Biologia Evolutiva

DESVENDANDO ASPECTOS DA EVOLUÇÃO E ECOLOGIA DAS PLANTAS 

 

A Biodiversidade e porque isso importa

As mirtáceas são as estrelas dos biomas brasileiros e a chave para o equilíbrio ambiental das nossas florestas e savanas

 

Por Thaís Vasconcelos 

Qualquer um há de concordar que vida é a coisa mais importante no mundo. No Brasil temos uma abundância de formas de vida muito acima da média mundial. É a chamada biodiversidade. Ainda sabemos muito pouco sobre a história dessa biodiversidade e o que faz ela ser tão abundante. Compreender a história e organizar a biodiversidade que nos cerca é o trabalho de um ramo da biologia: a sistemática. Os biólogos sistêmatas se debruçam sobre todos os aspectos da biologia de um grupo de organismos específicos, incluindo sua evolução e ecologia. Eu sou uma bióloga sistêmata com enfoque evolutivo e, durante os últimos sete anos, me debrucei para entender todos os aspectos da biologia de um grupo de organismos, as mirtáceas (ou Myrtaceae, nome científico aceito).

Você já comeu uma pitanga, uma jabuticaba ou uma goiaba? Então você já comeu uma mirtácea! Nós escutamos falar muito das bromélias e do pau-brasil, na Mata Atlântica, e dos ipês e caliandras, no Cerrado. Mas as mirtáceas, que são tão diversas, passam quase como totais desconhecidas. Andando em qualquer pedaço de cerrado, mata atlântica e até mesmo na Amazônia, você já cruzou com uma ou várias mirtáceas, mas provavelmente achou que era um matinho qualquer ou uma árvore sem importância.

As mirtáceas têm um papel extremamente importante no ecossistema destes biomas. No Brasil, todas as mirtáceas produzem frutos carnosos, com polpa rica em nutrientes e são a base para a alimentação de aves e mamíferos silvestres. As flores, ricas em pólen, têm um papel fundamental no ciclo de vida das abelhas nativas. As mirtáceas são as estrelas dos biomas brasileiros e a chave para o equilíbrio ambiental das nossas florestas e savanas.

Ao entender a história das mirtáceas, podemos compreender vários aspectos dos nossos biomas e da nossa biodiversidade. Estudando sua história evolutiva, descobri que estas provavelmente chegaram à América do Sul há 40 milhões de anos. Vieram do outro lado do mundo, onde hoje fica a Nova Zelândia, e migraram para este continente através da Antártida, que, naquela época, não era coberta de gelo e tinha uma floresta parecida com a encontrada hoje no Chile. Sabemos disso por causa das relações de parentesco entre as mirtáceas daqui e de lá e por causa de fósseis encontrados na Patagônia e na Península Antártida. Além disso, essa rota era possível porque naquela época os continentes do hemisfério sul do globo ainda eram muito mais próximos.

Durante quase 40 milhões de anos, a relação de equilíbrio entre as mirtáceas e a fauna nativa construiu a grande biodiversidade que observamos hoje. O tempo de floração, de frutificação, os ambientes propícios para cada espécie viver e a relação delas com a fauna local, faz parte de um equilíbrio que perdura e mudou pouco por muitos milhões de anos. Essa relação de extrema harmonia fez a biodiversidade de mirtáceas crescer ao longo do tempo e resultar na abundância de formas que vemos hoje. Novas espécies de mirtáceas são descritas todo mês e, a cada ano, novos aspectos da evolução e ecologia dessas plantas são desvendados, ajudando a demonstrar também o potencial do uso dessas plantas para a medicina e a alimentação.

Mas o ritmo de descoberta não tem sido rápido o bastante para ultrapassar o ritmo de destruição desse equilíbrio duradouro. As mudanças climáticas e a destruição dos ambientes naturais têm levado ao desequilíbrio desse sistema e uma grande proporção de espécie está sendo levada à extinção, seja pelo desmatamento ou por consequência direta da redução da fauna de polinizadores e dispersores.

É possível mudar esse cenário se investirmos em um maior conhecimento da biodiversidade, que torna possível criar iniciativas de conservação mais eficazes com um menor custo. Compreender a dimensão dessa diversidade também é a base para desenvolver tecnologias que dependem desta. É impossível trazer constante inovação sem um conhecimento pleno da matéria prima necessária. Sem esse conhecimento de base, avanços tecnológicos nas áreas da agropecuária, da descoberta de compostos químicos e produção de fármacos e do desenvolvimento sustentável ficam comprometidos. E o Brasil desperdiça essa que é uma de suas maiores qualidades, a imensidão dos recursos da biodiversidade tropical.

Eu espero que, através desse texto, o leitor tenha um pouco mais de conhecimento e respeito com sua biodiversidade nativa tão notável. A próxima vez que você vir uma mirtácea, lembre-se que se trata de uma planta muito especial, uma das chaves no equilíbrio dos ecossistemas brasileiros.

 

Thaís Vasconcelos, de 29 anos, graduada em ciências biológicas, mestrado em botânica pela Universidade de Brasília e PhD em Sistemática e Biologia Evolutiva (2017) pela University College London e Royal Botanic Gardens Kew, recebeu a Medalha John C Marsden Medal, um prêmio anual entregue à melhor tese de doutorado em biologia para programas de pós-graduação do Reino Unido.

Ela recebeu a honraria pela Linnean Society de Londres. Fundada em 1788, é a mais antiga sociedade para estudo de história natural do mundo. Sua sede, no centro de Londres, é popular no mundo da biologia como o palco onde a Teoria da evolução foi apresentada pela primeira vez por Darwin e Wallace, em 1858.

Thaís é a primeira pessoa latino-americana a receber esta honraria. Alguns capítulos de sua tese foram publicados em respeitados periódicos científicos internacionais.

Em seu doutorado, foi estudar no Reino Unido graças a uma bolsa da Capes e do antigo programa Ciência sem Fronteiras.

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