Brasil

INDÍGENAS QUEREM ROMPER A FALTA DE REPRESENTATIVIDADE NA POLÍTICA 

 

Sônia Guajajara quer montar frente indígena no Congresso

 

Por Shirley Marciano

 

Sônia Guajajara já está com sua pré-candidatura bem organizada e sendo apoiada por diversos movimentos sociais. A primeira mulher indígena a pleitear um cargo tão alto no Brasil tem um histórico de muitas lutas e conquistas. Ela considera ser a hora de dar passos mais ousados e quer emplacar um novo jeito de fazer política, porque, para ela, a velha política não encontra mais eco na sociedade.

Formada em Letras e em Enfermagem, especialista em Educação Especial pela Universidade Estadual do Maranhão, Sônia tem voz no Conselho de Direitos Humanos da ONU e já levou denúncias às Conferências Mundiais do Clima, de 2009 à 2017, além do Parlamento Europeu, dentre outros órgãos e instâncias internacionais. No ano passado, discursou contra o governo Temer e pela demarcação de terras indígenas durante o Rock in Rio, convidada pela cantora Alicia Keys.

Em 6 de junho, a Web Rádio CT recebeu Sônia para uma entrevista exclusiva, que transcrevemos para nossos leitores.

 

SindCT - Quantas candidaturas indígenas existem hoje? Como a senhora vê o aumento desta participação?

 

Guajajara - Isso se deu pelo fato de o próprio movimento indígena decidir, coletivamente, participar desses pleitos, de modo a fazer parte da política institucional. Historicamente, a gente sempre esteve na luta, nas mobilizações, defendendo bandeiras, mas sempre desse lado da resistência. Nós vimos que não era suficiente fazer a luta somente pelo viés dos movimentos, que teríamos que dar um passo à frente para também ocupar espaços políticos institucionais.

No ano passado, a APIB [Articulação dos Povos Indígenas do Brasil] lançou a carta "Por um parlamento cada vez mais indígena". Hoje temos cerca de 50 candidaturas, das quais 12 ou 13 são pelo PSOL. A ideia é montar uma frente indígena, todas as candidaturas com esse compromisso de lutar pelas bandeiras indígenas, independente do partido em que o candidato esteja. Em São Paulo temos três pré-candidaturas indígenas, sendo as três mulheres.

 

SindCT - O que a senhora vê na situação da política brasileira?

 

Guajajara - A gente está vivendo um momento delicado. Uma conjuntura muito dura, de muitos ataques aos direitos, não só dos indígenas, mas de todos os trabalhadores e trabalhadoras, dos povos originários, dos povos tradicionais, além de muita agressão à natureza. Nesse período em que o Guilherme [Boulos] e eu temos circulado por todo o Brasil, percebemos que as pessoas estão muito descrentes da política e sem esperança, porque são muitas mazelas e desgraças. São crises sociais, ambientais e de ética. O povo não consegue acreditar nessas pessoas da velha política. Nós estamos semeando uma nova forma de fazer política e trazendo muitas pessoas, porque elas estão buscando alternativas para construir junto.

 

SindCT - Como a senhora acolheu o convite para fazer parte da chapa de Boulos? Como foi a aproximação?

 

Guajajara - Não foi exatamente um convite, mas uma construção coletiva, porque essa decisão de aceitar essa pré-candidatura se deu com muito diálogo com os diversos movimentos sociais. Foi uma construção entre os indígenas, o MTST, os movimentos Fora do Eixo, Mídia Ninja, 342 Artes, 342 Amazônia, Movimento Feminista, Movimentos da Periferia, de Mulheres, Juventude e LGBT.

 

SindCT - A senhora foi pré-candidata a presidente?

 

Guajajara - Sim. Inicialmente, o setorial Eco Socialista, do PSOL, lançou minha pré-candidatura à presidência, e isso ajudou muito a chegar a esse ponto, de tomar a decisão de compor uma chapa presidencial. Nesse tempo, a gente divulgou bastante a nossa pauta. Teve muita repercussão nacional e internacional. Foi bem acolhida. Nosso movimento se levantou para concorrer ao poder executivo. No começo, a ideia era concorrer ao parlamento, mas a gente quis dar um passo a mais.

 

SindCT - Antes do golpe contra a presidente Dilma, a senhora lutava contra diversos projetos no Congresso Nacional, que retiravam direitos dos indígenas. Como está agora?

 

Guajajara - É um momento de ataques à democracia, aos direitos, aos povos e à vida das pessoas. Quando retiram as terras dos povos, estão levando sua capacidade de viver. Então é preciso muita batalha, muita mobilização, muito enfrentamento e esse embate direto contra esses retrocessos. Já há algum tempo a gente vem lutando contra os retrocessos que tramitam no congresso. É o caso da PEC 215, que é muito perigosa. Ela transfere a responsabilidade das demarcações (das terras) do Executivo para o Legislativo. A tentativa é inviabilizar a regularização de terras indígenas, porque, ficando na mão do Congresso Nacional, nessa composição que tem hoje, a gente sabe que a intenção é nunca mais demarcar nenhuma terra. No Congresso, a maior bancada é a ruralista. A ideia é dar a eles o poder de dizer "não" ao reconhecimento de terras indígenas. A gente lutou muito, fez muita pressão e a PEC está paralisada. Hoje, no Congresso, não tem nem 20 políticos que apoiam a bandeira indígena.

 

SindCT - A senhora entregou a motosserra de ouro à então ministra Kátia Abreu, em protesto contra o Código Florestal. Quais são os principais problemas do Código Florestal? No que ele prejudica o meio ambiente e a vida da população indígena?

 

Guajajara - Essa aprovação foi uma perda grandiosa. Foi uma perda para todo povo brasileiro, porque afeta o meio ambiente, independente de quem mora na zona urbana ou rural.

Os pontos altos são a anistia para quem desmatou, a redução das áreas de preservação de rios e riachos e a diminuição de zonas de amortecimento para poder desmatar. A Katia Abreu estava à frente da CNA [Confederação Nacional da Agricultura], era senadora e, logo depois, ministra da Agricultura. Ela tinha três funções de titularidade para atender aos interesses desses três setores. Foi complicado minimizar os retrocessos, porque os interesses vinham de setores poderosos. A gente só podia contar com a nossa coragem e com algumas poucas pessoas.

Antes, os ambientalistas pensavam que lutar pelo meio ambiente era totalmente diferente de lutar pelas questões sociais. A gente inseriu as pautas indígenas, no que diz respeito às demarcações, porque o próprio modo de vida dos indígenas é uma forma de preservar o meio ambiente.

 

SindCT - Gostaria que a senhora falasse de sua participação na ONU e nos demais órgãos internacionais, como o Parlamento Europeu.

 

Guajajara - Essa via de denúncia internacional tem sido pouco utilizada. Ela pode não resolver, mas ela é importante. Ajuda a pressionar, dar visibilidade às lutas e, de certa forma, constrange o governo no caso do descumprimento de algumas recomendações. No ano passado, o Brasil foi avaliado pelo periódico universal, que acontece de dez em dez anos. O governo brasileiro apresentou um relatório em Genebra com duas ou três páginas, que mais parecia um relatório da Suécia. Dava a entender que estávamos numa situação harmônica: educação funcionando bem, sistema carcerário ótimo, a questão da criança e do adolescente, tudo certo, as mulheres bem... O relatório estava romantizado.

Juntamos um bloco de mais de 20 organizações da sociedade civil e elaboramos um relatório participativo, abordando os mesmos temas. Nosso relatório teve mais de 100 páginas e a gente apresentou mais de 200 recomendações. Entregamos ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, que fica em Genebra.

Fizemos articulação nas embaixadas dos países que avaliariam o Brasil. A ideia era sensibilizá-los. Isso gerou mais de 80 recomendações de outros países para o Brasil. Destas, 20 diziam respeito à questão indígena. Tratavam também do enfraquecimento e sucateamento dos órgãos públicos federais e outros temas. Foi a primeira vez que um país teve recorde de recomendações dos países conselheiros.

 

SindCT - A partir das denúncias feitas pelos movimentos, os órgãos internacionais têm um outro mapa do Brasil?

 

Guajajara - Têm, sim. Inclusive, nas Nações Unidas, em Nova Iorque, a partir das nossas denúncias... eles diziam estar surpresos. Falavam que tinham a impressão de que havia um outro tratamento com os povos, com a sociedade civil, porque nunca chegaram denúncias de forma sistematizada. Hoje a gente tem um país desgovernado, um país que não escuta a sociedade civil e o grito por justiça.

 

SindCT - O cantor Caetano Veloso tem sido avalizador da sua campanha e da campanha do Guilherme Boulos. É uma campanha popular? Gostaria que a senhora comentasse.

 

Guajajara - O Caetano tem acompanhado bastante desde a construção da nossa aliança para composição dessa chapa. Nossas primeiras reuniões aconteceram na casa dele e a gente continua realizando algumas reuniões lá. Ele e sua companheira, Paula Lavigne, têm promovido muitos eventos na casa deles. É muito importante ter esse apoio e parceria. Ele tem uma luta muito forte na questão ambiental. A Paula é uma ativista e tem trazido muitas pessoas para esta causa. Esse apoio ajuda muito porque é um meio ao qual não temos acesso fácil. Eles fazem a intermediação do diálogo com os demais artistas.

 

SindCT - O índio tem que abdicar de suas raízes e de sua cultura para atender exigências do Estado?

 

Guajajara - Não tem que abdicar, mas, historicamente, fomos muito pressionados, ou mesmo obrigados a deixar nossos costumes e cultura para continuar vivendo. No período da colonização e, depois, na ditadura, houve uma tentativa de extermínio dos povos indígenas. Em Xucuru, no estado de Pernambuco, os mais velhos contaram que, durante a colonização, a catequização forçava os índios a falar português para facilitar o entendimento. Os indígenas que eram pegos falando sua língua nativa tinham sua língua cortada, como forma de castigo.

No noroeste do Paraná, os indígenas contaram que, em 1968, chegou um avião da FAB e pegou os indígenas que estavam ali. Eles foram obrigados a entrar no avião para serem levados para um outro lugar. Uns que se recusaram a ir, fugiram pela mata. Os que não conseguiram fugir foram mortos. Muitos dos que foram não conseguiram se adaptar e morreram de depressão e de tristeza. Por isso, na Amazônia, tem mais de 100 grupos de indígenas sem qualquer contato com a sociedade.

 

SindCT - Gostaria que a senhora comentasse sobre a questão dos povos indígenas e quilombolas que estão nos arredores do Centro de Lançamento de Alcântara - CLA.

 

Guajajara - Nós estamos, com o ISA [Instituto Socioambiental], fazendo esse levantamento das questões fundiárias, das demarcações de terra indígenas e quilombolas e também das unidades de conservação. Até o final desta semana teremos isso listado. Vamos ter um mapa da situação de território quilombola e também sobre a questão dos impactos dos empreendimentos, tanto no caso do CLA como noutros, causados por especuladores imobiliários.

 

Compartilhe
Share this