A dimensão subjetiva na realidade política atual do Brasil

O surgimento do"Antipetismo".

Ana Mercês Bahia Bock

Qualquer coisa que se queira escrever sobre o cenário político atual no Brasil exige que comecemos pela democracia, pois ela está na base de nossas conquistas, nos planos dos políticos e nos sonhos dos cidadãos. Nossas lutas contra a ditadura tinham a democracia como eixo.

Falamos em “período de redemocratização”. Construímos a Constituição cidadã de 88 e as leis que se seguiram estavam todas pautadas na ideia da democratização. As Diretas Já, a Anistia, o Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA, a lei do Sistema Único de Saúde - SUS, o Sistema Único de Assistência Social - SUAS e muitas outras que foram garantindo um novo Brasil marcado pelas forças democráticas.

Se tomarmos a ideia da contradição como característica do real (ou seja, tudo carrega a contradição), temos que compreender que a luta pela democracia e a construção das novas experiências democráticas carregam sua contradição: a não democracia, o autoritarismo.

Temos, na base material do capitalismo, que caracteriza nossa vida social, a contradição fundamental entre capital e trabalho, contradição esta que atravessa todas as outras experiências sociais e coletivas que temos.

Convivemos com a experiência democrática, respeitosa, amigável e com a experiência autoritária, centralizadora, assediadora. Ambas estão disponíveis como possibilidades do real; como construções históricas que são do nosso tempo.

Não  devemos aceitar ambas as experiências, mas reconhecê-las como produto do nosso tempo. Não são estranhas a um país marcado pela luta de classes, por uma história escravista cruel e por uma colonização europeia autoritária e dominadora, por uma desigualdade social extremada e pela crise que desempregou a muitos nos últimos anos.

A realidade que está posta é marcada por muitos aspectos. Falamos da luta de classes, da história, da democracia e dos projetos de Brasil. Quero destacar um, já que minha contribuição vem do campo da psicologia. A dimensão subjetiva da realidade.

Trabalhamos a ideia da dimensão subjetiva da realidade como construções de natureza simbólica/subjetiva que são constitutivas dos fenômenos; são individuais e coletivas e resultam em produtos reconhecidos como subjetivos, porque são ideias, representações, ideologias, sentimentos, valores, rituais, costumes, regras e leis.

É o humano presente, com suas formas humanas de ser e estar, nos chamados fenômenos sociais. A realidade social está pensada como uma construção histórica que se dá entre o plano subjetivo e o objetivo de um processo único.

A base material de nossa vida agrega  subjetividade, a partir da ação do sujeito sobre ela. Não podemos falar em realidade sem falar dos sujeitos que a constituem e que são constituídos por ela.

Nossa história nos colocou em uma sociedade marcada pela diferença social entre pobres e ricos. Cada brasileiro carrega uma subjetividade marcada por esta história e por este sentimento de horror à pobreza e ao pobre.

São aspectos da dimensão subjetiva da nossa cidadania. Outros são: a adoção de formas violentas de conduta, permitidas pela escravidão e pela colonização, e que hoje atingem cidadãos na rua, mulheres e crianças em casa ou nas instituições.

A violência contra o outro ainda é tomada como uma possibilidade nas relações. Não fomos capazes de superá-las, apesar das leis impeditivas; o assédio moral que submete o outro; a ideia de que se pode matar o outro se ele estiver nos aborrecendo.

Não foi assim que fizemos com os escravos rebeldes, com os indígenas resistentes, com as mulheres desobedientes, com as crianças inquietas? Não falávamos de democracia? A democracia não é a forma social que exige o respeito ao outro?

E se temos hoje estas expressões (do amor e do ódio) tão extremadas, é porque vivemos um momento em que a corda está esticada. A sociedade brasileira precisou de Lula, com suas experiências coletivas sindicais e de partido, com base em sua dura história de vida e de luta, para ocupar o lugar da liderança democrática e afetiva que queríamos.

Mas, e Bolsonaro? Também foi desejado por muitos. A Psicologia diz que os sujeitos, quando se encontram fragilizados e descrentes, podem achar força em propostas vazias apresentadas com discursos fortes que as afirmam como a única saída. Assim foi Hitler; assim é Bolsonaro. Mas o que nos sucedeu?

O Brasil, marcado pela desigualdade; desemprego; desânimo (no início do século XXI), passou a contar com um conjunto social que, graças a políticas econômicas favoráveis, ascendeu socialmente. Era Lula! Passaram a viajar de avião, comprar eletrodomésticos e computadores, telefones, Iphones; carros (as favelas, hoje, têm trânsito dificílimo, pois são muitos os carros dos moradores).

Muitos destes cidadãos aderiram aos valores individualistas da camada média e da elite egoísta de nosso país; muitos passaram a achar que conseguiram estas coisas por MÉRITO. Não foram organizados em movimentos sociais; não foram ensinados por escolas (as escolas reproduzem a ideologia da meritocracia); a mídia enalteceu seu esforço e elas acreditaram.

Não reconheceram a construção de políticas públicas de garantia de direitos e vida digna para todos como a orquestração principal. Estas ideias de direitos não foram facilmente absorvidas pela dimensão subjetiva. Elas eram ocultadas ou apagadas pela força da ideia do mérito pessoal.

Não que ele não exista, mas nossas explicações e sentimentos ficaram restritos ou reduzidos a um só fator. Passamos a nos achar “bacanas demais”, pois havíamos conseguido. O outro, o vizinho, o amigo, a professora, o político, todos foram “jogados com a água do banho”. Desvalorização do outro. Não preciso dele!

Quando a crise veio, foi completada por um golpe político e passou a entregar o país (nossas riquezas, vide pré-sal, riquezas da Amazônia, nossas escolas) aos estadunidenses e europeus.

O desemprego voltou. As políticas sociais foram desmontadas e a situação social piorou. Como estamos no campo do mérito e da culpa, passamos a procurar culpados. Apontados os petistas como culpados e preso o Lula, não foi difícil chegarmos a um “heroi” que diz que nos salvará. Como? Matando o vizinho ou cidadão que nos incomoda.

E nos incomoda porque denuncia que, com seu voto no Haddad, você errou e perdeu o jogo, porque não acreditou. As forças contraditórias se esgarçaram e a subjetividade se esgarçou com ela. Nasceu um sentimento denominado de “antipetismo” que passou a guiar as escolhas. Sentimento que não se explica, mas que se sente; que não se fala dele, mas que existe.

As formas de conduta, para esta nova etapa, estão em nós, guardadas desde a escravidão e da conquista das terras indígenas; reprimidas pelas leis democráticas, mas estão em nossa genética histórica. As vemos e as aprendemos na escola, nos filmes, nos noticiários, nos jogos eletrônicos...

O que fazer? Resistir e ter paciência histórica para enfrentar este momento, sabendo que para nós, cidadãos que valorizamos a democracia, a realidade é responsabilidade de todos nós. Nada do que se passa no Brasil hoje deve nos ser estranho. Temos a ver com tudo. Devemos nos posicionar para lutar pela democracia, contra o fascismo (que também é nosso e está em nós, mas não o queremos).

 

Ana Bock é professora de psicologia social e da educação na PUC-SP. Pesquisadora da desigualdade social. Foi candidata a vice-governadora com Luiz Marinho na chapa PT/PCdoB em 2018.

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