Fórum Social Mundial

UM OUTRO MUNDO É POSSÍVEL 

Salvador, capital mundial dos excluídos

Vieram de todos os lugares para a capital da Bahia. Sozinhos e em grupos, de ônibus, avião ou partilhando carros. A participação de 80 mil pessoas (sendo seis mil vindas dos 5 continentes, de 120 países), centenas de lideranças políticas e de representantes de mais de milhares de entidades ou organizações (sindicatos, ONG's etc.), 2.100 atividades, e a cobertura de centenas de jornalistas e blogueiros, fizeram do 13º Fórum Social Mundial 2018, realizado em Salvador de 13 a 17 de março passado, não um ato, nem tampouco um simples evento anti-Fórum Econômico Global de Davos; fez dele, sim, espaço mundial sem caráter deliberativo, antes se constituiu num imenso espaço de reflexão, de encontro e reencontro de milhares de vozes e vontades por um outro mundo possível e sem excluídos.

Marrocos, Alemanha, França e Canadá foram as maiores delegações fora da América Latina. Importante ressaltar que, neste evento tão grandioso, não houve registro de nenhum ato de violência física.

O Fórum Social Mundial - FSM é um encontro anual internacional articulado por movimentos sociais, ONGs e pela comunidade civil para discutir e lutar contra o neoliberalismo, e, sobretudo, contra desigualdades sociais provocadas pela globalização. É importante frisar que o Fórum não se opõe à globalização, mas propõe uma globalização tecida por interesses e responsabilidades mútuas, na qual todos têm seus interesses preservados e são interdependentes, algo como uma imensa teia de obrigações recíprocas e de direitos igualmente respeitados, principalmente os da própria Natureza.

Porto Alegre sediou o Fórum Social Mundial em 2001, com edições também realizadas em 2002, 2003, 2005 e 2012. Outras cidades que abrigaram o FSM: Belém, Mumbai (Índia), Caracas (Venezuela), Bamako (Mali), Karachi (Paquistão), Nairobi (Quênia), Dacar (Senegal) e Montreal (Canadá).

A diversidade cultural, social e étnica foi a tônica do encontro. A Universidade Federal da Bahia abrigou o Fórum Social Mundial 2018, mas pelas cidades se espraiaram múltipla atividades, onde era possível encontrar quenianos propondo formas de economia solidária, mulheres testemunhando discriminação social e assédio, quilombolas maranhenses denunciando a política de exclusão promovida em Alcântara, organizações de sem-teto de Seattle protestando contra Trump, franceses denunciando os excessos do liberalismo econômico, cientistas preocupados com as consequências das experiências com alimentos transgênicos e com as manipulações genéticas em humanos.

Uma das discussões mais oportunas e atuais foi tentar entender mais de perto a situação dos migrantes e refugiados ao redor do mundo, com a mesa: “Migrações – direitos para migrantes e refugiados”. Estima-se que existam mais de 250 milhões de migrantes no mundo. O direito migratório é inerente ao ser humano. Existe uma situação de extrema necessidade, que as nações devem ajudar a resolver, não por caridade ou voluntarismo, mas atendendo a tratados importantes como é o caso da Convenção de Genebra.

A convergência de lutas do povo negro também foi um dos assuntos de pauta. Com objetivo de promover a interação e o entendimento da diáspora negra no século XXI, o debate reuniu representantes de sete países, entre eles o guineense Mamadou Djabi Djalo, da organização da Juventude Pan-africanista e a francesa Mireille Fanon-Mendès-France, do conselho internacional do FSM.

Para a ativista congolesa Hortense Mbuyi, os esforços da comunidade internacional para intervir nos países do centro do continente muitas vezes não representam por si só uma ajuda, já que acabam sendo norteados por interesses políticos e empresariais. “Ninguém percebe o que se passa no Congo, mas também me pergunto a quem interessa a verdade sobre o país. Meu país é um dos mais ricos do mundo em reservas naturais e está entre os mais pobres economicamente falando. Como isso é possível?”, questionou.

O ápice do encontro aconteceu dia 15, marcado por uma onda de protestos e indignação pelo assassinato da vereadora carioca Marielle Franco e seu motorista, Eduardo Pedro. O crime cometido contra sua pessoa foi considerado uma afronta, tentativa de silenciamento, a todas as pessoas que lutam por sua causa.

Tido como um dos momentos mais aguardados do FSM 2018, devido a participação do ex-presidente Lula, a Assembleia Mundial em Defesa das Democracias reuniu convidados de religiões de matriz africana, povos indígenas, coletivos femininos, personalidades políticas, artistas, lideranças sindicais e militantes. Ao cair do dia o estádio de Pituaçu, recebeu uma imensa multidão.

O deputado francês Eric Coquerel prestou solidariedade a Marielle foi enfático ao falar que já estava na hora de as esquerdas do mundo inteiro esquecerem e relevarem suas diferenças, o que para ele naturalmente levaria a uma reinvenção dos movimentos, para lutarem contra o racismo e o fascismo que avança em todo o mundo. E no instante em que assumiu o microfone o ex-presidente petista Lula, sob uma leva de aplausos e gritos de seu nome, iniciou uma aula sobre a história dos processos políticos modernos da América Latina, com ênfase e precisão. Lula, em poucos minutos, abarcou mais de 500 anos de história para demostrar para o público que não era atoa que a América Latina se encontrava em situação tão ameaçada como no momento atual.

Boaventura Souza Santos, membro do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial, nos deixa a seguinte reflexão: “Eu penso que o trabalho crítico do século XXI tem que ser muito inovador. Não pode ser com as categorias do século XX. Tem que ser muito criativo, muito intercultural. Tem que buscar outras culturas, indígenas, quilombolas, negras, da África, da Ásia… Penso que é aí que nós devemos situar a restituição da esperança e a criação de algum medo. Porque se não fizermos isso, vamos ter realimente um tempo muito incerto que passará a ser um tempo distópico. Porque exatamente tem como utopia que não há alternativa para a situação na qual a gente se encontra.”

Juntando-se a esta massa humana o SindCT lá esteve, denunciando o caráter nefasto da política implantada pelo governo atual ao setor espacial, com a redução de recursos, falta de concursos públicos e o uso eleitoral do satélite de Comunicações.

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