O que é que a literatura tem?

 

A influência da ciência e da tecnologia na literatura

Por Regina Carvalho

 

O mais engraçado é que, por mais anti-acadêmica e anti-professoral que me declare, acabo sendo isso o tempo (quase) todo. E é o que sei ser. Para falar a verdade, é o que gosto de ser, deformação profissional, ou não. Para o pessoal da área de Exatas, ou de Ciência & Tecnologia, somos seres ilógicos. Ledo engano! Somos os seres mais lógicos que há, talvez não necessariamente os escritores de ficção, mas os exegetas de texto, aqueles que têm a literatura por tema e por paixão. E já explico porque: de tanto cotejar o inventado com o real, aprendemos a lógica irrefutável do inventado. Como disse (ou escreveu?) um dia o maior escritor brasileiro, que aliás era médico, João Guimarães Rosa: “Quem desconfia, fica sábio”. E é dessa desconfiança que se fazem as grandes coisas: ciência, tecnologia, e literatura. Rosa, que os amigos chamavam “Rosinha”, por puro afeto, também disse que “Viver é etcétera”. E este termo vem do latim: et coetera, e outras coisas. Nunca é o que se espera, mas as outras coisas que se busca.

Assim é o que se escreve. E assim é o que se inventa. Poucas áreas contribuíram tanto para a literatura, a permanente, como a da Ciência. Esta separação da Tecnologia é recente, e suas contribuições são menos conhecidas. As da Ciência formam aquilo que se costuma chamar FC, Ficção Científica. E muitas de suas obras são perenes. E atualmente, como não poderia deixar de ser, incluem a Tecnologia.

Descobri, há poucos meses, o primeiro autor de FC assim denominado: o russo Zamiátin, com seu livro Nós, de 1924. Publicado nos Estados Unidos porque proibido na Rússia, e percebe-se nele a influência que exerceu posteriormente, sobre Huxley (O Aldous, de família de cientistas) e Burgess, Orwell, Bradbury, e outros mais recentes, de sucesso maior no cinema que em livro. Descobri agora, fui ler apenas agora, e me deparei, para completa surpresa, com uma das obras mais originais, criativas e bonitas de que se possa ter notícia. Distópico, é claro, uma utopia (de eu-topia) feita só de coisas ruins, semelhante em muita coisa à que vivemos agora, no Brasil. “Brasileiro, profissão esperança”, como na peça do Vianinha…

Quando o escritor usa muito estritamente dos fatos científicos, corre o risco de ser superado logo. Huxley, ao fazer isso em Admirável Mundo Novo (edição original de 1932), foi atropelado pelos avanços tecnológicos, e tratou de corrigi-los alguns anos depois, em De volta ao Admirável Mundo Novo, de 1958. Seria novamente, agora… Mary Shelley, também de família de cientistas, sofreu os mesmos transtornos. Mas o Frankenstein permanece, por sua figuratividade, sua significância. Por nossa necessidade humana de permanência.

Os mais figurativos, os alegóricos, esses constroem as obras de maior significação e abrangência. Poucos fizeram isso tão brilhantemente como George Orwell. Pseudônimo literário usado pelo jornalista Eric Arthur Blair, era um socialista utópico, como hoje classificado, e na época acusado de anarquista, mas isso não impediu a qualidade de sua obra, como não impede atualmente a de Noam Chomsky. E, por favor, A Revolução dos Bichos ou 1984, são duradouros, retratam situações que se repetem sempre. E nós, no Brasil de 2019, andamos às voltas com um Grande Irmão que nos vigia e nos controla, seja pelo Whatsapp, seja pelo Facebook, de forma muito mais eficiente! Orwell não teve este insight, e ainda bem!

Não briguem comigo, mas acho Asimov e Bradbury uns chatos! Em compensação, enquanto leitora, estudiosa de literatura, professora de oficinas de criação literária, sou completamente apaixonada por Philip K. Dick. Um colega do departamento de Jornalismo da UFSC, o professor Luiz Alberto Scotto de Almeida (friso, por eterna gratidão) me trouxe livro dele emprestado. Era um livro de contos, cujo nome esqueci; dentro dele havia um conto, com nome também esquecido, e o conto me fez infernizar os alunos da UFSC por vários semestres. Porque este conto falava de recursos e seres humanos que se envolviam na pele de determinado animal de algum planeta, e enquanto envoltos nele, viveriam para sempre. E se matava e se fazia o diabo para conseguir o privilégio. Mas – notem bem - não se poderia jamais sair dali, sob o risco de ser engolfado pela perenidade. Meu desafio para os alunos (e para mim mesma!) era: somos seres perecíveis, e sabemos disso. Anatole France, iluminista francês, dizia que o homem é um animal triste, porque é o único animal que sabe que vai morrer. Mas… e se assim não fosse? Se tivéssemos a possibilidade de viver para sempre, como nos comportaríamos?

Nem eles nem eu conseguimos inventar nada que mostrasse essa visão de deuses. Por este conto, Philip Dick entrou na minha agenda de gênios da literatura. Louco? Era! Viciado? Era! E como inventou possibilidades de vida para o ser humano… Blade Runner é pouco. Minority Report, idem. Mas lágrimas na chuva é tudo!

 

Regina Carvalho é professora de literatura, aposentada da UFSC

 

 

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