Por trás da Cortina de Ferro

 

VIVENDO NA URSS

Por Pedro José de Castro

Quiseram as circunstâncias, uma vez concluídos meus estudos de segundo grau em Florianópolis, SC, que eu transferisse minha residência para São Paulo, onde surgiu a oportunidade de estudar na Rússia, através de bolsa-de-estudos intermediada pela União Cultural Brasil-URSS. Após prestar os exames, obtive o primeiro lugar, classificando-me, assim, para fazer o curso na Universidade da Amizade dos Povos “Patrice Lumumba” em Moscou, capital da antiga União Soviética.

Em plena Guerra Fria, as autoridades militares brasileiras não viam com bons olhos a ida de estudantes brasileiros para Moscou. Mas após passar pelos trâmites burocráticos, no início de agosto de 1971, embarcamos.

A chegada ao aeroporto em Moscou foi tranquila, com a recepção de alguns brasileiros e a comitiva da universidade nos esperando. Já na universidade, passamos por uma batelada de exames médicos, palestras e orientações e recebemos as roupas apropriadas para o rigoroso inverno russo. Fui morar num quarto do alojamento estudantil na rua Mikluxo-Maklaia, com outros dois estudantes, um do Equador, outro da Índia. No primeiro passeio ao centro de Moscou, me deparei com a Praça Vermelha, onde vislumbrei um espetáculo dos mais impactantes com a vista dos castelos e a muralha do Kremlin, o Mausoléu de Lenin e a catedral de Vassili Blageni.

Pouco a pouco fui me adaptando à nova vida, estudando, passeando pela cidade, viajando pelas estações de metrô e usufruindo da vida cultural muito rica de Moscou: frequentando teatros, programas de balé, concertos musicais.

As condições oferecidas para estudarmos eram as melhores possíveis, com atendimento médico e dentário, bolsa de estudos que dava para viver relativamente bem como estudante, comida dos refeitórios adaptada aos estrangeiros, bibliotecas muito bem servidas. A  troca cultural com os diferentes representantes dos diversos países da África, Ásia e América Latina se dava principalmente pelos grupos de música, dança e esportes. Mostramos aos russos como jogar futebol de salão, que não era muito difundido por lá naquela época, que eles chamavam de “mini-futbol”.

No primeiro ano letivo cursamos a Faculdade Preparatória: no primeiro semestre estudamos o idioma russo, gramática e fonética e no segundo semestre, as matérias básicas de cada especialidade, no meu caso, matemática, física e química em nível de segundo grau, tudo em russo e ao final havia exames. Uma vez aprovados, podíamos seguir a faculdade propriamente dita.

O sistema soviético de ensino/aprendizagem era aquele com palestras em grandes anfiteatros, realizadas por catedráticos, e aulas em turmas com um número pequeno de alunos, para tratar da teoria aplicada à prática e resolução de exercícios. Minha turma de física era formada por mim, brasileiro, um colombiano, um chileno, um sírio, um africano, dois indianos e seis russos.

Tive grandes professores como Aleksander A. Beilinson, que era do programa espacial soviético; Yakov P. Terletsky, autor do primeiro acelerador de partículas da União Soviética; Lev N. Deriuguin, doutor em ciências técnicas, laureado com o prestigioso prêmio Lenin; Ygor V. Cheremiskin, que trabalhou com Nikolai Basov, um dos laureados com o prêmio Nobel de Física de1964.

Em 1978, obtive a qualificação em Radiofísica e o grau de mestre em Ciências Físico-Matemáticas.

Em Moscou, no decorrer de sete anos, sempre fui a quaisquer lugares sem ser importunado. Para deslocar-se a outras cidades, o cidadão estrangeiro tinha de solicitar visto, enquanto os soviéticos tinham livre acesso por toda a URSS; em princípio, eles poderiam viajar a outros países, porém, havia uma certa burocracia e além disso, o dinheiro russo (rublo) não era reconhecido no mercado internacional. Um habitante, por si só, não podia mudar de cidade sem antes ter um trabalho assegurado e um documento chamado “propiska”. Na convivência com o povo soviético em geral, houve ocasiões em que me perguntaram se no Brasil havia liberdade como eles a tinham. Durante todo aquele tempo, o número de mendigos que encontrei pelo país daria para contar com os dedos de uma só mão.

Naquela época, Moscou era muito bem servida de meios de transporte como ônibus, ônibus elétricos (trólebus) e bondes, além de um excelente metrô que cortava a cidade em todos os sentidos e uma linha circular que facilitava a transição de uma linha para outra. Os trens que partiam de Moscou para outras cidades eram muito organizados e confortáveis e dispunham de bons serviços de bordo.

O fato de estar na União Soviética possibilitou-me, nas férias,  conhecer outras cidades da Rússia, (aproveitando que as viagens de avião eram muito baratas na época), como São Petersburgo (em russo Petrograd), Irkutski (na Sibéria, quando estive no lago Baikal a -20ºC, congelado), Tashkent e Samarcand (Uzbequistão, na Rota da Seda, por onde passou Marco Polo), Kiev e Lvov (Ucrânia), Tselinograd (Casaquistão) e outras cidades; nas férias de verão, a Universidade dispunha de alojamentos estudantis em Makapsé, no Mar Negro, perto de Sotchi.

Ao final, posso afirmar que minha estadia na Rússia e URSS foi emocionante e enriquecedora, vi e vivenciei lugares e momentos intensos, fui testemunha ocular do tempo do poder soviético sob o socialismo, estudei muito, aprendi a língua russa – precisa e poética, tive contato com uma das maiores literaturas do mundo, grandes cientistas, terra de Tchaikovski, Pushkin, Tolstoi, Dostoiévski, Landau, Korolev, Gagarin e do Grande Lenin.

 

Pedro José de Castro é pesquisador aposentado do INPE .

pedro.castro@inpe.br

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