Invasão de Privacidade

NOTÍCIAS FALSAS SE ESPALHAM MAIS RÁPIDO E MAIS AMPLAMENTE DO QUE AS VERDADEIRAS 

Fake news, o fim da privacidade e o marketing psicográfico

O que se quer com tanta precisão é mapear os indivíduos e segmentá-los para lhes vender coisas ou ideias

Por Sônia Mesquita

Março foi cheio de notícias sobre a qualidade da informação que se produz e se consome hoje. A revista americana Science publicou estudo de pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology - MIT, em Cambridge, EUA, segundo o qual as notícias falsas se espalham pelo Twitter mais rápido e mais amplamente do que as verdadeiras graças ao modo como as pessoas reagem ao grau de novidade e ao conteúdo emocional da informação, mais do que pela ação de "robôs" (sistemas automatizados para compartilhamento de informações on-line). Falsidades se difundem mais rápido e vão mais longe do que verdades em todas as categorias de informação, mas na política elas se espalham mais do que em outros assuntos. Não deve ser por acaso.

É na política que os bots fazem diferença. Eles ficaram mais famosos após a divulgação por jornais dos EUA e do Reino Unido, de que a Cambridge Analytica, empresa que fez a campanha eleitoral de Donald Trump, em 2016, obtivera informações privativas de 87 milhões de usuários do Facebook.

Quem acompanha a crise política no Brasil sabe o quanto pesam as notícias falsas. Os pesquisadores do MIT sistematizam a problemática: custa pouco criar um site com aparência de órgão de imprensa tradicional e é relativamente fácil financiá-los com anúncios obtidos na proporção dos acessos. A internet, dizem eles, além de fornecer o meio para se publicar fake news, também forneceu as ferramentas para disseminação, como os social robots (bots), contas automatizadas que se confundem nas redes com pessoas de carne e osso e amplificam o alcance das falsidades. Estima-se que 9% a 15% das contas no Twitter sejam bots. O Facebook avalia que, das suas 2 bilhões de contas, 60 milhões (3%) contêm informações inseridas por bots.

O grupo do MIT reconhece que é difícil habilitar alguém a distinguir notícias falsas. Mais difícil ainda é definir ações de governos e empresas para prevenir a exposição às fake news sem criar ambiente de censura prévia beirando a ficção.

Que fazer?

Para começar, é preciso saber que informações gigantes como o Google e o Facebook reúnem dos seus bilhões de usuários, tanto a partir do que registram em cadastros, quanto dos rastros digitais deixados ao navegar na rede no conforto dos smartphones. Na prática, essas empresas engolem tudo o que define um ser humano: nome, deslocamentos, hábitos de vida e consumo, preferência sexual, renda, classe, posição política e perfil psicológico. O que se quer com tanta precisão é mapear os indivíduos e segmentá-los para lhes vender coisas ou ideias por meio de uma nova técnica: o “marketing psicográfico”.

Essa técnica estratifica um conjunto de pessoas também de acordo com seus traços de personalidade e dispara material publicitário adequado ao feitio de cada uma para aumentar a probabilidade de uma ação desejada pelo anunciante, seja a compra de algo, o voto em um político, a exaltação ou a destruição de uma reputação. Os dados para essa segmentação vêm principalmente das “pegadas digitais” deixadas nas redes sociais.

Pensando nisso, Dylan Curran, um desenvolvedor de sistemas que escreve para o diário britânico The Guardian, investigou quais informações o Google e o Facebook reuniram sobre ele ao longo de anos e publicou no jornal um guia para quem quiser fazer o mesmo. Ele constatou que o Google tem seu histórico de localização desde o primeiro dia em que abriu sua conta, o histórico de buscas e uma lista de todas as palavras pesquisadas desde 2009. Juntando informações como idade, profissão, rendimento, interesses e relações pessoais, peso, saúde etc, o Google cria um perfil para cada usuário e lhe direciona anúncios específicos, algo que a Cambridge Analytica usou na campanha de Trump. Aí também estão informações sobre cada aplicativo no celular: tempo de uso; regularidade; onde e com quem interage; de que países e até a hora em que o usuário vai dormir.

Idem para o histórico no YouTube, de onde se pode saber se o utilizador vai ser mãe ou pai, se tem preferência política ou religiosa, tendência depressiva ou suicida. No caso de Dylan, havia registros de todos os vídeos vistos por ele desde 2008. Ao baixar toda a informação do seu perfil no Google, ele tinha um arquivo de 5,5 gigabytes com contatos, sites que visitou, criou ou compartilhou, fotos, compras, dados de pagamentos, papos em chats e hangouts, grupos que participa, telefones que chamou e até o número de passos que dá por dia.

O Facebook também permite baixar a informação pessoal do usuário, que no caso de Dylan resultou em 600 megabytes com tudo o que ele enviou ou recebeu por meio da rede: mensagens de texto, áudio e vídeo, logins realizados e, inclusive, uma chave encriptada para a proteção de e-mails. E aqui, a sensação de impotência: a encriptação parece não ter serventia diante do poder da empresa.

Apple e Microsoft obedecem aos mesmos padrões do Google e do Facebook. Fica por nossa conta decidir em que mundo queremos viver: o deles ou o nosso.

 

 

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