É uma Guerra Civil? Não!

Uma guerra global no território Sírio

Por Ahmed Abu Hasna

No final do ano 2010, começou uma onda de protestos no mundo árabe - conhecida como “A Primavera Árabe” contra corrupção e falta de democracia nos países árabes. Protestos simultâneos chegaram na Síria no início de março 2011.

Na primeira década deste século, como vários outros países do Oriente Médio, a Síria sofria com retrações econômicas e alto índice de desemprego: entre 15 e 20% da população. A situação socioeconômica, como a deterioração do padrão de vida, a redução do apoio do governo aos pobres, como consequência da adaptação da economia para um mercado aberto, a erosão dos subsídios para bens e agricultura, sem uma indústria estável e índices de desemprego altos entre jovens incitaram o descontentamento popular.

A situação dos direitos humanos na Síria também era considerada deplorável, recebendo várias críticas de organizações estrangeiras. O país ficou sob estado de exceção, o que dava às forças de segurança a autoridade de prender qualquer um que quisesse, sem declarar o motivo.

O protesto na Síria começou como manifestação de protesto popular contra o governo al-Assad. Em resposta à maior intensidade dos protestos, o governo mandou várias unidades do Exército e das Forças Armadas do país para dar fim às manifestações. Várias cidades foram cercadas e bombardeadas, causando muitas mortes. Foi um conflito armado que começou por causa da violência do governo contra os manifestantes, bem como a falta de organização e experiência da oposição síria.

Em julho de 2012, com grandes combates irrompendo na maioria das regiões do país, a Cruz Vermelha Internacional decidiu classificar o conflito como “conflito armado não internacional”, abrindo caminho à aplicação do Direito Humanitário Internacional ao abrigo das convenções de Genebra e à investigação de crimes de guerra.

O aumento do nível de conflito armado encorajou muito os adversários regionais da Síria (Turquia, Catar, Arábia Saudita e Israel) a intervir no país, sob diferentes pretextos, tais como proteger o povo sírio. Do outro lado, os aliados do governo al-Assad (Irã e organização de Hezbolallah) também enviaram armas e combatentes como forma de apoio. E muitos grupos de milícia a favor do governo foram formados.

Assim, os “Aliados do Povo Sírio” enviaram toneladas das armas e equipamentos para grupos de “contra”, que na maioria, eram grupos radicais terroristas estrangeiros, como Jabhat al-Nusra (um grupo ligado a AL-QAEDA) e ISIS. Tais grupos não foram a favor de “revolução síria” e nem apoiam a “Democracia” desejada. Eles começaram uma guerra contra todos que não concordavam com eles em “TAKFIR”, a grande maioria dos partidos, políticos e cidadãos sírios.

E uma guerra regional foi lançada no território sírio!

A escalada da violência chamou a atenção dos poderes internacionais para intervir. E sob a alegação de enfrentar o terrorismo e os movimentos jihadistas, os Estados Unidos, junto com outros dez países, entre eles Austrália, Reino Unido e Canadá, formaram uma coalizão para se opor aos extremistas. A intenção verda-deira dos ocidentais era a saída de al-Assad da presidência, o que impulsionou a intervenção da maior aliada do seu governo – a Rússia.

Para ajudar o aliado, que vinha perdendo terreno devido às múltiplas ofensivas do Estado Islâmico, as forças armadas russas concluíram a construção de uma base militar no país e logo iniciaram ataques aéreos contra alvos dos militantes extremistas na Síria. Isso marcou o primeiro envolvimento militar direto russo em território sírio. A ação foi criticada pelos Estados Unidos como “contra procedente”. Os americanos defendem a saída de Assad da presidência como uma solução para o conflito, enquanto os russos afirmam a manutenção do governo Assad no poder como importante para trazer a estabilidade de volta à Síria.

O fato é que os dois lados têm interesses de controlar o país e seus recursos. Nenhum deles luta pela democracia e libertação do povo sírio e nem pela estabilidade e segurança dele.

Quando a guerra começou na Síria, há oito anos – em março de 2011, era difícil definir que tipo da guerra era aquela! Agora, ficou claro que se trata de uma guerra mundial! Na hora que os dois maiores poderes internacionais e seus aliados e afiliados regionais e locais entraram nessa guerra tão grande, certamente ela não pode mais ser chamada de guerra civil.

Além disso, esta guerra resultou, até agora, em mais de 600 mil sírios mortos e cerca de 8 milhões de desalojados bem como cerca de 5 milhões de refugiados. Todos são vítimas de uma guerra global no território sírio. Todo mundo sabe que o vencedor de uma guerra civil é o maior sectário da população, porém na guerra síria a grande a maioria das vítimas sírias são dos árabes sunitas, que é o maior sectário da população síria.

Enquanto o mundo continua a discordar sobre a caracterização da guerra como uma guerra civil ou uma guerra mundial, enquanto as forças internacionais continuam lutando para controlar o país, o sofrimento de milhões de sírios continua e assim a população vive a falta de segurança e de comida e, os refugiados sírios continuam espalhados nos campos de refugiados nos países vizinhos, sob a neve que cobre a região no momento.

 

Ahmed Abu Hasna é jornalista sírio e está vivendo em São José dos Campos há 2 anos

 

 

 

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