Aquecimento Global

Entendendo as mudanças climáticas e a mudança do clima

É muito frequente ler-se matérias onde mudanças climáticas e mudança do clima são tidas como sinônimos. Recentemente, por conta de recordes de temperaturas muito frias na América do Norte, a mudança do clima, associada a um aumento da temperatura média global, foi ironizada como se não fosse um fenômeno real, como constatado há muitos anos pelos cientistas de todo o mundo e aceito pelos 195 países membros da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima.

É mais um caso de falta de conhecimento sobre a diferença entre mudanças climáticas (foco de meteorologistas) e mudança do clima (atenção de climatologistas). Não se vê, na mídia, a previsão do clima – fala-se em previsão do tempo, com uma capacidade relativamente curta de previsões de mudanças de longo prazo (maiores que uma semana, em média). Por isso não se pode afirmar, se um evento extremo que ocorre em determinado ano, pode ou não ser atribuído à mudança do clima.

Já há evidência científica de um mundo mais quente, resultada de vários indicadores independentes. Cientistas de todo o mundo verificaram, independentemente, evidências dessas mudanças e concluíram que o globo sofreu aquecimento desde o início da era pré-industrial (por volta de 1750).

Evidências mais amplas de um mundo mais quente vêm de uma variedade de medidas independentes de muitos elementos do sistema climático, fortemente interligados. Mas o aumento das temperaturas médias de superfície é o indicador mais conhecido da mudança do clima. Embora cada ano possa não ser sempre mais quente do que o anterior, as temperaturas médias globais de superfície aumentaram substancialmente desde 1900. O período de 1880 a 2012, quando existem múltiplos conjuntos de dados independentes, mostra um aquecimento de 0,85ºC. A diferença entre a média das temperaturas observadas no período de 1850 a 1900 e a média do período de 2003 a 2012 é 0,78ºC.

É extremamente provável (chance de 95 a 100%) que mais da metade do aumento observado na temperatura média global de superfície, de 1951 a 2010, tenha sido causada pelo aumento nas concentrações de gases de efeito estufa de natureza antrópica (provocados pelo homem) que resultam principalmente da queima de combustíveis fósseis (óleo, gás e carvão) e mudanças no uso da terra.

75% das emissões antrópicas de dióxido de carbono, o gás de efeito estufa de natureza antrópica mais abundante na atmosfera, decorre da queima de combustíveis fósseis, com uma contribuição menor de florestas e outros usos da terra.

A continuidade das emissões de gases de efeito estufa causará mais aquecimento e mudanças em todos os componentes do sistema climático. Limitar a mudança do clima requererá substantivas e sustentadas reduções nas emissões desses gases.

O Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima – IPCC, é o órgão internacional de maior reconhecimento nos levantamentos sobre a temática mudança do clima. Faz compilações e análises periódicas da literatura científica mundial e produz relatórios completos que incluem a projeção da mudança futura do clima, riscos e impactos da mudança do clima, adaptação e mitigação da mudança do clima (intervenção humana para reduzir as fontes de gases de efeito estufa ou aumentar a capacidade de remoção desses gases da atmosfera).

Em outubro de 2018, o IPCC apresentará para aprovação de seus 195 governos membros, um relatório especial sobre Aquecimento Global de 1,5ºC, sendo produzido no contexto do desenvolvimento sustentável, erradicação da pobreza e segurança alimentar. Espera-se que este relatório traga resultados científicos importantes para subsidiar o Acordo de Paris que tem, como um dos seus objetivos, manter a temperatura média global bem abaixo de 2ºC, enquanto perseguindo um aumento de 1,5ºC até o final deste século.

 

Estão sendo preparados outros dois relatórios especiais, a serem finalizados em 2019, assim como o relatório de avaliação, a ser finalizado em 2021, com contribuições dos três grupos de trabalho do IPCC. Foram selecionados os autores para o sexto relatório de avaliação do IPCC, que inclui dois pesquisadores do INPE: Dr. Lincoln Muniz Alves, que contribuirá como autor para o Atlas com as projeções de vulnerabilidades globais e regionais, e o Dr. Jean Ometto, que contribuirá como autor para o capítulo regional da América Central e América do Sul, que incluirá impactos já observados e riscos projetados, opções de adaptação e vulnerabilidade.

O Dr. José Orsini Marengo, do CEMADEN, também foi selecionado para ser editor revisor do capítulo sobre impactos do aquecimento global de 1,5ºC nos sistemas natural e humano. O papel do editor revisor é assegurar que o capítulo a ele atribuído reflita a literatura científica global disponível. Assegura também que os comentários recebidos durante o processo de revisão das minutas de texto, por parte dos especialistas e governos, sejam adequadamente tratados e justificados.

Thelma Krug é pesquisadora do INPE e vice-presidente do IPCC - thelma.krug@inpe.br

 

 

Compartilhe
Share this