INPE substitui modelagem Regional BRAMS por norte-americana

 

MUDANÇA GERA DESCONTENTAMENTO ENTRE PESQUISADORES E USUÁRIOS

Por Fernanda Soares

A modelagem numérica regional Brazilian Developments on the Regional Atmospheric Modeling System - BRAMS, é um sistema projetado para previsão e pesquisa atmosférica em escala regional, com foco em química atmosférica, qualidade do ar e ciclos biogeoquímicos. Atualmente, é desenvolvido e mantido pelo CPTEC/INPE, USP e outras instituições no Brasil e no exterior.

Neste ano, uma notícia surpreendeu a comunidade científica do CPTEC/INPE: o modelo operacional BRAMS foi substituído pelo modelo norte-americano Weather Research and Forecasting Model - WRF. Essa mudança gerou descontentamento na comunidade de pesquisa e desenvolvimento do modelo BRAMS e também entre os usuários. Uma carta, assinada por Ariane Frassoni, pesquisadora do CPTEC/INPE, Karla M. Longo, USRA/NASA GSFC - em licença do CPTEC/INPE, Luiz Flávio Rodrigues, pesquisador do CPTEC/INPE, Saulo R. Freitas, USRA/NASA GSFC - em licença do CPTEC/INPE, enviada via e-mail a diversos interessados no assunto, repudia a decisão.

Em um trecho da carta, é citado que o pioneirismo do INPE foi reconhecido pelo mais importante centro de previsão de tempo no mundo, o European Centre for Medium-Range Weather Forecasts - ECMWF, que declarou que o caminho trilhado pelo INPE era modelo para todos os centros mundiais de meteorologia. Ainda de acordo com a carta, em 2007, o então pesquisador do ECMWF, Johannes W. Kaiser, visitou o grupo de modelagem ambiental do CPTEC, iniciando uma colaboração para o desenvolvimento do modelo de emissão de queimadas, a ser utilizado pelo ECMWF. Neste mesmo ano, o ECMWF iniciou sua previsão integrada de tempo e de qualidade do ar em escala global, usando ainda um outro desenvolvimento brasileiro, o modelo de levantamento de plumas de fumaça.

“O modelo atmosférico BRAMS era um dos modelos operacionais de previsão de tempo e ainda é o principal componente do Sistema de Previsão Ambiental do CPTEC. O desenvolvimento do BRAMS teve início na Universidade de São Paulo na década de 80 e continuou no CPTEC a partir de 2003. O desenvolvimento no CPTEC do modelo BRAMS e de todo o sistema de modelagem ambiental é resultado de 15 anos de trabalho árduo de um pequeno grupo de pesquisadores e de dezenas de alunos de mestrado e doutorado”, diz outro trecho da carta.

Repercussão

Em resposta à carta, houve inúmeras manifestações contrárias à substituição do modelo BRAMS para o WRF. “É com pesar que recebo essa notícia. Sou usuário do BRAMS há 23 anos. Neste período tive a oportunidade de interagir, aprender, ensinar e estimular novos usuários. Atualmente, além de usar o BRAMS, também tenho usado o WRF. Reconheço que o modelo americano seja muito bom. As parametrizações físicas, muitas delas, são as mesmas do BRAMS, mas quando se trata da parte computacional, do desempenho, ele fica na lanterna”, disse Paulo Khun, da Universidade Federal de Pelotas - UFPel.

Paulo comenta a situação, mas não esmorece. “Assistir ao desmonte da ciência, da pesquisa e desenvolvimento em modelagem numérica no Brasil é profundamente lamentável. Estamos vendo o desmonte do CPTEC, assim como já foi feito com outras instituições de meteorologia. Sei que não é fácil, mas acredito que não podemos deixar que a descontinuidade do BRAMS seja permanente, talvez haja uma possibilidade de migrar para outro lugar. Precisamos continuar trabalhando no BRAMS para termos um modelo regional cada vez melhor.”

“O modelo BRAMS é amplamente utilizado pelo meu grupo de pesquisa (com focos em Tempestades Severas de Mesoescala e Ciclones), com sucesso. Já nos produziu muitas dissertações de mestrado e monografias de graduação e artigos em revistas. Muitos de meus orientados já utilizaram e utilizam o BRAMS, quase sempre com sucesso e qualidade nos resultados. O trabalho de um orientado recente meu chegou a render o interesse e um projeto para estudo de ventanias no Rio Grande do Sul. Para mim continua sendo o melhor modelo numérico que existe para se trabalhar em "escala convectiva" e resolver processos ligados à dinâmica da convecção, ventanias de origem convectiva e outros. Em relação ao fim do BRAMS operacional do CPTEC, de nossa parte, também achamos uma grande pena, pois eu utilizo há muitos anos resultados das rodadas do BRAMS do CPTEC para enriquecer o conteúdo das disciplinas ligadas à previsão do tempo, ministradas por mim (Laboratório de Análise e Previsão do Tempo - LAPT, Meteorologia de Mesoescala e Estágio Supervisionado 2)”, lamenta Wallace Figueiredo Menezes, docente e pesquisador da Universidade do Rio de Janeiro (UFRJ).

“Coordenei o CPTEC de 2003 a 2009 e, nessa época, o BRAMS Ambiental já rodava e era a menina dos olhos. Ele nos ajudou a alavancar as solicitações de recursos computacionais para o CPTEC, justamente devido às aplicações evidentes em saúde e ao grande esforço e envolvimento nacional no seu desenvolvimento. Para quem viu o início do BRAMS Ambiental e sua transição para um produto operacional na USP e em seguida no CPTEC, para quem viu a forma como o BRAMS se esparramou pelo território nacional nas mãos de ex-alunos da USP, para quem viu as citações internacionais crescerem, hoje é um dia de reflexão. Sim, a pesquisa vai continuar, sem dúvidas, mas a visibilidade operacional é importante para o futuro. Acho que perder essa visibilidade através do CPTEC é uma grande derrota. O ideal seria repensar a estratégia e encontrar uma nova opção opera- cional sustentável”, comenta Maria Assunção F. Silva Dias, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG/USP).

“Realmente, é com tristeza e uma certa interrogação que recebo essa notícia. Algo que foi extremamente e muito eficientemente desenvolvido no Brasil e que não se dará prosseguimento. De minha parte, como usuário (fiz minha tese de doutorado com ele), deste modelo pude acompanhar o desenvolvimento e o empenho de um grupo de reconhecido mérito profis- sional. No mais, veremos se realmente 'jogar a água com a criança e tudo para fora da banheira' vale a pena”, comenta Cláudio Moisés, da UFRJ.

Comitê de Avaliação

Um Comitê de Avaliação foi criado para testar três modelos matemáticos: o BRAMS, o WRF e o ETA.

Manoel Alonso Gan, pesquisador do INPE, presidiu o Comitê de Avaliação, a pedido da direção do CPTEC. Ele explica que, durante um ano, fizeram avaliações de precipitações, da temperatura e do campo de vento. Também aferiram o desempenho computacional, no quesito tempo de processamento.

Gan ressalta que, durante as avaliações, foi ocultada a identidade dos modelos, de modo a evitar parcialidade e tornar os testes mais isentos e sem qualquer tendência. Somente foi revelada a correspondência dos modelos quando foi apresentado o resultado. Nos três critérios (precipitação, temperatura e campo de vento) o BRAMS teve o pior desempenho, de um modo geral. O teste também mostrou que o BRAMS é o modelo mais “pesado” para processamento computacional. Neste quesito, o melhor desempenho foi do ETA.

“O relatório final ainda não foi divulgado. Inclusive, é de interesse da comunidade científica e dos detentores do modelo, pois essas informações podem ajudar a corrigir erros e aperfeiçoar os modelos”, acrescenta Gan.

Justificativa

Em nota, o coordenador do CPTEC, Divino Moura, explica que a decisão foi tomada por estar diante do quadro crítico de limitação computacional e sem perspectivas imediatas de aquisição de um novo sistema (o supercomputador teve sua vida útil finalizada em 2017) e de carência de recursos humanos. Assim, concluiu-se que não se poderia manter e utilizar vários modelos regionais operacionais de previsão de tempo no Centro.

“Foi estabelecido um Grupo de Trabalho, formado por pesquisadores e tecnologistas seniores do próprio Centro, com o propósito de avaliar objetivamente o desempenho dos modelos de previsão de tempo regionais mais usados no Brasil, a saber: BRAMS e ETA (no CPTEC), o WRF (no CPTEC e em centros regionais), e o modelo COSMO (parcialmente testado), utilizado pelo Instituto Nacional de Meteorologia e pela Marinha do Brasil”, diz mais um trecho da nota.

De acordo com a direção do CPTEC, a intercomparação mostrou que o modelo BRAMS teve resultados meteorológicos bons, embora um pouco aquém, se comparado com os outros. Além disso, o desempenho computacional deste modelo mostrou ser quase 3,5 vezes mais “pesado” que o WRF. Assim, após a primeira fase de avaliação, foi descartado o modelo BRAMS por ser cerca de 3 vezes mais oneroso que os demais e a intercomparação mostrou que os modelos WRF e ETA têm performance (em termos de previsão) melhor. Por isso, o modelo regional BRAMS foi descontinuado no modo operacional.

Após 10 meses de análise científica e técnica criteriosa de intercomparação de mérito dos modelos rodados no supercomputador do CPTEC, decidiu-se pela escolha do WRF para ser o modelo regional operacional do Centro, com o objetivo de atender a sua missão e ajudar a modernização da previsão numérica de tempo no Brasil.

“Porém, destacamos que os modelos BRAMS e ETA continuam a ser rodados no CPTEC e estão disponíveis para os pesquisadores envolvidos em modo de pesquisa. As informações ambientais ainda são providas operacionalmente por um módulo do BRAMS ambiental, até que este módulo seja integrado ao modelo WRF, assunto em andamento em cooperação com pesquisadores da USP”, diz na nota.

O diretor do INPE, Ricardo Galvão, também emitiu nota sobre o assunto:

“(…)

… também é minha preocupação, como dirigente do INPE, ex-Diretor do CBPF, ex-Presidente da SBF e pesquisador e professor da USP, o zelo pelo bem público e a luta pela pesquisa genuína e nacional. Porém, entendo que em Meteorologia a cooperação nacional e interna-  cional é chave para a evolução do conhecimento científico e para o desenvolvimento de instrumentação, observações e modelagem, em prol do bem comum.

Prova disso são os satélites meteorológicos cujos dados e imagens são disseminados em proveito de todos, sabendo que Meteorologia é ciência e serviço    que nenhuma nação pode fazer sozinha, por mais recursos que tenha.

(…)

… a Meteorologia e ciências afins têm um papel de destaque fundamental e inequívoco para o País.”

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