Desmatamento

QUAIS OS RISCOS DO DESMATAMENTO DA FLORESTA TROPICAL? 

Estamos perto de uma transição da floresta Amazônica para savanas?

Por Carlos Nobre

Na década de 1970, quando o desmatamento da floresta tropical se intensifica ano após ano seguindo a abertura de rodovias, começa a surgir o interesse da ciência em avaliar os riscos para o sistema climático e para o equilíbrio da floresta tropical. O Prof. Enéas Salati, então na ESALQ, Universidade de São Paulo, começa a estudar a origem do alto volume de chuvas da floresta Amazônica. Observou que a composição isotópica do vapor d'água e da chuva não eram muito diferentes quando se penetrava continente adentro, significando que a transpiração das plantas era muito importante, pois esta não causa fracionamento isotópico, ao contrário da evaporação da água de um corpo d'água, onde a água mais pesada com o isótopo O18 evapora menos do que a água mais leve e causa o fracionamento isotópico. Isto levou à conclusão de que a transpiração da floresta é a mais importante fonte de vapor d'água para a formação das chuvas tropicais, isto é, que a floresta recicla o vapor d'água 5 a 6 vezes entre o Oceano Atlântico e os Andes, aumentando em muito o nível das chuvas e criando o mais volumoso rio do mundo, por um lado, e criando as condições para a manutenção de uma floresta tropical que armazena grande quantidade de carbono e abriga a maior biodiversidade do planeta.

Inúmeros estudos de campo que se seguiram—por exemplo, nos experimentos científicos ABRACOS e LBA—mostraram que a floresta é de fato importante fator de formação das chuvas e não é somente um elemento passivo respondendo ao alto valor das chuvas. Estima-se que sem as florestas as chuvas seriam entre 15% até 25% inferiores. Isso é mais verdade ainda no centro-leste e sudeste da região, carente de mecanismos de grande escala para a formação de chuvas, isto é, a interação biosfera-atmosfera localmente produz as condições para formação de chuvas, principalmente durante a estação seca, contribuindo para uma estação seca curta, fator essencial para a manutenção das florestas. Nestas regiões, as raízes são mais profundas, extraindo água até 10 m de profundidade durante a estação seca, umidificando a camada superficial da atmosfera e produzindo o vapor d'água que irá tornar-se a chuva local.

Poderá este equilíbrio floresta-clima ser quebrado por ações humanas? Pesquisadores do INPE, entre outros, têm procurado responder esta questão por cerca de 30 anos. Os estudos de campo contribuíram em muito para permitir representar em complexos modelos matemáticos do sistema climático as interações biosfera-atmosfera, isto é, as trocas bidirecionais de energia, vapor d'água e mesmo dióxido de carbono entre a superfície vegetada e a atmosfera. Há quatro forçantes principais de origem humana em ação sobre a floresta tropical: desmatamento e substituição por pastagens e agricultura; mudanças climáticas advindas do aquecimento global; aumento dos incêndios florestais devido ao continuado uso do fogo pela agricultura tropical; e, também, o aumento da concentração atmosférica de gás carbônico, considerado um efeito positivo para a resiliência da floresta.

Quando todos estes efeitos são contabilizados atuando sinergisticamente, o quadro que emerge é de acentuado risco para a manutenção de grande parte da floresta Amazônica. Por exemplo, se a única forçante fosse aquela causada pelas mudanças climáticas regionais devido aos desmatamentos, os estudos apontam que o ponto de ruptura seria em torno de 40% de área total de floresta desmatada. Atingindo este limite, a mais de 50% das florestas do sul, leste e sudeste da Amazônia se transformariam em savanas razoavelmente degradadas porque a estação seca tornar-se-ia mais longa, típica das savanas da América do Sul tropical.

Entretanto, as forçantes atuam simultaneamente. O aquecimento global já causou um aumento entre 1,2 e 1,5 graus centígrados na bacia como um todo. A frequência dos incêndios florestais devido a ações humanas é muito maior do que incêndios antes do avanço das frentes de desmatamento. Levando em consideração todos estes efeitos, nossas pesquisas indicaram que o limite a não ser ultrapassado de desmatamento é entre 20% e 25% para manutenção do equilíbrio floresta-clima. Na Amazônia como um todo o desmatamento do tipo corte raso já atingiu cerca de 20%, mas cerca de 15% a 20% desta área foi abandonada pela agropecuária e lentamente a floresta está regenerando. Porém, há uma grande área de florestas degradadas que, se forem completamente desmatadas, colocariam a floresta muito próxima do ponto de ruptura do equilíbrio.

Vários estudos observacionais trazem muito preocupação. Não há dúvida de que a estação seca vem tornando-se mais longa no sul, leste e sudeste da Amazônia e este é o parâmetro a monitorar para avaliar o risco de uma rápida savanização da região. Por outro lado, a frequência dos eventos climáticos extremos cresceu de forma surpreendente desde 2005: três mega secas em 2005, 2010 e 2015-16 e três mega inundações em 2009, 2012 e 2014, afetaram a bacia do rio Madeira, sudoeste da Amazônia. Esta grande oscilação entre extremos pode indicar que o sistema está apresentando comportamento imprevisível e exacerba ainda mais o risco de atingirmos um ponto de ruptura.

 

Carlos A Nobre é pesquisador aposentado do INPE

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