Ciência e Tecnologia - CAPA

SGDC e a Tecnologia Brasileira de Satélites

 

Uma questão emblemática precisa ser respondida sobre a relevância do Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas – SGDC para o Brasil. Além de preencher uma vaga na órbita de geoestacionários (no limite de prazo), a comunicação militar do governo brasileiro, que é estratégica para o país, deveria ser provida por “satélite próprio” (antes eram alugados canais de comunicação em satélite internacional). Também o programa de internet para as regiões mais remotas do país era um alvo a ser alcançado pelo governo.

Há muitos anos existe a demanda de satélites de comunicação para o Brasil, que sempre foram adquiridos no exterior.

Dentro do INPE havia e há empenho dos pesquisadores e engenheiros de alcançar este desenvolvimento para um satélite geoestacionário totalmente nacional, com vários grupos já preparados para este novo desafio tecnológico.

Infelizmente, a política da Agência Espacial Brasileira - AEB, do governo e de outros, levou à quase extinção dos grupos de desenvolvimento, devido a limitação de recursos, não contratações e aposentadorias, forçando a aquisição externa do SGDC.

Mesmo adquirindo o satélite no exterior, o governo, na figura da AEB, poderia ter exigido uma contrapartida tecnológica mais favorável ao Brasil, com objetivo de capacitar engenheiros brasileiros para futuros satélites de comunicação.

Foi realizado pela AEB um Programa de Absorção de Tecnologia – PAT, direcionado a engenheiros de vários órgãos. Entretanto, transferência de conhecimento só se conseguiria com pessoal capacitado para tal absorção. A maioria das pessoas envolvidas no programa, apesar de bem formadas e especializadas, não detinham, como é natural, conhecimento suficiente para absorverem a tecnologia e apenas receberam o que os técnicos franceses quiseram ensinar.

O SGDC fornece o que o Brasil quis comprar (comunicação militar e internet), mas com um pacote de caixas pretas que não se teve acesso durante o PAT. Muitos documentos foram fornecidos no nível de engenharia de sistema, mas nada sobre os equipamentos, o que poderia permitir um aprendizado efetivo para desenvolvimento futuro no Brasil.

Quanto à comunicação militar, apesar de criptografada por militares brasileiros, não se garante que “outros interessados” não possam ter acesso às informações. Dentro do satélite, a informação chega criptografada, mas é traduzida para linguagem de máquina para ser processada pelo computador de bordo e então novamente criptografada para ser transmitida de volta à Terra.

Como é uma caixa preta, não sabemos se a mesma informação poderia seria replicada para outros canais de interesse externo, da criptografia de saída, sem o nosso conhecimento. Lembrem-se que na guerra da Malvinas os franceses forneceram aos ingleses os códigos dos Mísseis Exocet, adquiridos pelos argentinos na França, os quais foram plenamente neutralizados.

Quanto à internet, o governo atual mudou as regras do programa de banda larga do SGDC e as bases terrenas não foram instaladas para recepção, portanto o satélite está operacional somente na comunicação militar, mas sem fornecer o serviço de internet que está disponível a bordo.

O governo quer privatizar os canais de internet (ainda não conseguiu), o que privaria as comunidades carentes de acessar a banda larga de forma gratuita, como era o previsto no programa original. A vida útil do satélite está diminuindo com o passar do tempo e o serviço, pago a preço de ouro, não está sendo usado.

O Brasil ainda é refém nesta classe de satélites, pois não se permitiu, ou nem mesmo estimulou, o desenvolvimento de um satélite nacional de comunicação. Teremos que partir do conhecimento nacional já conquistado no INPE, se quisermos desenvolver o nosso próprio satélite de comunicação e, contrariando interesses, garantir nossa soberania neste seguimento.

 

Kassab faz uso eleitoral do satélite SGDC

De olho nas eleições de 2018, o ministro da Ciência e Tecnologia, Gilberto Kassab, utiliza o Programa Internet Para Todos, como moeda de troca para sua campanha eleitoral

Por Fernanda Soares

Nos círculos políticos, todos sabem que Kassab tem uma ideia fixa: fortalecer seu partido, o PSD. E quando se diz o seu partido, não é figura de linguagem, pois Kassab o criou e trata as instâncias partidárias como um senhor feudal. E como forma de dar musculatura ao PSD, já serviu a vários senhores. Atualmente, como Ministro da Ciência Tecnologia e Inovação, tem atuado mais como Ministro das Comunicações, pois sabe que esta é a área que possui recursos mais flexíveis e adequados para fazer crescer seu partido.

Por outro lado, sendo 2018 um ano eleitoral, abre-se para Kassab inúmeras janelas de oportunidades. Em São Paulo pode ser candidato a senador ou vice-governador e no momento tenta costurar alianças que viabilizem a sua eleição. Mas, mesmo se não for eleito, o Ministro por certo estará em posição de destaque no próximo governo, pois contará com a força e o cacife de uma partido dócil e amestrado. Nas palavras do próprio Kassab quando o criou: nem de esquerda, nem de direita nem de centro.

O Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas - SGDC foi adquirido como tendo como um dos grandes objetivos a disseminação da internet banda larga para áreas remotas, aldeias indígenas, quilombolas e assentamentos rurais, todos pertencentes ao Plano Geral de Metas de Universalização da Internet.

O Ministro Kassab abandonou qualquer interesse ou compromisso com o enfoque social original do programa, trocando, por apoio político, o que era destinação para a população remota e carente.

Para divulgação, o MCTIC criou um site para o programa Internet Para Todos, com informações genéricas. Não apresenta, e sua assessoria de se recusa a informar, quais serão os primeiros municípios a receberem o Internet Para Todos, ou quais foram os critérios adotados para a escolha.

No site oficial do MCTIC, algumas matérias indicam que, das primeiras 300 localidades beneficiadas, 50 estão em Goiás, cujo governador é Marconi Perillo (PSDB), a quem Kassab chama de “líder presidenciável”. Outras 80 pertencem ao estado do Paraná, cujo governador é Beto Richa (PSDB), também grande aliado de Kassab.

O estado mais privilegiado será o Rio Grande do Norte, com 167 municípios, cujo governador é Robinson Faria (PSD). “Há um ano, o governador Robinson Faria me pediu prioridade para este projeto e agora estamos aqui. O Governo do Estado fez a sua parte, o Governo Federal fez a sua parte, falta apenas os prefeitos fazerem a parte deles para que a internet de banda larga seja uma realidade em suas cidades”, afirmou Kassab, durante o evento realizado em Natal, no final de fevereiro.

Até o momento, não foi realizado nenhum anúncio da implantação do programa Internet Para Todos em áreas remotas ou carentes.

Para a implantação do serviço de internet, as empresas de telecomunicações interessadas devem se cadastrar no MCTIC e informar em quais municípios deseja atuar.

Se as empresas de telecomunicações podem escolher os municípios, é improvável que alguma opte por investir em áreas remotas, quando é muito mais fácil fazer a implantação em cidades com infraestrutura.

Em São José dos Campos, por exemplo, o programa, já anunciado pelo prefeito do PSDB, será disponibilizado, inicialmente, a escolas públicas (municipais e estaduais) e a postos de atendimento da área da saúde na área rural. Todas as escolas da rede municipal já contam com internet e as unidades de saúde localizadas na zona rural também são atendidas com internet, por meio de fibra óptica.

Atendimento a quem precisa

Em 2011, o governo federal lançou o Programa Nacional de Banda Larga, através de acordo firmado com concessionárias, para oferecer internet mais barata, popularizando o acesso.

O serviço oferecido chegou a 4.523 municípios brasileiros, segundo dados de dezembro de 2013. Isso representa cobertura em 81% de todas as cidades do Brasil.

Entre os 734 municípios atendidos no último trimestre de 2013, por exemplo, a maioria (414) está localizada nas áreas mais carentes do país.

Na compra do satélite SGDC foi prevista atender, principalmente, as regiões onde não há internet atualmente.

O ministro Kassab vira as costas para o cidadão brasileiro e abraça o satélite SGDC como propriedade sua, de seu partido e de aliados

Diferentes notas da assessoria de imprensa do MCTI anunciaram a implantação do
programa, com a presença do ministro Kassab em cidades cujos governantes são do PSD
(o partido de Kassab), aliados, ou eleitos por coligação com o PSD:

• Foz do Iguaçú/PR – PSD
• Itapeva/SP- PSDB (coligação com o PSD)
• Guararapes/SP- PTB (coligação com o PSD)
• Ourinhos/SP– PSD
• Teresina/PI – PSDB
• Bauru/SP– PSD
•  Santos/SP– PSDB (coligação com o PSD)
• Taubaté/SP– PSDB (coligação com o PSD)
• Mogi das Cruzes/SP– PSDB (coligação com o PSD)
•  São José dos Campos/SP– PSDB (coligação com o PSD)
• Fortaleza/CE – PDT(coligação com PSD)
• Curitiba/PR - na sede da associação dos municípios do Paraná, ao lado do prefeito de Assis Chateaubriand – PSD
• Porto Alegre/RS, com o governador José Ivo Sartori – PMDB (coligação com o PSD)
• Natal/RN – PDT, com o governador Robson Faria (PSD)
• Manaus/AM, com o governador Amazonino Mendes – PDT(coligação com o PSD)
• Mato Grosso, com o governador Pedro Taques – PDT
• Santa Catarina, após reunião com o governador Raimundo Colombo – PSD

 

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