Duas grandes cicatrizes na memória nacional

CATÁSTROFES DE CARAGUÁ (SP) E SERRA DAS ARARAS (RJ) COMPLETAM CINQUENTA ANOS

 

Rememoração de tragédias de 1967 joga luz nos  desafios da gestão de riscos de desastres naturais. Insuficiência dos programas  habitacionais e desmatamento, conjugados a eventos climáticos extremos,  continuam a provocar deslizamentos, enchentes e mortes    

 

Pedro Biondi*

 

Meu marido não  aparecia. Dez da noite ele chegou, coitado. Bebinho, só de short, porque ele jogou toda a roupa para socorrer o pessoal. E meu primo tinha  morrido, morreu embaixo da casa. O morro caiu em cima da casa dele, matou ele e três crianças, ela na hora de ganhar nenê”. 

O testemunho da aposentada Zita Alves Correa, no documentário Caraguá: da catástrofe ao progresso, é apenas uma amostra do que aconteceu a milhares de  famílias de Caraguatatuba em março de 1967, quando grande parte do município paulista foi soterrada.

No  mesmo ano, também a Serra das Araras, no Rio de Janeiro, passou, dois meses antes,  por um desastre natural dentre os maiores da história do país.

No que diz respeito às vidas perdidas — teriam  sido 1.700 — este vem sendo considerado o pior de todos. Porém, convém lembrar que tais números sempre  são estimativas, uma vez que grande parte dos corpos nunca é encontrada. Em ambas as tragédias,  as imagens registram carros e camionetes tombados, ônibus arrastados até o mar, uma profus o de árvores arrancadas, corpos em decúbito  dorsal, crianças em abrigos, filas para obter víveres. Nas duas, o acesso por estrada sofreu interdição,  houve interrupção no abastecimento e bairros inteiros ficaram isolados. 

Outro ponto em comum foi que, ao lado de problemas  mais conhecidos, como deslizamentos, a chuva intensa provocou enorme volume de corridas de detritos,  também chamadas corridas de massa ou fluxos de lama e detritos.

Trata-se de movimentos  de massa extremamente rápidos e desencadeados por um intenso fluxo de água na superfície, em  que o material superficial do solo escoa encosta abaixo em forma de uma corrente viscosa.

Esse tipo de movimento, de acordo com o  Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres  Naturais (Cemaden), tem extenso raio de ação e alto poder destrutivo. Mais uma similaridade é  verificada no presente: áreas ainda marcadas pelas cicatrizes da natureza foram novamente  ocupadas por casas e barracos.

Talvez para lembrar que persistem questões como a desiguald  de social e um grave déficit habitacional no país. Memória  Cinquenta anos depois, as duas catástrofes foram lembradas por uma série de  eventos e reportagens.

A de Caraguá foi tema de exposição, que deve ser remontada em novembro, e solenidades.  No dia 17 de março, sobreviventes e instituições que ajudaram no socorro às  vítimas receberam a “Comenda Thomaz Camanis Filho”, nome do radioamador  que conseguiu veicular mensagem avisando da situação da cidade.

No dia  18, missa homenageou as vítimas e as moradoras e moradores que ajudaram a salvar vidas. Presidida pelo  bispo Dom José Carlos Chacoroswki, com presença do prefeito Aguilar Junior, a celebração incluiu a entrega de uma placa simbólica do  Memorial do Cinquentenário, que está em construção. 

No meio da semana dedicada à memória, no dia 15, um temporal desabrigou famílias e pôs Caraguá em  estado de alerta. Um acontecimento de dimensões bem menores, mas que reavivou o trauma.

De qualquer  modo, nos últimos 15 anos, houve um aumento considerável na es  rutura e na inteligência em torno do tema. Em 2005, o governo federal criou o Centro Nacional  de Gerenciamento de Riscos e Desastres (Cenad), focado em ações estratégicas  de preparação e resposta a desastres.

Em 2008, o Instituto Nacional de Pesquisas  Espaciais (INPE) lançou o Sistema de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais  (Sismaden).

No final de 2011, após nova tragédia — desta vez na Serra Fluminense e outra das mais  graves de nossa história — começou a operar o Cemaden, ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação  (MCTI) e de responsabilidades complementares ao Cenad. Foram mais de 8 mil alertas emitidos desde  então.

Em 2012, a Lei 12.608 instituiu a Política Nacional  de Proteção e Defesa Civil e detalhou o funcionamento  do Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sinpdec) e do Conselho Nacional  de Proteção e Defesa Civil (Conpdec).

Ainda que esse arcabouço  venha permitindo salvar pessoas e bens, a insuficiência dos programas  habitacionais, que empurra a população pobre  ara as áreas de risco, bem como  o desmatamento e outros danos impostos aos morros  e várzeas, conjugados ao aumento da frequência e da intensidade dos eventos climáticos extremos, continuam a provocar escorregamentos, enchentes e afins   — e expõem a contribuição humana escamoteada na nomenclatura “desastres naturais”. 

O tecnologista e pesquisador do Cemaden Tulius Dias Nery puxa da memória inundações e ocorrências  de movimentos de massa expressivos nos últimos dez anos: Vale do Itajaí  (SC), em 2008; Angra dos Reis (RJ) e São Luiz do Paraitinga (SP), 2009- 2010; Rio de Janeiro, 2011;  Cubatão (SP), 2012; Itaoca (SP) e o Espírito Santo como um todo, 2013; Salvador, 2015; Alagoas e Pernambuco, 2017.

“Ou seja,  um evento grande em todas as localidades do país”, observa. “Se pegarmos Caraguatatuba como exemplo,  a rede de monitoramento e os dados disponíveis aumentaram bastante, mas a população também cresceu  de forma a ocupar áreas inundáveis na baixada e  áreas nas encostas”.

No seu doutorado, o geógrafo produziu tese focada naquele evento e nas  características das bacias do município, combinando dados disponíveis e cálculos experimentados  por outros pesquisadores para oferecer um modelo de previsão de corridas de detritos.

Nery evita cravar a possibilidade de uma hecatombe  como a de 1967, ressaltando o receio de ser alarmista. A seu ver, é preciso seguir na ampliação da rede,  monitorando também locais não povoados para entender melhor tais processos; consolidar o banco de dados com a memória de  onde e quando ocorreram; trabalhar a percepção de risco pela população, para que cada pessoa da comunidade saiba quando um desastre está prestes a ocorrer  no seu bairro; e aprimorar a gestão compartilhada.

“No Japão, tudo é participativo.  Crianças conhecem o risco da sua região. As pessoas entendem o papel de cada parte na prevenção e na assistência. Aqui, a gestão é  compartilhada, mas é cada um no seu quadrado”, conclui.

 

Rede em risco

 

O Cemaden informa contar hoje com mais de 4  mil pluviômetros em sua rede de  nformações e 35  radares meteorológicos (dos quais nove próprios), além de imagens em tempo real  de um satélite americano.

A rede inclui também dez estações robotizadas para pesquisa em deslizamentos, 100  prismas para monitoramento de encostas, 301 estações hidrológicas, 100 estações  agrometeorológicas e 550 sensores de umidade do solo  e precipitação.

O sistema permite, assim, processar mais de 4 mil  informações de diversas partes do país, transformadas em dados atualizados a cada  dez minutos, para o acompanhamento do que acontece nos 958 municípios em que  o risco de desastres é maior, onde está 90% da população mais vulnerável do país.

Em julho, o Cemaden foi um dos signatários da carta em que os institutos do MCTIC alertaram para o risco  de colapso caso mantido o contingenciamento de 44% de seus recursos, decretado pelo governo Temer.

De acordo com o portal do Estadão,  o diretor Osvaldo de Moraes relatou risco para a manutenção da rede que embasa os alertas.

Essa atividade- fim custa R$ 15 milhões  o ano, e o centro teve a dotação orçamentária para sua  atuação como um todo reduzida de R$ 33 milhões para R$ 18 milhões. “Estamos  cortando na pele tudo que é possível para manter os nossos serviços funcionando”, disse Moraes ao jornal.

 

Psicologia para evitar o “segundo desastre”

Roda de conversa sobre o  tema em Caçapava (SP), em agosto, lançou o livro O psicólogo  na redução de riscos de desastres: teoria e prática. Organizada por Daniela da Cunha Lopes e Olavo Sant’Anna Filho, a  publicação busca contribuir para o entendimento do papel desses profissionais num campo que reúne hidrólogos, climatologistas,  geólogos, geógrafos, meteorologistas e engenheiros.

Colocando os efeitos psicossociais (“segundo desastre”) ao  lado daqueles causados à economia e à infraestrutura, os organizadores destacam que o interesse  e a preocupação com o tema das emergências e desastres cresceram a partir da visibilidade das  discussões sobre os impactos das mudanças climáticas.

“A sociedade brasileira parece estar adquirindo maior consciência  da importância de seu envolvimento de maneira proativa na preservação ambiental, na prevenção  e na preparação para enfrentar riscos — enfim, na redução dos riscos de desastres”, avaliam.

De acordo com Lopes e  Sant’Anna Filho, esses fenômenos complexos e multidim nsionais, ao causar morte, sofrimento  e desequilíbrios, impactam a estrutura social das populações afetadas, bem como a saúde física e mental dos atingidos — indiretamente, toda a sociedade. O livro  dedica capítulos a casos como os de Mariana e Caraíbas (MG) e Petrópolis (RJ). 

O Conselho Federal de Psicologia atualizou, em dezembro, as orientações para a atuação profissional aplicada a emergências e desastres. Partindo das novidades  institucionais e de legislação, a nota técnica ressalta a importância de garantir que atenção psicossocial e  saúde mental sejam contempladas no plano de contingência, de forma articulada com o Sistema Único de Saúde (SUS) e o Sistema Único de  Assistência Social (SUAS).

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