Soberania Nacional

FINANCIAMENTOS DO BNDES ABREM O MERCADO PARA SERVIÇOS 

 

Celso Amorim: “A Ciência e Tecnologia é o que faz o país crescer”

 

 

Por Fernanda Soares

 

O diplomata e ex-ministro das Relações Exteriores e da Defesa, Celso Amorim, visitou São José dos Campos e participou do debate A Venda da Embraer e a Soberania Nacional, em junho. O debate, organizado por representantes políticos locais, recebeu também o ex-ministro do Trabalho e Emprego e da Previdência Social e ex-prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho, além da representante dos trabalhadores da Embraer e sindicalista, Marina Sassi.

O SindCT aproveitou a oportunidade para denunciar ao diplomata Amorim o déficit de pessoal em todas instituições de Ciência e Tecnologia no país e a situação difícil pela qual passam os institutos, principalmente após o congelamento dos gastos públicos (EC-95).

O Jornal SindCT também foi recebido por Amorim, para uma entrevista exclusiva.

 

SindCT - Quais as semelhanças entre os casos CSN, Petrobras e Embraer, que foram criadas como instrumentos para garantir a soberania nacional, mas que se transformaram em commodities do mercado financeiro?

 

Amorim - Essas empresas foram criadas, não com o objetivo de visar lucro, mas de fomentar o desenvolvimento nacional. No caso da CSN [Companhia Siderúrgica Nacional] e da Petrobras, obviamente, porque são empresas que fornecem insumos para toda a indústria, como o petróleo e o aço. Foram governos nacionalistas que as criaram. A Embraer é uma empresa ligada à tecnologia avançada, mas criada também para desenvolver a capacidade brasileira na área tecnológica e só o estado se interessou por sua criação.

 

SindCT - A C&T vem sofrendo diversos contingenciamentos. Esse tipo de situação compromete a soberania do nosso país?

 

Amorim - Recurso orçamentário nunca foi fácil, mas esse congelamento, por 20 anos, realizado por emenda constitucional (EC-95), é inconcebível. Nessa situação orçamentária são atendidas as demandas emergenciais, mas a C&T, que necessita de uma visão de país a longo prazo, é afetada de maneira muito negativa. A C&T é o que faz o país crescer. É claro que a indústria é muito importante, mas a tecnologia que está embutida na indústria é a responsável pelas vantagens comparativas que o país tem. A C&T é uma área importante para a economia brasileira, para o crescimento do país e para nossa projeção mundial.

 

SindCT - Qual a lógica dos empréstimos do BNDES a países estrangeiros?

 

Amorim - Os empréstimos são feitos para fomentar as empresas brasileiras. As ações realizadas na África, por exemplo, além de contribuir para o desenvolvimento das empresas brasileiras, geraram a aproximação entre os países, mas sempre visando ajudar nossas empresas, a mão de obra brasileira, a geração de empregos no Brasil. Fui representante do Brasil no antigo GATT, que deu origem à Organização Mundial do Comércio. Lá se negociava o final da chamada Rodada Uruguai. Ali, um dos grandes objetivos dos países desenvolvidos era abrir mercado para serviços; é justamente isso que fazem os financiamentos do BNDES.

 

SindCT - O senhor foi assessor de relações internacionais do ministro Renato Archer, nos anos 80. Qual era a visão do governo sobre o programa espacial e como o senhor atuou nas negociações do Projeto CBERS?

 

Amorim - Renato Archer foi o grande percursor da visão de que Ciência e Tecnologia são importantes para o desenvolvimento do país. Talvez o grande feito dessa época seja o acordo com a China para construção e lançamento de satélites. Na época, com o diretor do INPE, Marco Antonio Raupp, e Renato Archer visitamos a China e demos início a essa cooperação espacial. Estive envolvido, mas não quero atribuir a mim nada especial, pois éramos um grupo. Foi a [união da] ambição do Renato com o conhecimento técnico do Raupp e a capacidade técnica, que existia no INPE, que permitiu esse acordo. Eu me dediquei a levar isso adiante. Quando fui Ministro das Relações Exteriores e Israel Vargas era Ministro da C&T, ele frequentemente me pedia: “Celso, peça a Itamar os recursos para manter nosso CBERS funcionando”. Me sinto muito ligado a esse projeto e durante muito tempo eu dizia que esse era o maior projeto de cooperação entre dois países em desenvolvimento.

 

SindCT - Como o senhor vê a possibilidade de o Brasil entregar a Base de Alcântara aos USA?

 

Amorim - O governo atual, desculpe dizer, sem legitimidade, não podia negociá-la. Isso tem que ser negociado, se é que deve ser, num momento de total transparência, em que todos os interessados participem. Podemos ter acordos também com a Rússia, com a China, que não façam as mesmas exigências. As pessoas querem viabilizar Alcântara, mas isso deve ser feito de uma maneira que não seja negativa para a soberania nacional.

 

SindCT - Quando o senhor foi Ministro da Defesa e, depois, das Relações Exteriores, se envolveu com as tratativas do projeto Alcântara Cyclone Space?

 

Amorim - A questão da Ucrânia foi muito complexa. Talvez exigisse um tratamento que não pôde ser feito. Ninguém previa a mudança política que a Ucrânia passou, que complicou a execução do projeto. Além disso, os recursos necessários se revelaram maiores. Mas eu não quero fazer nenhuma crítica, são coisas que acontecem. O fatal foram as mudanças que ocorreram na Ucrânia. Grande parte dos cientistas são do lado russo e não sei como ficou a situação deles. Foi inevitável chegar a esse ponto.

 

SindCT - A imprensa divulgou que o senhor pode ser vice de Lula, ou de Ciro Gomes, ou ainda candidato a presidente...

 

Amorim - Eu estava muito cotado para ser governador do Rio de Janeiro e disse que, por razões pessoais, não podia concorrer. As mesmas razões me impedem de concorrer a algo maior.

 

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