Crônica

A fácil manipulação da opinião pública

Explicando o óbvio

Por Érico Pessoa
 

Todos os dias, milhares de transações imobiliárias são realizadas no Brasil. Em tese, em cada uma dessas operações o vendedor deve recolher o imposto devido por conta do lucro auferido. Como é sabido, todavia, no Brasil todo, essas operações são quase sempre fraudulentas. Os valores de venda declarados costumam ficar muito abaixo dos reais para que o tal lucro auferido seja substancialmente reduzido, quando não completamente zerado. E, se lucro não há, também não há imposto a pagar, é claro.

Alguém pode gostar disso, não gostar disso, achar que isso demonstra que os brasileiros são corruptos, achar que não são corruptos coisa nenhuma, fazem é muito bem, pois não há porque pagar impostos para governos, estes sim, corruptos, enfim, pode-se ter qualquer opinião a respeito desse fato. A única coisa que não se pode fazer é negá-lo, pois qualquer cidadão brasileiro, minimamente bem informado, sabe que “é assim que é”.

Aliás, a própria Receita Federal sabe muito bem disso. A dificuldade dela está na quantidade diminuta de fiscais em relação à magnitude do problema.

Isto posto, imagine este cenário: um grupo suficientemente poderoso, pela razão que for (metáforas prescindem dos detalhes), deseja demonizar junto à opinião pública um determinado subgrupo de brasileiros, os baianos, por exemplo, só para termos uma referência perfeitamente visível e compreensível.

Eis um jeito fácil de fazê-lo: toda a fiscalização disponível da Receita Federal é concentrada na averiguação das transações imobiliárias feitas na Bahia.

Só na Bahia.

Descobrem, é claro, as mesmas e abundantes falcatruas que teriam descoberto se tivessem investigado qualquer outra região do Brasil, mas só a Bahia é investigada.

Como em nossa história, o grupo interessado na demonização dos baianos é, por hipótese, suficientemente poderoso, então, naturalmente, ele tem ao seu lado a grande mídia que, uníssona, dá início à divulgação do escândalo baiano, que chamam de “Baianão”.

As manchetes se sucedem:

“Mar de lama na Bahia”

O assunto é coberto nos editoriais de todos os jornais, todos os dias, durante semanas:

“O 'Baianão' é o maior caso de corrupção da história do Brasil”

Um novo escândalo, sempre maior do que o da semana anterior, alimenta as capas das revistas semanais:

“A Bahia é o centro nevrálgico da corrupção nacional”

Rádios e Televisões, com seus comentaristas “especializados”, divulgam áudios que explicitam acordos espúrios. Tais áudios são reproduzidos inúmeras vezes, continuamente, ao longo de muitos dias:

“Os baianos são o câncer da corrupção que corrói o Brasil”

Acuados e indignados, os baianos ensaiam protestos.

Alegam que o que fizeram era errado, sim, sem dúvidas, mas era exatamente a mesma coisa que todos faziam, a cultura estabelecida que, aliás, eles não tinham inventado e da qual estavam longe de ser os maiores protagonistas. Num ambiente desses, que sejam todos culpados ou anistiados, mas denunciam que a seletividade das investigações, a tendenciosidade da cobertura da mídia e a parcialidade das análises dos “especialistas” não têm outra justificativa que não a desejada – e conquistada – demonização pública dos baianos.

A tais iniciativas, prossegue a mídia:

“Diante de fatos não há argumentos”;

“Os baianos sempre foram muito bons em fazerem-se de vítimas, mas agora a casa caiu”;

“É muita cara de pau”;

“Como alegar perseguição, se a Receita conseguiu reaver milhões de reais sonegados?”

Governadores de outros estados brasileiros, que sabem que os povos de seus estados fazem e sempre fizeram exatamente a mesma coisa, mostram-se indignados com os baianos e estimulam que todos destilem seu ódio contra eles, em ambientes que vão do sofá da sala às redes sociais, passando por todas as mesas de botecos do país.

Concluo perguntando: é possível descrever o quadro acima de outra forma que não a de um linchamento público?

Sendo tudo baseado em acusações “comprovadas”, ainda por cima?

Agora, me conta, você viu como é fácil?

Precisa desenhar, ou você entendeu o que fizeram com o PT?

 

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