“Fogo amigo” contra o PNAE?

Ao prestar depoimento à CCT do Senado em 16 de agosto, o comandante da Aeronáutica,  brigadeiro Nivaldo Rossato, abriu as baterias contra o modelo de governança do Programa Espacial Brasileiro (PEB), afirmando haver falta de harmonia entre os programas ligados ao Plano Nacional de Atividades Espaciais (PNAE, civil, a cargo da Agência Espacial Brasileira-AEB), de
um lado, e aqueles vinculados ao Programa Estratégico de Sistemas Espaciais (PESE, coordenado pela própria Aeronáutica), de outro lado. Declarou que o PNAE “não atende demandas” e provoca “dispersão de recursos”. 

Ocorre que estes programas não são harmônicos, não por problemas na governança do PEB, que de fato existem, mas porque têm origens totalmente diferentes, tanto no método, quanto no tempo.

Enquanto o PNAE teve sua primeira edição lançada em 1996, acumulando tudo o que fora  realizado na área espacial no país desde o primórdios do PEB na década de 1960, o PESE só foi  criado em 2012, a partir de necessidades específicas das áreas militares.

Enquanto as várias versões do PNAE (atualmente na quarta edição) foram elaboradas ouvindo-se a sociedade por meio dos vários atores do PEB, o PESE foi concebido pelas FFAA, para atender a demandas das FFAA.

Neste sentido, caso a Aeronáutica almeje uma união entre estes dois programas, não deve caber  
ao PNAE adequar-se ao PESE, mas sim o contrário. Afinal, o PESE possui um viés operacional,  
visando mais o produto e menos os meios necessários para se obtê-lo, abordagem exatamente  oposta à utilizada pelo PNAE, que almeja antes de tudo a conquista do domínio da tecnologia  de  acesso ao espaço. 

Na apresentação, o comandante critica os projetos dos Veículos Lançadores de Satélites (VLS), sob a responsabilidade da   própria  aeronáutica, definindo-os como “impossíveis de serem  recuperados face à defasagem tecnológica”, atribuindo esta   defasagem, entre outras coisas, à falta de recursos  continuados. 

Neste aspecto ele entra em contradição: ora diz que os VLS não avançaram por falta   e recursos, ora tenta explicar por que não conseguia executar os recursos  que o governo arantia   esses programas anualmente. 

Por fim, após elogiar o satélite SGDC, afirmando que ele   irá aumentar a capacidade de prover Internet em banda larga a todo o  território nacional, foi  obrigado  a reconhecer que esta capacidade do satélite não está sendo utilizada por absoluta falta  de planejamento das autoridades.

Que se esqueceram do detalhe de que,  para funcionar, o SGDC  precisa se comunicar com estações de  recepção em solo, estações estas que não se sabe quando  serão construídas.

Enquanto isso, a vida útil do satélite vai se esvaindo!   

 

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