Novos CBERS serão construídos sobre plataforma multimissão brasileira

CBERS distribuiu mais de 90 mil imagens do território brasileiro

Shirley Marciano

Com a perspectiva de uma mudança de rota para o futuro, o programa CBERS (sigla em inglês para Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres), considerado maior sucesso do Programa Espacial Brasileiro, completou 30 anos no mês de agosto.

Após o desenvolvimento de seis satélites desde 1988 (CBERS-1, 2, 2B, 3, 4 e 04A), o programa conduzido em parceria entre Brasil e China deverá sofrer sua maior alteração técnica nas próximas missões (CBERS 5 e 6), com diminuição nas dimensões, implantação de novas tecnologias embarcadas e, fundamentalmente, redução de custos.

O acordo de cooperação entre Brasil e China para o desenvolvimento de satélites foi o primeiro do gênero no mundo. Inicialmente, o Brasil participava com um percentual de 30%, mas a contribuição brasileira para a construção dos diversos subsistemas que integram o equipamento hoje é paritária.

O último integrante da família CBERS, o 04A, ainda está em solo, em fase de integração e teste no Laboratório de Integração e Testes – LIT, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. A previsão é de que ele seja enviado à China em maio do próximo ano e que o lançamento ocorra no segundo semestre. Ele vai substituir o satélite anterior (CBERS-4), que foi lançado em dezembro de 2014 e está no final de sua vida útil.

O CBERS-4 já contribuiu com a distribuição gratuita de mais de 90 mil imagens do território brasileiro, atendendo, gratuitamente, diversos institutos de pesquisas, fundações, além do público em geral.

Mudanças

De acordo com Antônio Carlos Pereira, gerente do programa, apesar de aproveitar grande parte dos sistemas remanescentes dos satélites 3 e 4 (por isso, a nomenclatura 04A em vez de 5), o CBERS 04-A já possui alterações significativas em relação à versão anterior. “Nós temos, do ponto de vista sistêmico, um satélite totalmente novo, muito mais complexo do que os satélites até então desenvolvidos.

Com a inclusão da nova câmera de alta resolução provida pelos chineses, nós tivemos necessidade de alterar o projeto para acomodar este novo equipamento e isto trouxe alguns desafios, tanto do ponto de vista de engenharia, quanto do ponto de vista de integração [montagem]”, afirma.

A grande alteração, porém, está prevista para as duas próximas versões do satélite (CBERS 5 e 6), que deverão ser montados sobre a Plataforma Multimissão - PMM, desenvolvida quase que integralmente no Brasil para o satélite Amazonia-1, a ser lançado em 2020.

“A proposta é utilizar a mesma plataforma, fazer o reuso da PMM no CBERS, de maneira a reduzir os custos de desenvolvimento”, disse Pereira, mais conhecido no meio científico como “Pinda”.

Além dos custos, a inclusão da plataforma brasileira deverá provocar grandes alterações no projeto. O peso máximo do satélite, por exemplo, terá de baixar dos atuais 1,7 toneladas para algo em torno de 700 quilos.

SAR

Outra mudança significativa está na tecnologia embarcada como carga útil. Apenas um dos dois próximos satélites terá sensores ópticos como seus antecessores, o outro vai ser equipado com tecnologia SAR (Synthetic Aperture Radar, ou radar de abertura sintética, em português), algo inédito entre os satélites nacionais.

O SAR é uma forma de radar que é usada para criar imagens do objeto desejado a partir de ondas de rádio, como um sonar.

“Isso tem algumas vantagens, porque, como todos sabem, no Brasil nós temos um grande problema com as nuvens, que os satélites ópticos não conseguem penetrar. Com os satélites de tecnologia SAR, nós teremos uma cobertura durante todo o ano, não só durante o dia, como também à noite”, completou Pereira.

AMAZONIA-1

O satélite Amazonia-1, que teve suas três fases de desenvolvimento feitas pelo INPE e que possui 70% de tecnologia nacional, deverá ser lançado em 2020. A concorrência internacional para a contratação do lançador foi publicada no Diário Oficial da União no último dia 14 de setembro e prevê prazo para entrega de propostas até o dia 16 de outubro.

Depois de publicado o vencedor, serão dois anos de prazo para o lançamento. Uma vez em órbita, o satélite irá contribuir com imageamento da Amazônia, principalmente para o controle de desmatamento, planejamento de agricultura.

“Nós estamos discutindo com a China quais satélites iremos desenvolver nos próximos 10 anos do convênio e a primeira proposta que veio dos chineses foi a de trabalharmos em um satélite cuja tecnologia ainda não dominamos totalmente, que seria o satélite SAR.

Então nós propusemos aos chineses que ele seja construído sobre a PMM, porque essa plataforma foi desenvolvida justamente para servir de base para vários tipos de satélites. Eles, basicamente, já aceitaram”, informa o diretor do INPE, Ricardo Magnus Galvão.

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