Reflexão

O HOMEM COMUM QUER COMER, DORMIR E, QUANDO AINDA LHE É PERMITIDO, SONHAR 
 

Natureza e Costume

Por Gabriela Carvalho

‘‘Não consigo entender que alguém ache normal cobrar vinte reais por um pedaço de natureza" - eu disse, frente a uma banca de flores. Poderia ter sido na banquinha de pedras “naturais” da feira do Trianon também. No meio da cidade, a natureza que existe e resiste tem seu preço.

Saímos de casa com o objetivo de comprar um livro. Andaríamos toda a extensão da Avenida Paulista para isso. Comecei a fotografar o caminho e a olhar para cima, positivamente assombrada com os arranha-céus. Encasquetei que queria subir ao topo de um daqueles prédios para conhecer a vista e fui, assim, perguntando nas portarias sobre a possibilidade de subir até os últimos andares. Perguntei nas dos quatro mais altos. Nenhuma permitiu a entrada. "Não é aberto para o público", disseram. As negativas colocaram e colocam em evidência o direito à cidade e o direito à tecnologia, dentre vários outros direitos diariamente negados a nós e a outros ainda mais simples que nós.

Primeiro, alguém achou que era aceitável tomar um pedaço de terra para si. Nesse pedaço de terra, achou que ninguém ligaria caso um prédio fosse construído, fazendo, com isso, com que o espaço aéreo fosse também transformado em propriedade privada. E aí negou aos outros o direito ao horizonte. Mas, se o olhar comumente mira o chão, seria possível perceber alguma anormalidade?

Justificaram que o homem pisar na Lua era um grande avanço para a humanidade e que se buscam todos esses avanços científicos para que tenhamos cada vez mais conforto. Acontece que essa humanidade nunca é do homem comum. O homem comum demorou para voar, se é que voou. O homem comum não desfruta dos tecidos tecnológicos. O homem comum está pouco se lixando. O homem comum quer comer, dormir e, quando ainda lhe é permitido, sonhar. O homem comum não tem o helicóptero que pousará no arranha-céu. Mas esse homem comum é paulistano e sua vida besta é besta de um jeito diferente da vida besta idealizada por Drummond em Cidadezinha Qualquer. Aqui há o besta e o metido a besta só. Nenhum é bom.

Frente à Av. Paulista, imponente, me senti pequena. Me senti ser rastejante. Pensei que um qualquer, lá no topo, era mais gente que eu. Imaginem vocês se o homem comum sobe no topo de um prédio e se sente livre? Imaginem vocês se ele goza, por um breve instante, da sensação de poder? Imaginem se ele descobre que a grandeza de que a humanidade se orgulha é, também, dele? Imagina se ele descobre que pode lutar por tudo aquilo de que ele quer fazer parte?

- Engraçado é que as recepcionistas que negaram nossa entrada nunca devem ter subido também. Imagina que louco se elas dissessem "vamos, eu também nunca subi"?

- Imagina se elas descobrissem que quinze minutos a menos de trabalho para apreciar a vista não param a engrenagem? Ou que, se a engrenagem ficar em suspenso, tudo bem?

- Imagina?

- Numa cidade em que as pessoas acham normal subir a pé a escada rolante que leva trinta segundos, inimaginável.

Andamos mais um pouco em silêncio. 19h30 anoitecia. As luzes de dentro dos arranha-céus permaneciam acesas. Que tristeza deve ser trabalhar num desses arranha-céus e não poder olhar pela janela.

Cheguei em casa desanimada. Com uns colares de camelô porque comércio de rua é resistência. E com a sensação de que o paulistano que é contra o chão da Paulista livre para pedestres é mau, é cruel, é insensível e insensato. Não podemos o chão. Não podemos o céu. Não podemos o horizonte. E assumimos o progresso como possibilidade de libertação.

Assim, para chegarmos a ser ridículos, temos que batalhar muito. No atual estágio, não somos dignos de qualquer paixão, nem as negativas. Trocamos elas (com erro consciente de gramática normativa) e a natureza das coisas por trabalho e cotidiano. Fotografemos o chão e com ele nos contentemos. Êta vida bosta, meu Deus.

Gabriela Carvalho é ex-joseense e observadora do cotidiano.

 

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