonhava com os anjos. Como eu estava de férias da escola era muito provável, que, na manhã de segunda-feira, meu pai me colocasse ao telefone para conseguir “linhas” que lhe permitissem completar ligações telefônicas. Ao ler a Folha de S. Paulo de 20 de julho de 1969 para escrever este artigo eu, finalmente, descobri a explicação para a minha estreia frustrante no mundo das comunicações. O Brasil, na época com 93 milhões de habitantes, possuía apenas 1,5 milhão de linhas telefônicas.

Enquanto Armstrong e Aldrin caminhavam na Lua, Collins, o terceiro astronauta, se tornou a lua da Lua. Aqui no Brasil vivíamos tempos difíceis. Em 1960, tínhamos vivido a expectativa de banir a corrupção elegendo Jânio Quadros para presidente. Em menos de sete meses no poder ele condecorou Che Guevara e Yuri Gagarin, criou o Programa Espacial Brasileiro, pegou sua vassoura e partiu. Em seu rastro deixou uma crise política que desaguou em 31 de março de 1964. Em dezembro de 1968 foi decretado o Ato Institucional nº 5. O ano de 1968 no Brasil foi registrado em um clássico de Zuenir Ventura: 1968: O ano que não terminou.

Para os demais 3,5 bilhões de habitantes da Terra a situação também era tensa. Em 1962, quase que voltamos ao pó com a crise dos mísseis soviéticos em Cuba. Um ano depois, era assassinado o mentor político de nossa chegada à Lua: John Kennedy. O ano de 1968 assemelhou-se a uma reação em cadeia: em abril, o Reverendo Martin Luther King foi assassinado; em maio, os estudantes parisienses atearam fogo à Cidade Luz; em junho, Robert Kennedy foi morto; em agosto, tropas soviéticas encerraram a Primavera de Praga; e na insana Guerra do Vietnã, era registrado o maior número de baixas americanas. Em meio a tanto barulho e confusão um cabeludo e barbudo de óculos tentava acordar as consciências dos seus irmãos cantando Dê uma chance a paz (Give Peace a Chance). Não lhe ouviram e 11 anos depois ele próprio, John Lennon, seria assassinado por um ex-fã. Ninguém melhor do que Eric Hobsbawm (1917-2012) para descrever aquele século: Era dos Extremos. Imperdível!

Mas naquilo que se refere à Lua, a história do Século XX pode ser assim resumida: finda a II Guerra Mundial, EUA e URSS, dois ex-aliados de conveniência, resolveram disputar corações e mentes ao redor do mundo. Era Capitalismo × Comunismo. Começava a Guerra Fria. Foi em 25 de maio de 1961 que o presidente americano John Kennedy, então com 44 anos, sentenciou: “levaremos o homem à Lua e o traremos de volta, até o final desta década.” Além de intelecto privilegiado, Kennedy soube compreender que o que estava em jogo era a preservação dos EUA como modelo a ser seguido em um mundo bipolar, que passava por um processo de transformação social, político e econômico, jamais visto em qualquer época de nossa história. Ele interpretou brilhantemente o seu papel de líder, propondo aos seus concidadãos uma ideia lunática. Àquelas alturas os vermelhos já tinham humilhado os americanos por duas vezes. Primeiro com o Sputnik I (1957) e, posteriormente, com o cosmonauta Yuri Gagarin (1961). A partir daquela noite de maio de 1961 essa realidade iria mudar.

Foi em 16 de julho de 1969, exatamente 24 anos depois do primeiro teste da bomba atômica nos EUA, que a Apollo 11, com três seres humanos, partiu ao encontro da Lua. Se matemática, física, engenharia, coragem, sorte e fé se alinhassem, a sua trajetória cruzaria com a da Lua três dias depois. Isso já tinha acontecido antes com a Apollo 8 e a Apollo 10, mas desta feita pousaríamos na Lua. Deu tudo certo e esse alinhamento ocorreria em seis outras ocasiões, uma delas, Apollo 13, com sucesso parcial. Nosso último representante deixou a superfície lunar em dezembro de 1972.

Mas o caminho que nos levou à Lua não começou no século passado. Teve início a partir do momento em que passamos a contemplar o universo à nossa volta. Dessa contemplação surgiu a necessidade de entender os fenômenos observados. Pouco a pouco fomos desenvolvendo explicações e passamos a sonhar com viagens a outros mundos. Em uma próxima etapa desenvolvemos as tecnologias e aí veio a Guerra Fria para aglutinar tudo isso e tornar a viagem à Lua real. Em outro artigo exploraremos melhor a corrida espacial, mas por ora este é o nosso registro histórico.

Embora a viagem à Lua tenha cabido a norte-americanos, ela resultou da evolução da ciência e da tecnologia ao longo de séculos, tendo dela participado milhares de cientistas, incluindo Santos Dumont (1873 – 1932) que, se vivo fosse, estaria completando 96 anos naquele 20 de julho de 1969. Que presente!

Muitos daqueles que não acreditam no pouso lunar, o fazem pela dificuldade em compreender como tal epopéia tenha sido realizada há meio século. Há um segundo grupo que apresenta um argumento simples, porém razoável: “se é verdade que entre 1969 e 1972 doze seres humanos colocaram os pés na Lua, por que ninguém mais voltou lá desde então?” Há um terceiro grupo que afirma que tudo não passou de fake news, ou seja, foi tudo uma armação norte-americana. Trata-se de um grupo especial conhecido como “Pensa-dores” da Era Digital. Ele já foi avaliado pelo italiano Umberto Eco (1932- 2016), ao receber, em 2015, o título de doutor honoris causa em comunicação e cultura da Universidade de Turim. Não é necessário acrescentar mais nada. Umberto Eco disse tudo.

O francês Auguste Comte (1798 – 1857), Pai do Positivismo, movimento que cravou em nossa bandeira o lema Ordem e Progresso, tão mal utilizado ultimamente, afirmava que não se conhece verdadeiramente uma Ciência se não se conhece a sua História. Nada é mais exato quando tentamos compreender como chegamos à Lua. Por isso, mais do que uma viagem de recordações, eu proponho um roteiro de reflexão com cinco paradas: Terra de Gigantes; O Mundo dos Sonhos; A Era dos Extremos; O Grande Encontro; e A Maior Descoberta da Era Espacial.

Em nossa próxima parada visitaremos Terra de Gigantes, onde viveram Galileu, Kepler e Newton. Sem serem santos, eles transformaram Ciência em profissão de fé.

Aperte o cinto, relaxe e curta a maior viagem de todos os tempos.

 

Dr. José Bezerra Pessoa Filho é servidor aposentado, tendo dedicado 31 anos de sua vida profissional ao Instituto de Aeronáutica e Espaço

 

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