Ciência e Tecnologia - 2

 

Os sessenta anos da era espacial e as atividades espaciais brasileiras

 

O Programa Espacial Brasileiro nasceu em 1961, no contexto da Guerra Fria entre EUA e URSS. Foi a disputa por espaço aqui na Terra que levou ao lançamento do Sputnik em 1957. Desde então, quase oito mil satélites foram lançados. Desses, cerca de 1.800 estão operacionais, 10% dos quais com aplicações militares.

 

Por José Bezerra Pessoa Filho

Os americanos são detentores de 803 satélites, enquanto chineses e russos possuem, respectivamente, 204 e 142 satélites. EUA, Rússia e China são os únicos países capazes de colocar satélites e seres humanos em órbita da Terra. São também capazes de colocar uma ogiva nuclear em qualquer ponto da superfície terrestre, bem como destruir qualquer satélite, se assim o desejarem, como demonstrou a China em janeiro de 2017.

O mercado espacial movimenta anualmente 340 bilhões de dólares, 20 bilhões aplicados à indústria de construção e lançamento de foguetes e satélites. Cerca de 70% desse mercado resulta da venda de serviços e equipamentos de solo, restrito a empresas cujos países possuam foguetes, satélites e centro de lançamento. Além dos 3 países já citados, são sócios desse clube: Índia, Japão, Israel, Europa, Coreia do Norte, Coreia do Sul e Irã.

As atividades espaciais no Brasil tiveram início com uma clara visão estratégica dos militares. O ponto máximo dessa estratégia se deu ao final da década de 1970 com o estabelecimento da Missão Espacial Completa Brasileira - MECB. Dela vieram o Veículo Lançador de Satélites - VLS-1, o Centro de Lançamento de Alcântara - CLA e os dois Satélites de Coleta de Dados - SCD. O prazo de conclusão previsto para a MECB era de 10 anos. O CLA se tornou operacional em 1989, mas somente em 1997 e 1999 ocorreram os lançamentos do VLS-1. Em 1993 e 1998 foram lançados o SCD-1 e o SCD-2 pelo foguete americano Pegasus. Em 2017, catorze anos após o acidente, o projeto VLS-1 foi encerrado, sendo substituído pelo Veículo Lançador de Microssatélites - VLM-1. Após quase 40 anos, a MECB foi substituída por um conjunto de atividades espaciais não convergentes. As razões que levaram a esse quadro encontram-se bem documentadas, mas é fato que projetos mal concebidos e pouco discutidos com a sociedade não servem à nação. Ademais, propor novos caminhos requer: conhecimento, comprometimento com as futuras gerações e honestidade intelectual.

O descompasso da MECB teve início em meados da década de 1980, quando os recursos a ela destinados foram inferiores aos previstos. A partir da década de 1990, as políticas governamentais foram submetidas aos interesses do capital internacional. Nessa lógica, mais vale a nota conferida pela Standard & Poor´s do que grau de satisfação dos cidadãos com os seus governos. É a antítese do sistema democrático, que se encontra em crise em todo o mundo.

Com a transferência da coordenação do programa aos civis, o conceito estratégico da atividade desapareceu, como são provas a participação brasileira na Estação Espacial Internacional (ISS) e na Alcântara Cyclone Space - ACS, sem esquecer a tentativa de tornar o Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas - SGDC um produto das atividades espaciais brasileiras. Se o Brasil tivesse focado no projeto VLS-1, estaria, a partir do CLA, participando do mercado de lançamento de CubeSats. Foram quase mil CubeSats lançados neste século. Mas sem que tenhamos lançado três protótipos, desistimos do VLS-1. Não há registro de um único país que tenha alcançado sucesso com tão poucas tentativas.

Em que pesem as crises, as limitações orçamentárias, a falta de recursos humanos e os erros estratégicos das últimas décadas, é preciso registrar que nos quase 60 anos de atividades espaciais o Brasil formou duas gerações de especialistas, que hoje ajudam a formar novos quadros por meio de cursos de graduação e pós-graduação. Além disso, desenvolvemos expertise no projeto, construção e lançamento de veículos suborbitais e orbitais. Possuímos dois centros de lançamento, além de uma infraestrutura laboratorial respeitável. Com os chineses, construímos satélites de sensoriamento remoto (CBERS). Ao longo dos anos aprendemos a fazer uso da tecnologia espacial para previsão de tempo e clima, bem como para o monitoramento do desmatamento e das queimadas que grassam na região amazônica. Esses feitos não podem ser desprezados, mas é imperativo reconhecer que esse legado está em processo de desconstrução a olhos vistos.

Àqueles que consideram as atividades espaciais incompatíveis com a realidade nacional, vale citar que a Índia iniciou seu programa espacial um ano após o Brasil, lançando o primeiro foguete Nike-Apache (americano) de seu território em 1963. Vale mencionar que foi o lançamento de um Nike-Apache que, em 1965, inaugurou o Centro de Lançamento da Barreira do Inferno - CLBI. Dentre os pioneiros dessa época encontrava-se um visionário engenheiro aeroespacial, que exerceria a presidência do seu país entre 2002 e 2007: Abdul Kalam. Desde então, os indianos desenvolveram uma família de veículos lançadores de satélites contando, quando possível, com a ajuda americana e russa, e, quando não possível, com a engenhosidade de seus especialistas.

A Índia investe anualmente mais de um bilhão de dólares em seu programa espacial, enquanto o Brasil menos de 10% desse valor. São dezesseis mil especialistas e uma preocupação contínua com a formação das novas gerações. Notícias recentes, trazidas por um brasileiro que estudou na Itália, dão conta da existência de meia centena de indianos estudando ciências espaciais e nucleares em uma única universidade. O resultado de tudo isso é que a Índia é capaz de lançar seus próprios satélites, inclusive geoestacionários, além de enviar missões não tripuladas à Lua e a Marte. Em 2017, os indianos bateram um recorde mundial ao colocarem 104 satélites (101 CubeSats estrangeiros) em órbita da Terra, em um único voo do seu foguete PSLV. Este ano entrará em operação o sistema de posicionamento via satélite conhecido pela sigla NAVIC, reação à decisão americana de limitar o acesso da Índia ao sistema GPS, por ocasião da Guerra de Kargil (1999). Caberá também ao PSLV, em 2018, o lançamento do CubeSat ITASAT, desenvolvido pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica.

Uma análise comparativa Brasil x Índia demonstra que o PIB per capta brasileiro é cinco vezes superior ao indiano. Quanto ao analfabetismo, o da Índia é quatro vezes superior ao do Brasil. No que tange à percepção da corrupção, Brasil e Índia estão empatados, junto com a China. Contudo, quando se compara o crescimento acumulado do PIB neste século, tem-se 40% para o Brasil e 120% para a Índia. Ah! Nos três dias decorridos entre a solicitação e entrega deste artigo ao SindCT, o Governo pagou quase 4 bilhões de reais em juros ao sistema financeiro. Diante desses fatos e números só nos resta apelar:

Houston, we have a problem!

 

José Bezerra Pessoa Filho é servidor de carreira de C&T, filiado ao SindCT

 

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