Blood, o pastor das ruas

 

Por Ricardo Freire

 

Vicente da Silva Júnior, conhecido como Blood, teve uma infância conturbada. Jovem e negro, desde cedo conviveu com o preconceito. Na juventude, enfrentou a separação dos pais, o nascimento do seu primeiro filho e outros dramas. Entrou para o tráfico de drogas aos 18 anos e isso mudou sua vida de forma radical. Com todos esses problemas, Blood hoje tem uma vida de superação.

Em 1999, Blood tinha como endereço o Centro de Detenção Provisória – CDP, conhecido como Cadeião, localizado no bairro Putim, em São José dos Campos.

Foi preso aos 19 anos de idade por tráfico de drogas e, quando perguntado se havia passado por outros centros de detenção, Blood disse: “passei por 3 cadeias: Paraibuna, Caçapava e São José, todas superlotadas”.

Após cumprir mais de 8 meses de prisão, no dia 6 de junho daquele ano, viu a oportunidade de sair do que considerava um inferno cercado por enormes muros.

No fim de tarde daquele domingo, enquanto assistia a vitória do Corinthians por 4 a 0 sobre o São Paulo, ficou sabendo que haveria uma fuga em massa e que todos ali deveriam sair na hora que fossem ordenados. Nesse dia ocorreu a maior fuga de presos de todos os tempos: 430 presos deixaram o Centro de Detenção ao mesmo tempo.

Na fuga, correu para o matagal com outros dois detentos e, mesmo sabendo que sua atitude poderia lhe causar mais problemas, Blood optou pela fuga, torcendo para não morrer por um tiro dos guardas de muralha ou na perseguição pela polícia. Quando questionado pelo Jornal do SindCT se pensou em não fugir, responde: “pensei, mas ali eu teria dois lados, ficar e ser coagido pelos presos recapturados ou ser morto. Tinha esse medo, mesmo convivendo bem com os detentos, isso por ser ligado ao hip hop, jogar futebol e consumir muita droga com eles. Então optei por fugir.”

Rumo à liberdade, esses três fugitivos tinham como destino a cidade de Taubaté, no Vale do Paraíba. A rota traçada era via matagal. Depois de dois dias se escondendo dos helicópteros que sobrevoavam a região, viram que ainda estavam no bairro de Piedade, em Caçapava, bem longe do destino que desejavam. Decidiram retornar a São José dos Campos por uma estrada de terra, que passava pelo Novo Horizonte, um bairro da cidade.

Alguns dias depois, a população de São José dos Campos passou a conviver com esse foragido e condenado há mais de 6 anos de prisão: Blood vendia doces em um semáforo próximo à delegacia regional da polícia civil no bairro Jardim Satélite. Nesse período, passou por várias “batidas” policiais, mas por estar sempre sem seus documentos, quando abordado, informava o número do RG de um dos seus irmãos.

Blood critica o sistema prisional: “o sistema prisional brasileiro não tem interesse em reintegrar o preso, mesmo que ele cumpra toda a pena. Na cadeia, o preso fica omisso e quando sai, não tem como voltar ao convício com a sociedade. Quando o criminoso conquista a liberdade, tenta ficar firme, não voltar ao crime, mas os convites chegam a toda hora, o crime bate na sua porta”.

Foragido, ele sonhava em mudar de vida, mas não sabia como. O desejo de mudança era frustrado pelas dificuldades enfrentadas: os vícios com as drogas e as bebidas.

Por diversas vezes, foi convidado por um amigo para ir à igreja. Encarava os convites como insistência e acabava se irritando. Foram várias tentativas, até que um dia esse amigo o convenceu. No seu primeiro culto, sentiu que sua vida mudaria. Tinha a sensação de que tudo o que era falado parecia ter sido a história de sua vida.

Apaixonado pelo Hip Hop desde a infância, decidiu levar esse som para as ruas, mas agora com os ensinamentos que recebia nos cultos. Com o passar do tempo, Vicente da Silva Júnior, que já era conhecido como Blood, virou “Blood, O Pastor das Ruas”. Largou o crime, as drogas e começou uma nova vida.

Hoje, com o apoio de familiares e bons amigos, vive outra realidade: é um homem livre. Seu relacionamento com os filhos é excelente, como ele mesmo diz: “minha orientação a eles é que estudem, trabalhem e sejam dignos, já que o crime não compensa”.

Para incentivar outras pessoas que passam pela mesma situação pela qual ele passou, Blood decidiu escrever uma autobiografia. No livro, ele faz a narração de como viveu sua infância e adolescência e descreve como foi sua vida na prisão. Para a nossa reportagem, conta, com satisfação, uma história que não está no livro: aos 7 anos de idade ganhou uma bicicleta do palhaço Bozo, programa de TV exibido pelo SBT na década de 80. Relata também como a cultura e a fé o tiraram da alienação, do caminho errado e o incentivaram a buscar novos conhecimentos.

Atualmente Blood realiza eventos culturais, apresentação de cerimoniais e palestras na Fundação Casa, presídios, casas de recuperação, escolas e praças, todos como serviço beneficente. Para garantir seu sustento honestamente, trabalha com montagem de esquadrias de alumínio.

A história completa de Vicente da Silva Júnior está na autobiografia “Blood, o Pastor das Ruas”. Para adquirir o livro, entre em contato com o próprio Blood, através do telefone (12) 9 8171-6540.

Ricardo Freire é jornalista, colaborador do SindCT

 

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