Soberania Nacional

VENDA DA EMBRAER À BOEING: TRAGÉDIA ANUNCIADA! 

 

Caso Embraer, do risível ao grotesco

 

Os poucos passos que o Brasil deu rumo a uma independência tecnológica e econômica dentro de um projeto de país vem sendo desmontado ao longo das últimas décadas. Seja pelas privatizações ou no estrangulamento de institutos de pesquisa, universidades federais, empresas estatais e o que conseguir se vender ou encontrar comprador.

 

Por Júlio Ottoboni

 

Fernanda Soares

Portaria principal da Embraer em São José dos Campos

 

Mesmo na debilidade republicana, existente desde sua constituição, dificilmente se encontrará na trajetória trôpega deste país um processo de desmonte como o que ocorre nestes últimos tempos. Também nunca se usou tanto a baixa autoestima brasileira e seu analfabetismo político como ferramenta de contra propaganda. Vender, saquear e destruir o patrimônio público é motivo de aplausos, de pregações neoliberais e a plena aceitação da voracidade do capitalismo de concentração de renda e poder sob comando de megacorporações internacionais.

Um sistema econômico doente, manipulador, escravista, lastreado apenas no lucro e alicerçado sobre mentiras, corrupção e escárnio. Nota-se, em grande esforço, que a economia brasileira vem gradativamente reduzindo sua atividade industrial e aumentando sua atividade financeira. Foi o que o economista francês, Thomas Piketty, autor do livro 'O Capital do Século XXI', alerta para o perigo da financeirização da economia global.

No Brasil, essa remodelagem da economia cresce sem freio ou limites. Ano após ano, as instituições financeiras comemoram resultados espantosos. Em 2017, mesmo dentro de um processo recessivo, a combinação dos ganhos do Banco do Brasil, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander Brasil foi de R$ 16,4 bilhões, alta de 14,6% em relação ao mesmo período do ano passado. Em lugar nenhum no mundo isso acontece com a voracidade daqui.

“O quadro do mundo que é apresentado às pessoas não tem a mínima relação com a realidade, já que a verdade sobre cada assunto fica enterrada sob montanhas de mentiras.” O comentário é de Noam Chomsky, um dos maiores pensadores dos últimos 100 anos, professor do MIT, e um dos mais respeitados intelectuais do mundo.

Estamos longe, como povo, de compreender o que é crime de lesa-pátria, nos falta a noção do sentimento pátrio tanto quanto o que seja crime com o bem público. Há em curso um desmonte não só das principais instituições do país, como vem ocorrendo com os institutos de pesquisa e de tecnologia, mas de qualquer estrutura que ainda tenha um resquício de identidade brasileira. Estamos ingressando numa nova e sombria colonização. Temos feitores e capatazes, não governantes.

A situação de penúria em que se encontra o INPE, DCTA, ITA e tantos outras entidades é tão ofensiva quanto a doação implorada aos Estados Unidos da Base de Lançamentos de Alcântara. O silêncio ensurdecedor diante de tantos descalabros mostra apenas uma coisa: o quanto autista se transformou o brasileiro, sua dificuldade em assimilar a realidade e enfrentá-la.

O nível de entorpecimento, de desconexão com a realidade do país é tal que o anúncio da 'compra' da Empresa Brasileira de Aeronáutica - Embraer pela norte-americana Boeing, que deveria mexer com o resto de brio tem se transformado num espetáculo de demagogias que bafeja sobre as lentes da miopia do cidadão médio deste país, embaçando de vez a possibilidade de enxergar o que ocorre.

A Embraer é venerada como o exemplo do 'Brasil que deu certo', numa espécie de redenção ao fracasso nacional, a apatia manifesta de um povo cada vez mais alienado e seu apego crescente ao grotesco e a ignorância. É como se algo no inconsciente coletivo dissesse: 'basta querer que o brasileiro faz'. Uma imensa bobagem, pois não há como superestimar a capacidade de reorganizar de uma sociedade fragmentada e em franca decadência. Ainda mais dentro de uma economia extrativista e agrária, de baixíssima capacitação científica e tecnológica. Basta dizer que as exportações em 2017 se concentraram em minério de ferro, soja, carne e óleo bruto de petróleo.

O caso Embraer comprova a inversão de valores. O país que investiu muito dinheiro, tempo e energia para construir algo com alto valor agregado e que pertencia ao povo brasileiro prefere se iludir com discursos de empulhadores oficiais. Depois que esse mesmo Estado a estrangulou economicamente, chegando ao absurdo de tornar inviável à Embraer vender sequer uma aeronave para empresas brasileiras, diz que a situação da então estatal é gravíssima e a solução é a privatização. Vendida, o Estado volta a despejar dinheiro público na companhia. Esquizofrenia? Não, banditismo mesmo!

A privatização salvou a Embraer da falência programada desenvolvida dentro de quem a gerou, o Estado brasileiro. Um mecanismo de controle e de veto, as ações Golden Share, que foram incluídas na privatização e que nunca foram usadas. Em 1997, uma lei aprovada às pressas diminuiu em muito o poder de veto e escancarou a possibilidade da Embraer ter a transferência de seu controle acionário para mãos estrangeiras sem qualquer empecilho legal. O poder de veto ficou restrito aos projetos militares e a mudanças de nome da empresa, sob o argumento de impedir a Embraer de ter a perda de controle nacional. Ambos os casos já ocorreram, sem a menor restrição por parte dos governantes da república brasileira, detentora das ações.

Em 2006, a direção da Embraer chegou a alterar o nome da empresa para Embraer S.A., transferiu a fábrica do avião militar SuperTucano para os Estados Unidos, onde tem investido altas somas, e desenvolveu com a Boeing o cargueiro KC-390. O governo dos Estados Unidos tem a prerrogativa de vetar e autorizar vendas da Embraer, no caso de aviões militares, como fez recentemente, de exigir investimentos em solo americano e ainda de investigar e punir a Embraer por casos de fraude e corrupção. O real dono na Embraer, esse sim exerce a Golden Share a torto e direito.

A transferência do controle da Embraer é um fato consumado há vários anos, quando seu capital foi pulverizado nas bolsas de Nova York e de São Paulo. Desde os anos 2000 e com maior agressividade a partir de 2009, depois da demissão histórica de 4,2 mil empregados que só atingiu o Brasil, mais de 70% das ações estão com estrangeiros, principalmente com entidades dos Estados Unidos.

Basta uma breve projeção: qual seria a reação dos norte-americanos se fosse anunciada a venda da Boeing para os chineses e o fechamento da Nasa? Com certeza seria algo muito diferente da nossa. Embora haja os que juram que foi a Embraer quem conquistou a Boeing…

 

Júlio Ottoboni é jornalista científico

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