IPCC e a Síntese das Informações Científicas sobre Mudanças Climáticas

Dr. Vicente de P. C. Nogueira

Em 1988, a Organização Meteorológica Mundial - OMM e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente - PNUMA criaram o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas - IPCC com objetivo de produzir relatórios, com base em informações científicas disponíveis, de avaliações sobre os vários aspectos relacionados às mudanças climáticas. Esses aspectos envolvem os impactos sociais e econômicos destas mudanças, mas também impactos sobre ecossistemas e processos da natureza, provocados pela ação do homem ao meio.

O primeiro relatório do Painel, lançado em 1990, trouxe evidências científicas e indicativos importantes de que as mudanças climáticas eram um desafio que demandava cooperação internacional para enfrentar suas consequências. Por conseguinte, o Painel teve papel decisivo para a criação da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas - UNFCCC. A UNFCCC é o principal tratado internacional para reduzir o aquecimento global e lidar com as consequências das alterações climáticas.

Os relatórios são produzidos em bases regulares, sendo que, nesses últimos 30 anos cinco grandes sínteses da literatura científica sobre mudanças climáticas e mudanças ambientais globais foram produzidos. Esses documentos são denominados de “Assessment Reports, AR” (Relatórios de Avaliação, em tradução livre).

O IPCC também produz relatórios metodológicos e relatórios especiais, sob demanda da Convenção do Clima. O painel de cientistas que contribuem ao IPCC, é composto por indicados pelos países, selecionados a partir da sua contribuição à ciência das mudanças climáticas e mudanças ambientais.

Os relatórios científicos de avaliação do IPCC são produzidos por 3 grupos de trabalho:

 O Grupo de Trabalho 1 avalia os aspectos físicos do sistema climático e as mudanças climáticas;

 O Grupo de Trabalho 2 avalia a vulnerabilidade dos sistemas socioeconômicos e naturais às mudanças climáticas; assim como as consequências positivas e negativas das mudanças climáticas e opções para se adaptar a elas. Outro aspecto importante da abordagem do GT2 é avaliar a inter-relação entre vulnerabilidade, adaptação e desenvolvimento sustentável;

 O Grupo de Trabalho 3 visa os aspectos da mitigação às mudanças do clima, avaliando medidas de limitação ou prevenção das emissões dos gases do efeito estufa.

Os resultados dos Relatórios de Avaliação - AR5, publicados em 2014, para a América do Sul, indicam mudanças importantes na dinâmica climática, nos impactos socioeconômicos e na biodiversidade (veja imagem extraída do Relatório do IPCC WGII). Alguns exemplos incluem identificação do aumento no número de dias quentes no ano, em especial na região nordeste do Brasil e nas regiões sudoeste e na costa oeste da América do Sul. Da mesma forma, o aumento na quantidade de eventos de chuvas mais intensos tem levado à ocorrência de um número maior de deslizamentos, impactando um grande número de pessoas, especialmente na região sudeste da América do Sul.

Rios da região da Bacia do Prata e Amazônica enfrentaram, nos últimos 10 anos, extrema variabilidade nos fluxos de água, comprometendo a disponibilidade hídrica para consumo, transporte, agricultura e geração de energia. Inclusive a questão energética no Brasil está bastante ligada à disponibilidade hídrica nos reservatórios.

Alterações na composição da atmosfera, como na concentração de gases do efeito estufa, aerossóis, vapor d'água etc determinam alteração no balanço entre a energia do sol que chega na Terra e a energia que deixa nosso planeta ao espaço. Este processo, chamado de Efeito Estufa, leva ao aquecimento da atmosfera, e consequente aumento na temperatura do ar.

No AR5, as simulações por modelos matemáticos, bastante complexos, indicam um aquecimento entre 1,0°C e 5,0°C na região tropical da América do Sul (que inclui as regiões Norte, Centro-Oeste e parte da Sudeste), com redução de chuvas em até 10% nos próximos 50 anos. Em outras regiões como o Sul do Brasil, Uruguai e Norte da Argentina projeta-se um aumento similar na temperatura, entretanto com aumento de cerca de 10-15% na quantidade de chuvas.

Os diversos 'grandes compartimentos' do planeta (atmosfera, continentes e oceanos) interagem na troca de energia e matéria (água, nutrientes, espécies biológicas etc), contribuindo, entre outros processos, para os padrões climáticos que temos. Desta forma, alterações em qualquer um desses compartimentos, afeta o outro. Por exemplo, mudança da cobertura do solo (desmatamento, degradação florestal, etc.) é um fator importante de impacto à biodiversidade, mas também pode contribuir aos impactos negativos das mudanças climáticas. Na América do Sul, e em especial no Brasil, o desmatamento ainda está associado à expansão da agricultura e, especialmente, pecuária.

Apesar da importante redução nas taxas de desmatamento na Amazônia e no Cerrado nos últimos 10 anos, observa-se, recentemente, um retorno às taxas crescentes. A produção de alimento é central à sobrevivência humana, mas a humanidade tem que buscar a sustentabilidade ambiental e social na produção agropecuária. Ou seja, produzir com reduzido impacto ambiental e de forma socialmente justa.

De forma geral, a América do Sul apresenta um quadro de grande heterogeneidade social. Isto também pode ser observado nos países que a compõem. Quanto maior a distinção entre as classes sociais, maior a vulnerabilidade daquela sociedade às mudanças ambientais e climáticas. Ou seja, a melhoria das condições sociais contribui não apenas para uma sociedade mais justa, mas também a uma sociedade mais preparada para enfrentar o sério cenário das mudanças climáticas.

O IPCC está entrando no seu sexto ciclo de produção de relatórios de avaliação, denominado AR6. Especialistas de todo o mundo, representando as diversas disciplinas necessárias para produzir uma avaliação abrangente do conhecimento relacionado à física do clima e as questões relacionadas aos impactos, adaptação, vulnerabilidade e mitigação das mudanças climáticas, já foram selecionados. Pesquisadores do INPE contribuirão com o relatório nos Grupos 1 e 2.

 

Jean Ometto é pesquisador do INPE e Coordenador do Centro de Ciências do Sistema Terreste(CCST)  jean.ometto@inpe.br

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