Em Maceió, a SBPC comemora setenta anos de lutas

 

Da Redação

 

Em seu site, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência - SBPC nos diz que ela é uma entidade civil, sem fins lucrativos ou posição político-partidária, voltada para a defesa do avanço científico e tecnológico, e do desenvolvimento educacional e cultural do Brasil. Desde sua fundação, em 1948, a SBPC exerce um papel importante na expansão e no aperfeiçoamento do sistema nacional de ciência e tecnologia, bem como na difusão e popularização da ciência no País.

Não está escrito no seu site, nem no seu estatuto, mas ao longo dos setenta anos de existência, este agrupamento de cientistas, professores, estudantes e divulgadores das atividades científicas, muitas vezes foi a voz mais ousada no combate ao estado de exceção. Muitos de seus participantes tiveram suas carreiras interrompidas, suas vidas e famílias ameaçadas, muitos foram expulsos do país e alguns até pagaram com a vida a ousadia de discordar de regimes autoritários. Mais do que discordar, a SBPC tomou a frente de movimentos reivindicatórios, de protesto e de inconformismo, quando a sociedade civil como um todo se encontrava amedrontada pelo obscurantismo vigente.

Com o tema “Ciência, Responsabilidade Social e Soberania”, a reunião anual que se realizou em Maceió, de 22 a 27 do mês passado, serviu para comemorar o septuagésimo aniversário desta instituição, mas também a consolidou como porta-voz da comunidade científica em defesa de recursos suficientes para que o país possa se desenvolver através da pesquisa e do desenvolvimento científico e tecnológico. Mais que isso, se prestou a reviver os gloriosos momentos em que ela se colocou na vanguarda da sociedade em defesa dos elementares princípios da democracia.

Como naquele obscuro ano de 1977, em pleno governo militar, quando procurou uma universidade para fazer seu tradicional encontro anual. Primeiro, foi fechado um acordo com a Universidade Federal do Ceará, mas o governo proibiu. O físico Oscar Sala e outros cientistas da SBPC conseguiram, então, transferir o evento para a Universidade de São Paulo.

Mas o governador também vetou. Por fim, graças a intercessão de Dom Paulo Evaristo Arns, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo abriu as portas para a sociedade. Para angariar fundos para o encontro, artistas de peso como Chico Buarque, Gilberto Gil, entre outros, fizeram shows. No dia do tão esperado encontro, os militares foram bater à porta da PUC-SP, mas, lá, graças à firme determinação da presidência da SBPC e à resistência dos participantes, eles não conseguiram entrar e não impediram o encontro de acontecer.

Quando os participantes chegavam, no dia 22 de julho passado, ao Centro de Convenções de Maceió, para a cerimônia de abertura, eram recepcionados por dois bonecões de Olinda, representando o físico Leite Lopes (que disse em 1963: Ciência empobrecida, tecnologia de segunda classe) e Nise da Silveira, médica-psiquiatra, cientista pioneira na terapia junguiana. Enquanto o primeiro se tornou um dos mais respeitados cientistas do mundo inteiro, Nise simboliza a resistência dos cientistas contra os abusos, tendo dedicado a sua vida a combater formas que julgava serem agressivas em tratamentos de sua época, tais como “terapias” com eletrochoque e o confinamento em hospitais psiquiátricos.

No interior do Centro de Convenções a agitação era grande e cada anúncio do nome de ministros do Governo Temer, vaias e apupos eram ouvidos na plateia. O Ministro Kassab fugiu desta manifestação negativa, por não ter comparecido à cerimónia. Quem o representou, o presidente do CNPq, professor Mário Neto Borges, recebeu as vaias, injustamente, por ter uma vida ilibada e dedicada ao ensino.

Em seu discurso de abertura, o professor Ildeu de Castro Moreira não se furtou a abordar temas espinhosos, como soberania nacional, venda da Embraer, entrega de Alcântara, orçamentos minúsculos (o governo tem “ouvidos moucos” para os pedidos de aumento dos recursos para a C&T) e eleições livres, em que todos tenham os seus direitos constitucionais assegurados.

E mais uma vez reafirmou o que todo o país tem repetido: que este governo não tem legitimidade para promover reforma alguma. Exigiu a revogação da Emenda Constitucional 95 (tiros nos dois pés e na cabeça da nação), um paredão que impedirá o desenvolvimento do país. Durante o evento, muitas das falas foram interrompidas pela plateia com o pedido de liberdade para o ex-presidente Lula. Resistir e avançar foram as palavras de ordem do presidente Ildeu. Desigualdade social elevada, soberania do país ameaçada, completou Ildeu.

Para o deputado e ex-ministro de Ciência e Tecnologia Celso Pansera (PT/RJ), que representou a Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática - CCTCI da Câmara dos Deputados, o setor tem avançado no trabalho político junto ao Congresso Nacional, mas ainda é preciso sensibilizar mais os parlamentares sobre os desafios da ciência brasileira. “Não é uma tarefa fácil. Enquanto não tivermos uma bancada da ciência e da inovação o desafio será grande”, comentou o deputado, incentivando que o setor entre efetivamente na política, indicando nomes para concorrer ao Congresso com a pauta da defesa do setor.

Durante o evento, nas inúmeras sessões para os mais de 16 mil participantes, foram discutidos temas como Escola Sem Partido, Alcântara e a expulsão dos quilombolas, arte popular, biodiversidade, racismo, questões indígenas, direitos humanos, programas nuclear e espacial, mostra de fotografias e lançamentos de livros, além de uma sabatina com os presidenciáveis. Porém, o ponto alto da reunião de Maceió ocorreu em uma sessão em comemoração aos 70 anos da SBPC. Nesta, ex-presidentes da Sociedade foram homenageados. No meio da sessão, apareceu o Ministro Kassab, que alegando voo próximo, fez um rápido discurso e já se preparava para abandonar o recinto.

Foi quando o ex-presidente Sérgio Mascarenhas, do alto de seus 90 anos, tomou o microfone e se dirigiu ao Ministro. Sem rodeios, afirmou que o Ministro era um representante de um governo ilegítimo, de uma ditadura que se instalou no país. Instou ainda o Ministro a se redimir, caso ele fosse a voz da comunidade científica. Naquele momento, a plateia aplaudiu de pé o professor Sérgio e um forte sentimento percorreu o recinto: se em algum momento recente a SBPC foi desleixada com sua tradição de resistência democrática, agora ela está no jogo novamente.

Compartilhe
Share this