Editorial

Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais

Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção... Era o ano de 1970, o Brasil seria tricampeão, na primeira copa do mundo de futebol transmitida ao vivo. A ótima marchinha de Miguel Gustavo, compositor, radialista e poeta brasileiro, viralizava o país, massificada pela Rede Globo, que, criada em 1965, francamente favorável à ditadura, tornava-se hegemônica em pleno governo Médici. Os publicitários da ditadura se apropriaram logo da peça, assim como copiaram slogans nacionalistas e xenófobos de outros países. “Ninguém segura mais este país” era adaptação de “Nadie detiene España”, utilizado pelo ditador Francisco Franco. “Brasil, ame-o ou deixei-o” era cópia de “America, love it or leave it”, dos defensores da guerra dos Estados Unidos contra o Vietnã.

Ultimamente o país tem revisitado as mesmas circunstâncias destes acontecimentos e a ausência de memória, para além das conquistas esportivas, tem feito repetir a história das manipulações, das explorações, das enganações. Parece que um “buraco de minhoca”, daqueles de Stephen Hawking, transportou de lá para cá os mesmos contextos.

Já tem sido clichê falar da política de pão e circo e das mazelas corruptivas em torno da CBF ou dos escândalos da FIFA e seria por demais inoportuno no momento em que o apito já trinou, o Messi, coitado, já errou e o Neymar Jr já caiu tantas vezes. A hora é, sem dúvida, de torcer pela vitória da seleção canarinho, para que o povo, sofrido desta terra e, por que não, também seus patrícios opressores, tenham, aqueles, pelo menos esta alegria e estes, mais esta.

Entretanto, enquanto se pula e se comemora efusivamente, nas arquibancadas, o gol espetacular do time, o coração sobressaltado e o grito a ecoar goool, é preciso cuidar do larápio que corteja a carteira e o celular. Para ser mais claro, como seria bom se o povo, além de assim legitimamente comemorar, também cuidasse do que é seu, patrimônio que está sendo dilapidado, aproveitando o desvio das atenções.

Pra não ser estraga-prazeres, citaremos apenas que, por R$ 3,15 bilhões, o governo Michel Temer vendeu três áreas importantes do pré-sal, na quarta rodada de leilões desde que chegou ao poder pelo golpe parlamentar que derrubou a presidenta Dilma Rousseff. Quando foi anunciada a descoberta destas reservas, a oposição de então, esta mesma turma entreguista de agora, dizia que era um engodo, porque não seria economicamente viável. A realidade: mais da metade da produção atual vem do pré-sal, que fez o Brasil saltar à nona posição do ranking dos maiores produtores. A ganância internacional não deixou por menos: já abocanha renda que, originalmente seria destinada à saúde, educação e desenvolvimento científico-tecnológico; agora é lucro de multinacionais, isentas, nos pregões a preço de banana, de pagar impostos por vinte anos!

Após a Copa, o setor científico tecnológico terá outro evento, menos glamouroso, sem cobertura plim-plim, mas muito mais importante para o país: a 70ª Reunião Anual da SBPC, de quem a comunidade científica espera o resgate de seu protagonismo histórico de denunciador implacável dos desmandos deste governo ilegítimo, que desmonta a infraestrutura científica do país e aliena a soberania nacional, em detrimento da promoção econômica e social do povo brasileiro.

Neste contexto, a reestruturação do IAE é resultado da incapacidade dos dirigentes de reverter a degradação dos orçamentos e da força de trabalho, há décadas apresentando a derivada negativa, que, a olhos nus, mostra a inevitável decadência. A reestruturação não é para se adequar a uma desejada necessidade de aumentar a produtividade, mas tão somente para se adequar ao encolhimento. O IAE resultante não é nem sombra do que já foi, onde se criou o motor a álcool e, como consequência, o Programa Proálcool, que projetou o país como referência mundial na produção e consumo de energia renovável. Tomara que o Comitê de Desenvolvimento do PEB, instituído pelo Decreto Presidencial 9.279, possa reverter esta depressão, porque esta reestruturação é a última, daqui a dois anos o descontrole já estará transformado em caos.

Por fim, nesse processo, que engoliu o IPD em 1991, agora também, nessa reestruturação, engoliu a ASA, Divisão de Sistemas Aeronáuticos, originalmente Departamento de Aeronaves (PAR), de onde o Avião Bandeirante eclodiu do Projeto IPD 6504 e dele a Embraer, que também é alvo da insaciável ganância internacional.

Enquanto Temer entrega tudo, Trump recolhe; liberalismo aqui, reserva de mercado lá.

Aliás, as charges desta edição retratam: na primeira página, o entreguismo das riquezas, do “terceiro mundo” para o “primeiro mundo” (quem ordenou, sob qual aspecto?); e nesta página, a energúmena e truculenta retribuição.

Como a diplomacia golpista está ajudando as famílias brasileiras que passam por estas opressões absurdas? E a ONU, serve pra quê?

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