Aquecimento Global - 2

O culpado

 

O que tem em comum o livro a “Sexta Extinção”, de Elisabeth Kolbert, a encíclica “Louvado Sejas”, do Papa Francisco e o documentário “Before The Flood”, produzido por Leonardo Di Caprio? Todos apontam claramente a mão do homem como a principal culpada pelo aquecimento global e suas consequências catastróficas.

Os seres humanos nem sempre dominaram a Terra, nem sempre foram os responsáveis pelas extinções de espécies em massa que ocorreram há milhares ou milhões de anos atrás. Mas desta vez é diferente.

A jornalista norte-americana Elisabeth Kolbert, vencedora do prêmio Pulitzer de 2015, como o melhor livro não-ficção, se dispôs a acompanhar cientistas de diversos segmentos para mostrar essa face brutal da realidade. E a dura realidade mostra que o ser humano está destruindo espécies animais de forma acelerada. A Terra já sofreu cinco grandes extinções em massa ao longo de seus bilhões de anos de existência, mas a sexta extinção, ao contrário das anteriores, é provocada pelo homem e, em tempo recorde, causa o desaparecimento de inúmeras espécies e coloca em risco a própria existência do ser humano.

O Jardim das Delícias Terrenas, de Hieronymus Bosch, está em exposição no museu do Prado, em Madri

 

Os cientistas dividem a história de nosso planeta em eras. Oficialmente vivemos na era chamada Holoceno, mas a quase unanimidade dos cientistas, incluindo Carlos Nobre, acha que já estamos no Antropoceno, a era do Homem. Desde que homo sapiens surgiu, há 70 mil anos, ele tornou-se o mais importante fator de mudanças na ecologia e na face da Terra. O Antropoceno veio para mudar a face da Terra. Ou da humanidade. As previsões não são muito animadoras, pois segundo Kolbert: "A sexta extinção continuará determinando o curso da vida bem depois de tudo o que as pessoas escreveram, pintaram e construíram ser reduzido a poeira e os ratos gigantes terem, ou não, herdado a Terra".

Em 2015, às vésperas da Conferência do Clima da ONU em Paris, a COP 21, o Papa Francisco publicou a encíclica “Louvado Sejas”. Nela, o Papa culpa a humanidade pelo aquecimento do planeta, pelas mudanças climáticas e pelos danos causadas por ambos. Francisco pediu "mudanças do estilo de vida" e acusa as potências e suas indústrias de fazer um "uso irresponsável" dos recursos.

O Papa resolveu botar a boca no trombone e dar nomes aos bois. Ou seja, é mais um convencido da possibilidade de o homem abreviar a vida na Terra.

Dias após o Papa se manifestar, em 12 de junho de 2015, a humanidade respirou aliviada. Naquela data, o documento chamado Acordo de Paris foi ratificado em Paris pelas 195 partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). Esta concertação foi fruto do esforço de cientistas, políticos e ativistas, que através de suas ações fizeram ver ao mundo que era chegada a hora de dar um basta. No âmbito dos estudiosos, 97% dos maiores pesquisadores de clima chegaram a conclusão, por meio de rigorosas pesquisas, que as mudanças climáticas são causadas pelo próprio homem. Mas não há unanimidade, haja vista que os 3% restantes não acreditam. São os céticos.

O mais famoso de todos os céticos, Donald Trump, rompeu o acordo assinado por Obama em Paris, formando a Tríplice Aliança Descrente, composta por EUA, Síria e Nicarágua. Da diplomacia brasileira, que foi uma das mais importantes na elaboração das metas do Acordo de Paris, espera-se que não volte as costas para a humanidade, aliando-se à diplomacia norte-americana.

Em 2016, a National Geographic lançou o documentário "Before the Flood", produzido por Leonardo Di Caprio, que se encontra disponível na Netflix. Dirigido por Fisher Stevens, o filme acompanha a trajetória de Leonardo DiCaprio pelo mundo, discutindo o aquecimento global com figuras políticas, cientistas e pessoas diretamente ligadas ao fenômeno. Di Caprio é o condutor do documentário, percorrendo diversas regiões do planeta mostrando áreas irremediavelmente degradadas pelos efeitos do aquecimento global e as mudanças climáticas decorrentes dele.

Dizem que a arte imita a vida. No documentário, Di Caprio faz uma referência à obra-prima do pintor holandês Hieronymus Bosch, o painel tríptico intitulado “O Jardim das Delícias Terrenas”. Na primeira parte do painel, Bosch mostra a sua visão do Paraíso; ao centro, como o homem se corrompe pelos prazeres da carne. Na lateral direita, Bosch, um precursor do Surrealismo, nos mostra uma visão do Inferno. Ao que se saiba, Bosch não era religioso, nem tampouco pintava para a Igreja, como era comum à época. Talvez a sua fonte de inspiração para retratar o Inferno seja o Apocalipse, supostamente escrito por João. Todavia, por mais que Bosch tenha carregado nas tintas, ele não chegou nem perto das imagens do atual planeta degradado, mostradas em Before The Flood.

Curiosamente, o tríptico O Jardim das Delícias Terrenas, quando fechado, tem uma citação extraída do salmo 33: "Ele mesmo ordenou e tudo foi feito”. Como Apocalipse pode ter o significado de Revelação, será que Bosch não estava revelando com suas imagens o futuro da Terra, apontando o ordenador e culpado pelo Inferno: o homem?

Compartilhe
Share this