Workshop Anual do IEAv discute Mapa de Rotas Tecnológicas

Instituto está preocupado com a falta de recurso para C&T

Shirley Marciano

Entre os dias 27 e 30 de agosto, o Instituto de Estudos Avançados - IEAv, órgão ligado ao Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial - DCTA, promoveu o XVIII Workshop Anual de Pesquisa e Desenvolvimento do IEAv - WAI. O tema deste ano foi “Mapa de Rotas Tecnológicas”.

Em 27 de agosto, a reportagem do Jornal do SindCT acompanhou a mesa de discussão, a qual teve a participação de diversas autoridades militares, como o Brig Paulo Eduardo Vasconcelos, chefe da Diretoria de Tecnologia da Aeronáutica, o Brig Eng Cesar Demétrio Santos, chefe do Subdepartamento Técnico do DCTA, o Cel Lester de Abreu Faria, diretor do IEAv, o Ten Cel Marcos Antonio Alves de Oliveira, também da Diretoria de Tecnologia, e o Ten Cel Nilson de Oliveira Lessa, subdiretor técnico do IEAv. De acordo com os organizadores, foi excelente o número de participantes, cerca de 120 pessoas, entre civis e militares.

“De uma maneira geral, a gente sempre escolhe um tema relevante, sempre com anuência do diretor. Neste ano o assunto é Mapa de Rota Tecnológica, que expressa a forma como se faz um plano gerencial de um grande projeto, porque, uma coisa é você ter um projeto de pesquisa e outra, bem diferente, é saber onde esse projeto vai te levar. Então é o mapa do caminho, serve para integrar todas as áreas. É um planejamento interno”, explica Luis Carlos Ogando, organizador do WAI.

Ele conta que no DCTA várias pessoas fazem um mesmo trabalho, desenvolvem pesquisas semelhantes ou até iguais, mas acabam não dialogando entre si, para trocar experiências, a fim de criar uma sinergia.

Ogando também demonstra uma mudança de postura para tratar com os governantes, para que o entendimento se converta em mais investimento para o setor. “Esse ano, de uma certa maneira, estamos conversando sobre coordenar os esforços e falar a linguagem que as autoridades falam, para convencê-los de que o que a gente faz é importante. A ideia é comunicar menos tecnicamente e mais gerencialmente para que as autoridades entendam”, finaliza Ogando.

“O WAI é uma oportunidade para debatermos, para melhorar, mas, sobretudo, para mostrar a importância que o IEAv tem em suas pesquisas tecnológicas. Aqui produzimos conhecimento de alto nível de complexidade”, explica o diretor do IEAv, Cel Lester.

Durante sua apresentação, o Brig Vasconcelos falou sobre diversos assuntos. Dentre eles, teceu um forte elogio ao IEAv. “Não tinha noção da tecnologia e do avanço que o IEAv possui”. Depois ele indagou e provocou a plateia: “adianta ter um centro de ponta e não ter foguete para lançar?”

E, na sequência, disse que ficou contente por estarem mudando o modelo de negócio. “Não adianta apenas aguardar os recursos do governo na situação em que o país se encontra, porque as verbas são, cada vez mais, escassas e com tendência de continuar assim”.

Com tom de espanto, ele explica que durante as reuniões nas quais falaram sobre a empresa ALADA, de exploração comercial de produtos tecnológicos aeroespaciais, algumas pessoas se posicionaram contrárias, dizendo que comprometeria a soberania nacional e que, por esse motivo, não poderiam constituir a empresa. “Os países mais desenvolvidos nessa parte espacial, provavelmente pagam para lançar lá esses veículos. Então, é só questão de você olhar para o lado e tentar ver como você faz para levantar recursos para poder manter um determinado sistema”.

Ele complementa dizendo que para o Centro de lançamento de Alcântara - CLA se manter são necessários cerca de R$ 16 a R$ 20 milhões por ano, sem contar salários e alimentação. “A gente não pode perder de vista a ciência e tecnologia, mas temos que trabalhar formas de obter recursos. Portanto, é necessário ver com outro olhar o desenvolvimento e o planejamento dos projetos para continuarmos pesquisando”.

O Brig Vasconcelos também comenta que são necessárias mudanças no foco dos objetivos, para equacionar a falta de pessoal. “Infelizmente, tem projeto que não tem aporte financeiro. Se a gente observar bem, deve-se pensar em encerrar ou paralisar alguns deles, de forma a otimizar as equipes, que já estão extremamente reduzidas. Devemos escolher o que é prioridade”, diz.

Apesar de considerar as prioridades, o Brig Vasconcelos faz uma surpreendente afirmação a respeito do VLS-1. “Muitas pessoas perguntaram para mim, 'se o senhor fosse diretor do IAE teria descontinuado o VLS-1?' Eu respondi que não. Eu não teria descontinuado. É que o lançamento estava tão perto e, para a mídia, seria extremamente importante, porque, no momento que você tem realizações, fica muito mais fácil conversar com um senador ou com um deputado federal para aportar algum recurso.”

Para o Cel Marcos, um dos grandes problemas na execução de projetos são erros gerenciais. “Esse é o primeiro aspecto a ser abordado. A importância da competência na área de gerenciamento de projetos. É importante porque assim a gente consegue adquirir recurso e argumentar sobre o aspecto do nosso projeto.”

Apesar de ocorrido em um ambiente civil-militar que, por natureza ou costume, possui um diálogo mais limitado, foi um evento bastante franco, tanto por parte das autoridades quanto por parte da força de trabalho do IEAv.

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