Cultura

Ensaio sobre Vladimir Maiakóvski

“Que tributo de estrelas a noite impôs ao céu/ em horas como esta eu me ergo e converso/ com os séculos a história do universo” (tradução Augusto de Campos). Com estes versos, escritos em sua nota de suicídio, encerrava-se com um tiro, em 14 de abril de 1930, a carreira do maior poeta da Revolução Bolchevique de 1917, Vladimir Vladimirovitch Maiakóvski.

Alguns veem-no como uma reação contra a burocracia e a corrupção incrustradas na nova sociedade soviética, algo que Maiakóvski interpretava como uma traição aos ideais da revolução. Outros preferem crer que as desilusões amorosas e a incapacidade do poeta em saciar seu coração faminto, deram origem ao gesto extremo.

Maiakóvski nasceu em 19 de julho de 1893, em Bagdadi, na Georgia. Possuía uma excelente capacidade para memorizar longas passagens de poesia e de outros livros. Sua infância e juventude foram passadas em meio a agitação social e rebeliões. Desenvolveu cedo uma simpatia pelos revolucionários, participando das manifestações dos trabalhadores, dando armas de seu pai aos rebeldes, lendo literatura socialista e preparando-se para um ativismo revolucionário vitalício.

Em 1906, mudou-se para Moscou, onde entrou no ensino médio e continuou sua associação com os revolucionários. Aceito no Partido Comunista em 1907, com apenas catorze anos, foi preso três vezes por seu trabalho clandestino.

Após sua libertação, Maiakóvski decidiu voltar para a escola mas, devido ao ativismo político, foi aceito apenas na Escola de Belas Artes, onde escreveu seus primeiros poemas e aprimorou seu talento natural para o desenho e a pintura. Lá, conheceu David Burlyuk, artista e poeta que o encorajou não só em seus esforços artísticos, mas também como poeta. Ao lado de Khlebnikov, Kamiênski e outros, fez parte do grupo fundador do chamado Futurismo russo, cujos princípios Maiakóvski adotaria para o resto de sua vida.

Em 1912, ajudou a escrever o manifesto Futurista, “Um Tapa na Cara do Gosto do Público”, que mandava “atirar fora Puchkin, Dostoievski e Tolstoi do Navio da Modernidade!” e exigia uma revolução nas artes. Expulsos da Escola de Belas Artes, o grupo procurou difundir suas concepções artísticas realizando viagens pela Rússia.

Em 1913, escreveu, dirigiu e atuou em sua primeira obra para o teatro, “Vladimir Maiakóvski”, onde introduzia alguns dos temas e técnicas que seriam desenvolvidos em suas obras posteriores, como o desapego ao passado e o fascínio pela tecnologia e o futuro.

Durante a Guerra Civil (1918-1921), Maiakóvski atuou intensamente, realizando slogans de propaganda, poemas épicos, leituras de poesia e espetáculos de massa. Ao lado de seus colegas futuristas, trabalhou para levar sua arte às ruas, direto às massas.

Em colaboração com o diretor vanguardista Vsevolod Meyerhold, comemorou o primeiro aniversário da revolução com uma peça que caricaturava aqueles que considerava os inimigos do comunismo: os capitalistas gananciosos, os mencheviques, os intelectuais não engajados e os comerciantes. Durante este período, Maiakóvski continuou a criar poesia engajada, como em “150 milhões” (1920), onde coloca o gigante Ivan contra o grotesco guerreiro capitalista, representado pelo presidente americano Woodrow Wilson.

Maiakóvski fundou em 1923 a revista LEF (de Liévi Front, Frente de Esquerda), que reuniu os escritores e artistas que pretendiam aliar a forma revolucionária a um conteúdo de renovação social com o objetivo de destruir a cultura burguesa decadente e criar uma arte proletária. O uso de imagens cósmicas, o padrão arquetípico da morte e ressurreição, como visões do futuro ajudaram-no a conquistar a fama nacional como poeta. A fama e o ativismo político contribuíram para que Maiakóvski se tornasse o embaixador artístico da União Soviética, permitindo que ele viajasse pela Alemanha, França, Europa Oriental e Estados Unidos para promover o comunismo soviético e sua arte.

Em 1927, a maré da política soviética começava a mudar e a arte revolucionária dava lugar ao mais comportado realismo socialista. Os críticos atacaram a arte de Maiakóvski e acusaram-no de falta de sinceridade e de preocupação com os problemas dos indivíduos. Ele enfrentou as críticas com a produção de “O Percevejo” (1929), peça onde o entusiasmo com a Revolução de 1917 dá lugar a uma visão crítica do futuro do socialismo.

Em seu último grande poema, “A Plenos Pulmões” (1930), Maiakóvski retratou-se como sempre viu a si mesmo: poeta do futuro, poeta do povo, leal à causa comunista.

No Brasil, sua obra foi traduzida por, entre outros, Augusto e Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman. Em 1981, a peça “O Percevejo” foi levada ao palco por Luís Antônio Martinez Corrêa, com música de Caetano Veloso. Em vez da amargura e do desespero, que prenunciavam a morte prematura do poeta, a montagem brasileira optou pela esperança e pelo otimismo, refletindo o clima de abertura política da época.

 

Fernando Manuel Ramos é pesquisador aposentado do INPE fernando.ramos@inpe.br

 

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