Associação “resgata vidas” em Caçapava

ACOLHIMENTO DE PESSOAS VULNERÁVEIS

 

O projeto Resgatando  Vidas oferece aulas  de artes marciais a cerca de 300 pessoas por mês. Há semanas, um grupo de 25 atletas participou da Copa  do Mundo Olímpica de Jiu-jítsu no Rio de Janeiro e trouxe 21 medalhas

 

Angela Lima*

 

Quando se conhece  a  Associação Resgatando Vidas, em Caçapava, é impossível não sentir a força do altruísmo e da solidariedade. Idealizado  por Robson Paiva do Amparo, 41 anos, o projeto tem como fundamento o “resgate” e acolhimento de crianças, de jovens e de adultos vulneráveis socialmente, por intermédio do ensino  das artes marciais.

A associação, que surgiu em 2009, atende hoje cerca de 300 pessoas por mês. No  local, crianças, homens e mulheres dividem o espaço para o aprendizado e prática das artes milenares do muay thai, jiu-jitsu, kung fu, karatê e taekwon-do. Para Robson,  que é “faixa-preta” no jiu-jitsu e também professor, o princípio do Resgatando Vidas deve seguir a máxima de  que todos são iguais. Partindo desse princípio, não há discriminação de credo, idade, raça ou de cunho social. Assim,  ele pretende receber alunos portadores de necessidades especiais e antecipa: não haverá turma separada.

“A inclusão será verdadeira e um  aprendizado para todos”, diz . A única exigência é que a disciplin  e o respeito que  norteiam as artes marciais devem fazer parte da vida cotidiana. Desta forma, ele acompanha a vida escolar,  familiar e até social dos alunos. As falhas cometidas fora não passam despercebidas dentro da Associação. A  história do projeto garantiu a Robson ser um dos escolhidos para carregar a Tocha Olímpica, nas Olimpíadas  de 2016, realizadas no Rio de Janeiro. O momento foi eternizado num quadro que fica na entrada do projeto. 

Além de “resgate de vidas”, como propõe o projeto, há os resultados esportivos vitoriosos que  transformam-se em medalhas. Em setembro, um grupo de 25 atletas da Associação Resgatando Vidas participou da Copa do Mundo  Olímpica de Jiu-jitsu, no Rio de Janeiro. Depois de uma madrugada inteira dentro de um ônibus, sem descanso, eles conquistaram 21 medalhas. A participação só foi possível porque foram  isentados da taxa de inscrição e contaram com apoio do Exército, que cedeu o  ônibus.

Em julho já haviam conquistado no Mundial de  Jiu Jitsu, no Ibirapuera, em São Pau  , 17 medalhas. O resultado surpreendente  é contado por Álisson Fabiano do Nascimento Santos,18 anos, faixa-azul de jiu-jítsu e um dos medalhistas.  Ele carrega uma história de desafios na vida pessoal que também foram vencidos, a começar pela  sua própria trajetória, que mescla abandono e violência.

Apesar do enredo, Alisson descreve a vida com leveza  e certa resignação. Fala das medalhas com orgulho e conta seus planos: cursar uma faculdade de Educação  Física; retirar seus irmãos menores da Casa Abrigo, onde morava até ir para a  Associação; e continuar o trabalho do professor. Para Álisson foi imprescindível  contar com o apoio da Associação, tendo em vista que viveu a maior parte da vida na Casa Abrigo.

  “Aqui é meu pilar”, resume. Ele vive hoje no pequeno alojamento, na sede do projeto,  onde há um quarto com uma cama beliche, que divide com o fiel amigo Marcelo  Rodrigo da Silva, 18 anos que há seis anos treina  regularmente. Também exmorador da Casa Abrigo, Marcelo descreve o prazer propiciado pela  rática das  artes marciais e sonha em ser lutador profissional e continuar ajudando no projeto.  Ambos atuam como professores auxiliares.

 

Precariedade 

Robson iniciou o projeto oferecendo algumas aulas de arte marcial à comunidade  católica onde desenvolvia o trabalho de evangelização. Ele conta que questionava-se como poderia transformar  a realidade ao seu redor. Acreditava que o esporte, e mais especificamente as artes  marciais, possibilitariam disciplina, convivência harmoniosa e valores de solidariedade.

Lembra que a precariedade das aulas, no início, sem ao menos ter tatame, e ao mesmo tempo o evidente  potencial e empenho das crianças, o impressionavam. No entanto, contar com um  local adequado para as atividades parecia distante e esbarrava na falta de recursos financeiros para transformar  o sonho em realidade.

Mas mesmo sem recursos regulares o sonho virou  realidade. Embora o projeto continue sem financiamento oficial, vivendo apenas de doações pontuais, a Associação Resgatando Vidas  hoje é al o concreto. Basta chegar à Rua Joaquim Gurgel,  na Vila Menino Jesus, para constatar o clima de descontração e comprometimento  dos alunos.

É nessa rua de um bairro humilde e sem equipamentos de lazer que o projeto acontece de  verdade. Robson gosta de falar da  “Providência Divina” para explicar como é possível a manutenção da Associação que completa oito anos sem  recursos oficiais. Ele próprio, que era dono de uma escola de informática, fonte de sustento da família, não hesitou em largar tudo e  apostar no sonho.

Encontros mensais com venda de mini-pizzas, comercializadas  pelas famílias dos próprios alunos e colaboração de “amigos fiéis” que ajudam mensalmente  com pequenas quantias, somados à contribuição de alguns alunos, que quando podem doam 30 reais, é o que  garante a cobertura da maioria dos gastos.

A aluna Laura Júlia Gomes, de 15 anos, que treina regularmente há dois anos, conta que quando  pode contribui com essa quantia. Laura tinha problemas relacionados ao colesterol  alto, que graças ao seu  ngresso na associação ficaram  para trás.

A Resgatando Vidas, diz ela, tornou-se a extensão de sua família.  O auxílio também surge dos professores e voluntários, como José Nílson da Silva, de 47 anos, que pratíca  esporte pela primeira vez na vida e está construindo na associação um banheiro destinado aos portadores de necessidades especiais. 

Silva é morador do bairro e aluno disciplinado. Para ele, que se tornou medalhista, ter conhecido o projeto  foi crucial para mudar o estilo de vida, deixando de  lado o cigarro e o álcool. Por fim, Robson aguarda ansioso o título de Utilidade  Pública que lhe permitirá requerer à Prefeitura  de Caçapava o repasse de uma verba mensal para manter o projeto.  Contato: 012 981236505

*Jornalista. Especial para o Jornal do SindCT    

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