Conservadorismo é a nova moda?

ONDA POLÍTICA DE EXTREMA-DIREITA AMEAÇA O PAÍS

A escalada moralista e reacionária fecha exposições de artes  visuais, proíbe peças de teatro, prende atores, intimida militantes e tenta até cassar título concedido ao falecido educador Paulo Freire 

Cristina Charão e Antonio Biondi

O conservadorismo brasileiro definitivamente “saiu do armário” neste último mês. Primeiro, nos corredores  e salas do Congresso Nacional, atacando “no varejo” os direitos das minorias — mulheres, negros, LGBTT, pobres, crianças inclusive — e promovendo cruzadas midiáticas  contra todo e qualquer grupo ou pessoa que os defendesse.

Depois, abraçou a pauta da moralização da política nacional, ajudando a embalar o processo de  impeachment da presidenta Dilma Rousseff com discursos de criminalização das esquerdas e a disseminação de ideias ultranacionalistas, incluindo a “intervenção militar”  e até mesmo a volta da monarquia.

Em seguida, o conservadorismo tornou-se ponta de  lança na propaganda contra os “privilégios” dos trabalhadores, que preparou o terreno para a apresentação e aprovação de retrocessos  no atacado, como a PEC 55 (“PEC da Morte”) e a reforma trabalhista.

Agora, sem mais pudores, fecha exposições  de artes visuais, proíbe peças de teatro, prende atores, intimida militantes do  movimento negro, a  ra da sacada do apartamento contra  moradores de uma ocupação, ergue banner gigante defendendo a ação das Forças Armadas. E tenta até cassar o  título de patrono da educação brasileira, concedido pela lei 12.612/2012 ao falecido Paulo Freire, pedagogo internacionalmente  respeitado por suas reflexões e pelo método de alfabetização de adultos  que desenvolveu.

A escalada conservadora não ocorre exclusivamente em território nacional. As  tochas, símbolos nazistas e cânticos ultranacionalistas registrados na marcha organizada por grupos supremacistas brancos em Charlotesville,  nos Estados Unidos, deixavam claro o alcance do fenômeno já em agosto.

Na última semana de setembro,  outro sinal: o partido Alternativa para a Alemanha, agremiação ultraconservadora islamofóbica que faz campanha anti-imigração,  ficou em terceiro lugar nas eleições e conquistou 90 vagas no parlamento.

É a primeira vez desde a Segunda Guerra que um partido de extrema-direita consegue  participar da vida parlamentar na Alemanha. Se o proc sso é mundial,  no Brasil ele tem características específicas.

“Nós temos, evidentemente, a construção  de uma cultura de violência, de conservadorismo e de preconceito historicamente no nosso país. Isso se agrava  ainda mais quando você tem o monopólio das comunicações em que o direito de  voz e consequentemente a construção de opinião pública e de valores sociais está nas mãos de pouquíssimos”,  opina Guilherme Boulos, coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e da Frente Povo  Sem Medo.

“Aquilo que já existia, ganhou uma expressão pública maior e gente  que tinha até um receio, uma trava, uma vergonha de falar disparates, perdeu a vergonha na cara e passou a dizê-los à  luz do sol, em praça pública” É preciso considerar ainda que o golpe e a crise econômica formam um  caldo de cultura perfeito para esta ascensão dos conservadorismos de toda  ordem.

“A frustração da população com os resultados efetivos da política cria e  gera um terreno fértil para estas propostas de extrema- -direita, pro  ofascistas”, avalia o deputado federal Henrique Fontana (PT-RS). Esta frustração tem como  origem principal a falta de soluções para a desigualdade social.

“Como alerta  Thomas Pikety, o ambiente de crescimento da desigualdade é um ambiente muito propício para o crescimento  de opções extremistas de direita, onde as pessoas, na dificuldade de encontrar soluções,  abraçam pautas que não vão ao problema fundamental das suas vidas”.  Fascismos O próprio golpe parlamentar vivido no Brasil  alimenta-se deste descrédito das instituições democráticas que não dão conta de solucionar as desigualdades. 

Por outro lado, ele também ajuda a adubar o solo onde nascem os fascismos, seja por atacar diretamente direitos dos trabalhadores contribuindo para aumentar a  injustiça social, seja com a flexibilização das regras democráticas.

O fato de um golpe militar tornar-se desejo expresso por muitos é, talvez, o exemplo  máximo desta percepção extremista. “Num ambiente de democracia desvalorizada é que crescem alternativas  co   esta”, comenta o deputado Fontana.

Alternativa  que acabou ganhando contornos mais concretos após a realização de uma palestra  do general de quatro estrelas Antônio Hamilton Mourão, em que defende claramente  que as Forças Armadas deverão intervir caso o Judiciário não retire “da vida pública esses elementos envolvidos  em todos os ilícitos”.

Uma semana depois, um pequeno grupo ligado ao autodenominado Movimento  Patriótico homenageou Mourão, estendendo em frente ao Congresso Nacional um banner de dez metros  de altura com a foto do general e agradecendo aos “militares por nos salvar”. Já no período pré-impeachment, era comum ver um gigantesco boneco inflável do general Mourão no protestos anti-Dilma. 

Mourão não recebeu nenhuma punição. Ao contrário, foi defendido pelo comandante do Exército, general Eduardo Villas  Bôas, que afirmou não enxergar quebra de hierarquia e afirmar que a Constituição dá aos militares a  prerrogativa da “defesa das instituições, dos poderes constituídos” diante da “iminência de  um caos”. 

“É muito grave a fala do general Mourão e foi muito negativamente repercutida pelo comandante. Nós não  podemos aceitar que o Brasil retroceda a uma ideia em que os governos não sejam constituídos  de forma democrática, pelo voto do cidadão e que todos participem com seu conjunto de ideias para fazer a  disputa”, comenta o deputado Fontana.

“Nós precisamos responder com mais democracia,com o fortalecimento de mecanismos de participação da sociedade no que a gente pode  chamar de uma revalorização da democracia.” Antipolítica Ao mesmo tempo, o discurso  antipolítica nascido da grita moralista que nasce das iniciativas de combate à corrupção, aliado ao processo agudo de ataque às esquerdas  também torna mais fértil o terreno dos fascismos.

Não por acaso, um dos registros  mais evidentes de atuação de grupos neonazistas mistura justamente os elementos do racismo, da intolerância religiosa  e da criminalização dos movimentos sociais.

Em Blumenau (SC), a  porta e os postes na rua da casa do advogado e a ivista  do movimento negro Marco Antônio André amanheceram, no dia 25 de setembro, com cartazes fazendo  ameaças diretas a ele. Ao lado de imagens que remetem à Ku Klux Klan, os  dizeres “Negro, comunista, antifa[scista] e macumbeiro: estamos de olho em você”. O caso está sendo investigado  pela Polícia Civil.

Já em São Bernardo  do Campo (SP) não foram apenas ameaças. A enorme ocupação por moradia “Povo Sem Medo”, que conta com  7 mil famílias, foi atacada a tiros.

O autor dos disparos foi  um morador de um condomínio de luxo vizinho ao terreno ocupado. Uma pessoa foi  ferida no braço.

O caso em si é extremamente preocupante, pois demonstra  o alcance das ideias protofascistas e como elas  reverberam em determinados grupos sociais. “A construção  desse discurso de criação do inimigo faz com que um  cidadão se sinta muito mais à vontade de ir lá na sua sacadinha e meter bala contra  o sem teto que está lá embaixo”, diz Boulos. “Porque aquilo não é gente na cabeça  dele. Aquilo são os vagabundos, os corruptos,   s que querem vantagem, os que querem facilidades.

 

É claro  que esse clima social facilita as condições para um crime como o que ocorreu em São  Bernardo do Campo”. Arte x moralismo  Nos mais recentes episódios de cunho fascista no Brasil, a intersecção entre  momento político e ascensão conservadora fica mais evidente e até mais concreta. 

Os diversos grupos de direita que até o momento agiam  em causas comuns, mas de forma separada — evangélicos, ultranacionalistas  e movimentos ditos “liberais” surgidos na esteira dos processos de 2013 e 2016,  além de lideranças de partidos tradicionais da direita  — demonstram unidade nos ataques moralistas a exposições, obras de arte e peças  de teatro (conheça alguns casos no quadro abaixo). A forte ligação entre estes  grupos políticos e o governo Temer permite especular que seja uma tática diversionista  num momento em que o presidente tem a sua pior avaliação (é desaprovado por 97%  da população) e enfrenta uma segunda denúncia da Procuradoria Geral da República  pelos crimes de obstrução de justiça e organização criminosa.

Porém, é preciso considerar  também que este caldo de cultura conservadora tende a ser determinante no processo eleitoral de 2018.  Daí a necessidade de, por um lado, testar os temas que  podem render apoios e votos de diversos públicos identificados com as pautas da  moral e dos bons costumes.

Não por acaso, pré-candidatos como Jair Bolsonaro e  João Dória Jr. tentam surfar nesta onda. Por outro lado, é também um trabalho para moldar as redes sociais para  este cenário de 2018, em processo semelhante ao que já se pôde verificar na eleição de Donald Trump.  Para Boulos, os ataques precisam de resposta.

“É evidente que quando nos colocam na defensiva, nós  temos de nos defender, mas defensiva e ofensiva não são contraditórias”, destaca.

“Ao mesmo tempo  em que você combate o avanço de um conservadorismo, que você combate uma regressão brutal nos  direitos sociais, é possível construir, debater um novo projeto de país”.     

Cenas de um Brasil protofascista    

Queermuseu fechada

A exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira reunia, no Santander Cultural de Porto Alegre, 270 trabalhos de 85 artistas com obras que abordam LGBT, questões de  gênero e de diversidade sexual. Durante os 30 dias em que esteve em cartaz, foi alvo de ataques diversos de “ativistas” que usaram as redes sociais, especialmente vídeos no YouTube e Facebook,  para acusar a exposição de “promover a zoofilia e a pedofilia”. Foi fechada no dia 10 de setembro por decisão da direção do Santander, que chegou a pedir desculpas a quem pudesse se sentir ofendido pelo conteúdo da mostra. As reações à censura  foram diversas, de ato realizado em Porto Alegre à projeção das obras em museus de Nova York.  

Obra recolhida

Quatro dias depois do fechamento da Queermuseu, deputados estaduais do Mato Grosso do Sul denunciaram à polícia a exposição Cadafalso,  da artista plástica Alessandra Cunha Ropre, em cartaz no Museu de Arte Contemporânea de Campo Grande (Marco). Novamente, a acusação era de apologia à pedofilia. O quadro intitulado  “Pedofilia” chegou a ser apreendido pela polícia.  

Peça censurada

No dia 15, Jundiaí deveria receber a peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu como  parte da comemoração da 4a Semana da Diversidade Sexual. Mas uma ordem judicial suspendeu a exibição por atentar contra princípios religiosos  e ofender a moral. O monólogo, escrito pela escocesa Jo Clifford, narra a história de Jesus na interpretação de uma travesti. A peça foi apresentada  quatro dias depois em Porto Alegre e também foi alvo de uma ação. Desta vez, no entanto, o juiz José Antonio Coitinho não concedeu a liminar e afirmou em sua sentença que “a liberdade  de expressão tem que ser garantida – e não cerceada – pelo Judiciário”. 

 

Performance sob ataque

Na última semana de setembro, o Movimento  Brasil Livre (MBL), que já havia capitalizado para si os acontecimentos na Queermuseu, publicou fotos e vídeos em que uma criança participa, com a sua mãe, da performance La Bête, no Museu de Arte Moderna (MAM), em que um ator está nu.  Novamente, a acusação é de pedofilia. Pequenos grupos realizaram protestos em frente ao museu e chegaram a agredir fisicamente os funcionários. Um abaixo-assinado nas redes pede o fechamento  do MAM. 

(Cristina Charão) 

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