Espaço

’’SOMENTE CIÊNCIA PODERIA RESOLVER ESSES PROBLEMAS DA FOME E DA POBREZA" 

 

Quais as razões do Sucesso do Programa Espacial Indiano?

 

O país começou a desenvolver tecnologias para satélites de sensoriamento remoto e de comunicação, concentrando em missões para beneficiar a população

 

Por Polinaya Muralikrishna 

 

O programa espacial da Índia nasceu em 1963 com o lançamento de um foguete de sondagem norte-americano, Nike-Apache, do centro de lançamento próximo à cidade de Thiruvanathapuram, na Índia. Mesmo antes da sua independência, em 1947, os líderes indianos já acreditavam que a ciência e a tecnologia iriam resolver os inúmeros problemas que o país enfrentava. Nas palavras de Jawaharlal Nehru, primeiro Primeiro-Ministro da Índia, "somente ciência ... poderia resolver esses problemas da fome e da pobreza".

Com base nesta convicção, a Índia criou organizações científicas como o Council of Scientific and Industrial Research – CSIR, a Atomic Energy Commission – AEC, o Indian Council of Agricultural Research – ICAR e o Physical Research Laboratory –PRL. Em 1962, o governo indiano estabeleceu o Indian Committee on Space Research – INCOSPAR e designou Vikram Sarabhai, pesquisador, gestor de indústrias e, acima de tudo, visionário, como seu primeiro presidente. Sarabhai é considerado também o fundador do Indian Space Research Organization – ISRO. Tradicionalmente, os Departamentos do Espaço e de Energia Atômica têm como o seu chefe o próprio Primeiro Ministro. O Primeiro Ministro também ocupa a presidência do CSIR, uma espécie de CNPq da Índia.

O país começou a desenvolver tecnologias para satélites de sensoriamento remoto e de comunicação, concentrando em missões para beneficiar a população. O crescimento da pesquisa espacial e a aquisição de tecnologias avançadas do programa podem ser divididos em quatro fases, cada uma durando uma década: Missões Científicas, Aprendizagem Tecnológica, Desenvolvimentos Críticos e Comercial. Fatores como prestígio nacional, política de autossuficiência, crise cambial, substituição de importações, considerações estratégicas e controles de exportação influenciaram a construção de competência no programa espacial da Índia.

A estratégia do ISRO para adquirir tecnologias avançadas na área espacial pode ser resumida em:

- Uma estratégia de utilização de oportunidades, quando possibilitou adicionar capacidade de desenvolvimento ao país.

- A aceleração do desenvolvimento tecnológico pelas aplicações, colocando como colaboradores parceiros os usuários do ISRO.

- Programas de utilização específica de satélites – primeiro os Bhaskara e depois os Indian Remote Sensing Satellite - IRS.

O primeiro veículo lançador (SLV-3) foi lançado com um satélite tecnológico RTP de 35kg em agosto de 1979. O primeiro satélite de comunicações da Índia, o APPLE (Ariane Passenger Payload Experiment), geoestacionário, lançado pela Ariane-1 (V-3) em 1981, custou cerca de US$ 5 milhões. Ele apresentou falhas em um dos painéis solares e também na abertura de uma das antenas, fabricados por firmas norte-americanas.

O primeiro satélite operacional do ISRO, INSAT-1A, custou cerca de US$ 130 milhões e foi lançado em abril de 1982, a bordo de um lançador Delta 3910 da NASA. Um dia após entrar em órbita, os engenheiros descobriram um problema na antena do satélite, logo corrigido por telecomandos.

Após o sucesso do SLV-3, em 1983, a Índia iniciou o Programa de Desenvolvimento Integrado de Mísseis Guiados - IGMDP, sob os auspícios da Organização de Pesquisa e Desenvolvimento de Defesa – DRDO e do Ministério da Defesa. O diretor do projeto para o primeiro veículo de lançamento de satélites, SLV-3, A.P.J. Abdul Kalam, foi indicado como chefe do programa de mísseis e depois se tornou Presidente da Índia.

O programa era muito ambicioso, mas fracassou em 1987, quando o primeiro de uma nova geração de foguetes de grande porte, os Augmented Satellite Launch Vehicle - ASLV, falhou minutos após o seu lançamento do centro de lançamento. O lançador ASLV ia colocar em órbita o satélite Stretched Rohini Satellite Series – SROSS-1, de aproximadamente 150 kg. As falhas foram corrigidas e os próximos lançamentos dos dois lançadores ASLV, levando satélites da série SROSS – C1 e C2, foram bem-sucedidos.

O sucesso do ASLV foi importante para o desenvolvimento do Polar Satellite Launch Vehicle - PSLV. Os 22 lançamentos seguintes do PSLV (em várias versões) foram muito bem sucedidos, dando credibilidade internacional aos programas e projetos da ISRO.

Entre os anos 1980 e 1990, a experiência adquirida com os projetos experimentais, combinada com a pressão exercida pelo controle rigoroso de exportação para a Índia, ajudaram a ISRO a adquirir capacidades críticas em todas as áreas espaciais. O próximo passo gigante na atividade espacial indiana foi o lançamento do GSLV (veículo lançador de satélite geoestacionário) realizado em abril de 2001, levando, com sucesso, à órbita o satélite GSAT-1.

Em maio de 1999, o foguete PSLV-C2 lançou três satélites (Índia, Alemanha e Coréia). Em outubro de 2001, os foguetes PSLV-C3 foram usados ​​para lançar mais três satélites (Índia, Alemanha e Bélgica). Em 2001, o foguete GSLV-D1 colocou um satélite de comunicações em órbita geoestacionária.

Entre 2001 e 2003, a Índia lançou o satélite meteorológico Kalpana 1, usando seu foguete PSLV-C4 e também os satélites de comunicação GSAT-1 e 2, usando foguetes GSLV. Esses lançamentos demonstram que o foguete GSLV tem potencial comercial significativo.

O orçamento da ISRO é somente 0,34% do PIB da Índia. Nos últimos 40 anos, os gastos da ISRO não chegaram nem à metade do orçamento anual da NASA. A missão bem sucedida para a planeta Marte - Chandrayan-1, custou aproximadamente US$ 80 milhões, custo nove vezes menor que o que a NASA gastou com uma missão similar.

 

Polinaya Muralikrishna - Pesquisador Titular Aposentado do INPE – murali@dae.inpe.br

 

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