Cultura

A VIDA HUMANA SERÁ TRANSFORMADA PELA TECNOLOGIA? 

 

A ciência nos redimirá?

 

Por Armando Zeferino Milioni

 

Em seu livro Sapiens, Yuval Noah Harari conta a história do ser humano desde que ele abandonou o comportamento de caçador coletor e se fixou em colônias agrícolas, há cerca de doze mil anos, até o início do século XXI. Harari mostra que ao longo desses milênios todas as gerações humanas lutaram contra as três ditas “maldições da história”: a fome, as pestes (doenças epidêmicas) e as guerras (ou a violência, em geral). Para combatê-las, os homens desenvolveram toda sorte de superstições, religiões, tentaram magias e feitiçarias, mas Harari mostra que foi a ciência que trouxe essas “maldições” a níveis de controle sem precedentes em qualquer século da história que não o atual.

Hoje, no mundo, as mortes por obesidade superam o triplo das por subnutrição; a última epidemia a causar mortes em percentuais de dois dígitos foi a gripe espanhola, há um século e, apesar de tudo aquilo que você lê e ouve, a violência nunca foi menor.

Em Os Anjos Bons de Nossa Natureza, Steven Pinker mostra que as mortes atualmente decorrentes de todas as formas de violência (guerras, terrorismo e crimes) são inferiores às por suicídio e menos da metade das causadas por diabetes – o açúcar é mais perigoso do que a pólvora. Harari então pergunta: “se supusermos que as 'maldições da história' serão vencidas, o que virá depois?” Curiosamente, ele não é muito otimista na resposta, pois não dá como certo que seremos capazes de vencer os riscos do presente, como o da destruição do meio ambiente, que não deve ser subestimado. Quem duvida deve dar uma olhada no livro A Sexta Extinção, com o qual Elizabeth Kolbert ganhou o prêmio Pulitzer.

Quem também usa os riscos do presente para tecer conjecturas sobre o futuro é Juan Enríquez, considerado por muitos como autor das melhores TED Talks sobre o futuro. Enríquez é coautor do livro “Evolving Ourselves”, que começa perguntando se é ético modificar geneticamente o ser humano e termina concluindo que aético seria não fazê-lo. Entre outras razões, porque a história do século XXI poderá ser a história do século em que o homem venceu a corrida de deixar a Terra antes que a degradação ambiental inviabilizasse a vida humana no planeta.

Ele argumenta, contudo, que se entrarmos nessa corrida dispostos a levar ao espaço o Sapiens atual, é grande o risco de sermos derrotados, pois ele é frágil, vulnerável, vive pouco, necessita de muito oxigênio, enfim, guarda condicionantes que tornam o desafio caro e arriscado, talvez impossível. Já há, todavia, tecnologias que nos permitiriam transformar geneticamente o Sapiens, fazendo-o mais forte, resistente, longevo, inteligente e com menor necessidade aeróbica, eliminando fatores que inviabilizariam a viagem. Com um detalhe, contudo: esse animal geneticamente modificado talvez já não seja mais um Sapiens. E, para chegar a ele, haverá necessidade de experimentações, o que levanta uma questão sinistra: qual o tratamento ético adequado aos resultados de experimentos que, digamos, não derem muito certo?

Mas, retornemos à pergunta de Harari. Ele faz diversas especulações sobre o futuro pós “maldições” e, como Enríquez, conclui que um caminho possível, de fato, é o “upgrade” genético do Sapiens. Muitos cientistas, aliás, creem que esse talvez seja o único caminho, diante da perspectiva e possível iminência de um momento tão espetacular da história que há cientistas que o comparam à criação da vida na Terra, ou ao surgimento da inteligência. Estamos falando da “Singularidade”, no sentido tecnológico. O termo apareceu pela primeira vez em 1983 na revista OMNI, quando o professor de matemática e computação, Vernor Vinge, escreveu que “Brevemente criaremos inteligências superiores às nossas. Quando isso acontecer, a história humana terá atingido um tipo de singularidade, uma transição intelectual tão impenetrável como o espaço tempo comprimido no centro de um buraco negro, e o mundo ficará incompreensível”. Em 2005, Ray Kurzweil popularizou o termo com seu livro “The Singularity is Near”, onde descreve “um período futuro durante o qual o ritmo da mudança tecnológica será tão rápido e seu impacto tão profundo que a vida humana será irreversivelmente transformada”. Como Kurzweil, muitos renomados cientistas acreditam que esse momento não está longe.

Já sabemos que humanos não podem mais vencer as máquinas em jogos como Xadrez e Go, automóveis dirigidos por inteligências artificiais têm desempenho muito superior aos dirigidos por humanos e aceitamos com naturalidade que algoritmos tomem decisões que às vezes não compreendemos, mas obedecemos, como na escolha de rotas, ou investimentos.

Imagine o momento em que uma única inteligência artificial seja capaz de fazer qualquer coisa concebível melhor do que qualquer ser humano. Talvez só haja um jeito de não se deixar dominar por ela, risco que tirava o sono do falecido físico Stephen Hawkings, para ficar em um só exemplo: “upgrading” nossas mentes e dando início ao Transhumanismo, uma era para a qual as previsões são simplesmente impossíveis.

Seria injusto terminar com a impressão de que as teorias acima são consensos científicos absolutos. Cientistas adoram discordar entre si e não há nada de errado nisso. O Professor Richard Jones, da Universidade de Sheffield, disponibilizou na internet o seu livro Against Transhumanism, em que defende a ideia de que não há Singularidade no horizonte e que a aposta dos que a creem próxima é baseada em conquistas científicas que ainda estão no campo da ficção. E conclui com um argumento no mínimo instigante: é sabido que ao longo da história muitos grupos religiosos viveram e pregaram a fé de que algo grandioso, como o fim dos tempos, ou uma grande redenção, ocorreria durante o curso de suas vidas.

Jones lembra que alguns dos principais cientistas aos quais se opõe são ateus convictos, e arrisca que a Singularidade que preveem para breve nada mais é do que o reflexo da mesma ansiedade humana que leva os crentes a preverem que sua redenção está próxima.

 

Armando Milioni é professor aposentado ITA armandozmilioni@uol.com.br

 

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