Editorial

Era a terra sem forma e vazia

“A terra estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas. Deus disse: 'Faça-se a luz', e a luz foi feita” (Gn 1,2). Na sequência, a cada palavra, Deus fez também o firmamento, a terra e o mar, as florestas, as estrelas, o sol e a lua, todos os animais e o homem e a mulher. A linguagem bíblica é cheia de significações das quais se pode destacar a força da palavra que constrói e destrói, realiza e desfaz. Por isso é preciso ser comedido no falar. Por aqui, a palavra de fariseus hipócritas implodiu o Programa Mais Médicos, a palavra dos mentirosos que clamaram toda a Sodoma e Gomorra cibernética para enganar o povo.

Em tempos de estúpido obscurantismo, voltemo-nos ao esvaziamento dos recursos humanos nos institutos públicos de pesquisa, assunto transformado em mantra, cada vez mais repetido, dada a dura realidade dos números decadentes. Somam-se a este outros dois mantras: a Reforma Previdenciária, que acelera o ritmo das aposentadorias e antecipa o caos dos RH e a Emenda Constitucional 95, paredão contra a recuperação da infraestrutura de pesquisa tecnológica.

Os últimos ventos políticos são arrasadores da estrutura das carreiras do funcionalismo público. No olho do furacão rodopiam também a ciência e a tecnologia brasileiras. Não é politicamente correto suscitar qualquer distinção das Carreiras de Ciência e Tecnologia em relação às demais do funcionalismo, já que a população sente, e sabe, onde aperta o calo.

Como alimentar as pessoas, facilitar-lhes os deslocamentos diários, prover-lhes moradia, educação, saúde e segurança, de forma suficiente, eficaz e estruturante? Precisamos mostrar à sociedade que o Programa Espacial Brasileiro, por exemplo, tem tudo a ver com estes desafios.

O PEB está vivo; os próximos lançamentos do Foguete VS-50, pelo IAE, e do Satélite Amazônia 1, pelo INPE, são eventos importantes, que mostram a tenacidade dos institutos aos encolhimentos orçamentários e à falta de investimentos.

Testemunharemos a extinção de muitos institutos públicos de pesquisa, talvez alguns sobrevivam sob a forma de Organização Social – OS ou realizando Contratos de Gestão, cada vez mais comuns, sob o fortalecimento das fundações de apoio. Este modelo não é indistintamente adequado; as atividades que não levam à inovação direta e a produtos em escala comercial necessitam da presença direta do Estado.

Há que considerar-se também os efeitos perniciosos da desfiguração das instituições, de suas vocações, das ambientações temáticas e dos repositórios das capacitações científicas e tecnológicas, muito negativamente afetadas por esta forma de gestão.

A Reforma da Previdência desponta novamente como prioridade de governo. Este é o maior projeto de empobrecimento do povo. O objetivo é aliviar o orçamento brasileiro, sufocado pelo serviço da dívida, que consome a metade dos recursos.

Passou da hora de submeter o complexo novelo da dívida a uma profunda auditoria. A sociedade precisa construir isto, apoiando o estabelecimento de núcleos regionais da Auditoria Cidadã da Dívida, para conscientização, discussão e encaminhamentos que pautem o tema nas casas legislativas. Voltaremos a tratar do assunto.

 

 

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