Mulheres do Vale ocupam lugar de destaque no Hip Hop

Fernanda Soares

O movimento Hip Hop é um gênero, uma subcultura iniciada nas áreas centrais de comunidades jamaicanas, latinas e afro-americanas da cidade de Nova Iorque. Afrika Bambaataa, reconhecido como o criador do movimento, estabeleceu quatro pilares essenciais na cultura Hip Hop: o rap (através dos MCs – Mestres de Cerimônia), o DJ, a dança e o grafite. “Quem não é do movimento, pode achar que Hip Hop é apenas um gênero musical, mas não faz ideia de que sua cultura vai muito além da música”, afirma o MC Betinho Zulu.

No Brasil, o Hip Hop aparece na década de 80 e tem ganhado cada vez mais adeptos e admiradores. Porém, o destaque maior se dá com o constante aumento da presença feminina, principalmente no rap, a partir do ano 2000.

A palavra rap é uma abreviatura de rhythm and poetry ou ritmo e poesia, em inglês. Os rappers utilizam uma técnica vocal diferente para acompanhar os Djs. Com a música, surgiram formas diferentes de danças improvisadas, como a breakdance, o popping e o locking.

A relação entre o grafite e a cultura rap music surgiu quando novas formas de pintura foram sendo realizadas em áreas onde a prática dos outros três pilares do Hip Hop eram frequentes, com uma forte sobreposição entre escritores de grafite e de quem praticava os outros elementos.

Além de cultura, o movimento também se preocupa com educação, economia social e combate a qualquer tipo violência. É muito comum encontrar integrantes do Hip Hop atraindo jovens carentes, com o intuito de afastá-los da criminalidade e das drogas.

No Vale do Paraíba, alguns eventos se tornaram referência. Em Jacareí, a Batalha dos Trilhos acontece uma vez por semana, no Pátio dos Trilhos, região central da cidade. O evento consiste numa disputa livre entre os MCs, que devem respeitar determinadas regras, como a não utilização de palavras de baixo calão, ofensas, machismo, racismo e demais preconceitos a qualquer classe, credo, gênero ou etnia. Em São José dos Campos, a Batalha do Half, também semanal, é realizada na Praça Benedita de Alvarenga, no Conjunto Residencial Dom Pedro I. Há também a Batalha dos Peregrinos, mensal, em Taubaté, a Batalha da Pedra Taiada, em Caçapava e a Batalha do Coreto, em Paraibuna.

Foi nessas batalhas que as principais MCs da região ganharam projeção. Em suas músicas, elas falam sobre violência doméstica, machismo, homofobia, feminicídio e violência contra a juventude negra. Muitas letras são retrato das dificuldades que elas mesmas enfrentam.

Hoje elas protagonizam seus próprios eventos, ações e projetos, sempre pautando a igualdade de gêneros e a valorização das mulheres nos espaços de poder.

O grupo D´Origem, formado por Meire MC e MC Preta Ary, resgata de forma divertida e irreverente, assuntos do cotidiano brasileiro que, na opinião do grupo devem ser discutidos. Em suas letras, buscam evidenciar a força da mulher, empoderá-la e retratar sua realidade.

Foi da necessidade de formação para as mulheres, além do entretenimento num ambiente seguro, acolhedor e familiar, que surgiu, em São Paulo, a Batalha Dominação, hoje referência de  batalha feminina e feminista. Seguindo esse exemplo, as integrantes do Coletivo Triluna organizaram, no Vale do Paraíba, a Batalha feminina "Na Caneta ou No Batom". “Entendemos que, coletivamente, podemos tudo o que quisermos, é só nos organizarmos”, conta Meire MC.

Na Caneta ou no Batom já teve cinco edições em apenas um ano e meio de existência, atingindo um público cada vez maior. “Já tivemos edições com 420 mulheres”, afirma Meire.

Para a MC Mia Bennedit, “o Hip Hop traduz aquilo que eu vivo no meu dia a dia. É onde eu posso me expressar. É onde eu sou eu mesma e tento me aprofundar a cada dia mais. Mostro para as pessoas o que eu sinto e quem eu sou, uma pessoa diferente; e sempre tento transmitir o bem. É também uma forma de ajudar as pessoas, principalmente as mulheres e crianças.”

“É através do Hip Hop que nos mostramos juntos em uma só cultura, dispostos a derrubar qualquer barreira que tente nos calar. O Hip Hop é a nossa maneira de protestar e nos dar a própria voz, sendo na arte, na música ou na dança,” completa a MC Dudão.

O Hip Hop também representa companheirismo e estimula a superação pessoal. Prova disso foi a homenagem realizada para a MC Jéssica, durante a última edição da batalha Na Caneta e no Batom, por superar problemas pessoais.

Além das batalhas de rimas, o Coletivo Triluna também promove encontros e rodas de conversa com o intuito de formar e preparar as mulheres do movimento Hip Hop e empoderá-las!

Em entrevista para o Jornal do SindCT, Meire define sua relação com o Hip Hop: “o Hip Hop, pra mim, representa luz... uma saída, um meio de transformação social e pessoal. Acredito verdadeiramente que a solução para um mundo melhor, a revolução, será por meio da arte, da cultura e da educação. E acredito também que essa revolução virá por meio das mulheres, aliás, já está acontecendo e esse é só o começo.”

A dança e o grafite também estão presentes como forma de manifestação pessoal. Na opinião de Mia Bennedit, o grafite é uma forma de expressão tão importante quanto música, poesia e dança. “Muita gente fala que grafite não é cultura, que é pichação. Mas muitas pessoas usam o grafite para mostrar ao mundo o que elas realmente querem dizer.”

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