São José pra quem?

Por Federica Fochesato

“De uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas”. Tal frase, presente no clássico livro Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino, é uma constante, visto que as cidades são dinâmicas, ou seja, estão em contínuas transformações e podem ser consideradas, inclusive, obras de arte inacabadas.

Porém, em momentos de revisão do Plano Diretor – como está ocorrendo hoje em São José dos Campos – as perguntas crescem e ganham outros sentidos no município que é destaque na Região Metropolitana do Vale do Paraíba (RMVale). Que São José é uma cidade rica não se tem dúvida, mas quem a vê de longe, por fora ou se restringe a circular apenas em suas zonas mais nobres, muitas vezes sequer tem noção da quantidade de perguntas sem respostas, uma vez que a “riqueza” joseense não é obra que se volta para todos e todas.

Do emprego ao lazer - passando ainda pela crucial questão da moradia que mais expulsa gente em vez de agregar - as sensações de desfrute proporcionadas pela “empreendedora e tecnológica” São José não se espalham democraticamente entre as pessoas de todas as zonas deste município, que hoje soma quase 700 mil habitantes. É importante destacar, por exemplo, segundo dados da própria pesquisa Origem e Destino, que no quesito renda há profundos desequilíbrios: a macrozona Oeste é a que tem a maior renda média familiar – mais que o dobro da renda média municipal, que é de R$ 3.669,52. A região central também concentra rendas bastante acima da média. Já as regiões Leste, Norte e Sudeste estão em condições mais semelhantes, com renda quase 30% inferior à média.

Uma vez mencionadas as questões de renda e moradia, não se escapa de abordar a temática da mobilidade urbana tão em voga na atualidade, mas ainda pouco compreendida em sua complexidade que envolve a democratização do acesso à cidade. A lógica pouco difundida – sobretudo em terras onde o ir e vir é encarado como sinônimo de ir e vir “de carro” privado - é a seguinte: se uma região é desprovida de serviços, o que é bem característico dos bairros periféricos mais pobres que concentram populações de menor renda, as pessoas terão que se deslocar para acessar uma série de equipamentos em outras partes da urbe, sejam estes saúde, trabalho, estudo ou lazer.

Não tendo seu veículo motorizado privado, será o transporte público o meio para tal. Bastante ineficiente e também oneroso aos orçamentos mais baixos, muitas pessoas, portanto, deixarão de se deslocar ou se deslocarão bem menos. Consequentemente, terão menos oportunidades na cidade que habitam, visto que as políticas públicas erroneamente se pautam em priorizar o ir e vir dos veículos motorizados privados, em vez do ir e vir das pessoas, sobretudo em transportes de massa.

Não se pode ignorar, por exemplo, que São José é uma cidade onde, quando chega o final de semana, diversos bairros periféricos ficam com bem menos linhas de ônibus (isso quando não são suspensas de vez!). Quer dizer que o transporte público deve existir somente para levar pessoas ao trabalho durante a semana e basta? Que fiquem em casa, segregadas em seus distantes bairros, e não queiram ir se divertir num parque da região central aos domingos, misturando-se, portanto, com outras pessoas?

São José é uma cidade que segue concretando fundos de vales, derrubando árvores e desmatando várzeas para construir ou ampliar largas vias induzindo e estimulando ainda mais o uso dos veículos motorizados privados num ciclo vicioso que custa muito caro ao meio ambiente e aos cofres públicos, penalizando a população em seu todo, não importando se a pessoa tem (ou não) seu automóvel. O curioso é que em algumas das grandes avenidas sequer passam coletivos (Via Oeste, por exemplo). Quer dizer que as pessoas que seguem num ônibus não têm direito a desfrutar também de uma “via rápida” para chegar – também mais velozmente - em seu destino, seja este qual for?

Somos uma cidade em que calçadas (quando há, pois em inúmeros bairros são artigos de luxo) sem iluminação vulnerabilizam ainda mais as mulheres no seu ir e vir noturno, a ponto de fazer muitas delas desistirem de cursos profissionalizantes em andamento; cursos estes capazes de aumentar suas chances de acesso a novas oportunidades de emprego, por exemplo. Aqui, alguns irão dizer: “mas, não existe agora a lei que permite ao condutor do ônibus deixá-las fora do ponto, isto é, perto de casa?”. Infelizmente, nem sempre a lei é seguida e a fiscalização – na tecnológica São José - está na lista das precariedades do transporte público.

Por falar em fiscalização e atos de violência contra as mulheres - neste cenário todo de edificante exclusão - as comunidades negra e LGBTS também acabam entrando para o quadro de maior vulnerabilidade. Afinal, de um lado uma estrutura urbana desagregadora que cerceia o ir vir da parcela mais pobre da população e, do outro, o latente preconceito – ainda pouco combatido inclusive em termos de políticas públicas - que diariamente violenta em maior escala tais grupos. Assim, para estes, o tal acesso à cidade é ainda mais desafiador; sobretudo quando têm como endereço as esquecidas regiões periféricas da cidade.

Num mesmo município, tudo isso são exemplos de barreiras concretas e abstratas que separam, segregam e aniquilam cada vez mais não somente o acesso democrático à cidade, mas a própria criação de um ambiente próspero para a união e diálogos propositivos entre este e aquele habitante (morador do Centro, Sul ou Leste, não importa) no processo de idealização de uma cidade melhor para todos e todas. Como sabemos, entre a idealização e a concretização, o trabalho é longo. Dessa forma, temos que nos atentar, porque quanto mais avançam as citadas barreiras, menor é o próprio poder de articulação da população para alavancar mudanças – algo extremamente vital desde o surgimento das primeiras cidades.

Sendo assim, que se perguntem sete, setenta e sete ou mais vezes até começar a obter respostas efetivas!

Federica Fochesato é educadora socioambiental e jornalista, e integrante do Coletivo Ciclistas de SJC e do Fórum Popular de São José e Região - federicagf@yahoo.com

 

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