Cronista visual da barbárie

CHARGISTA FALA COM EXCLUSIVIDADE AO JORNAL DO SINDCT

 

Suas charges fortes e claras repercutem em outros países. “Eu provavelmente seria preso se tentasse chegar a Tel Aviv. Se Israel é tão preocupado com as charges sobre a Palestina é porque elas estão cumprindo papel relevante”,comemora

 

Napoleão de Almeida

 

Ele incomoda o ditador da Turquia, o establishment direitista de Israel e, claro, os picaretas do Congresso Nacional.

 

É forte na linguagem a ponto de ter desafetos como o presidente turco Recep Erdogan e seu congênere Michel Temer, mas tem uma fraqueza bem comum: bolacha “Maria” molhada no café com leite.

Esse é o chargista Carlos Latuff, carioca “refugiado” há cinco anos em Porto Alegre.

 

Colaborador do Jornal do SindCT e de inúmeros outros veículos pelo mundo, da mídia tradicional ou não, Latuff se enxerga como artista, não como ativista.

 

Tem orgulho de ser fruto da comunicação sindical.

 

E, acima de tudo, é um observador incansável e irônico da oligarquia brasileira, nossa “elite intelectual”.

 

O Jornal do SindCT conversou com Latuff para entender sua visão de mundo e o que lhe oferece o principal subsídio de trabalho: a política. Latuff é um apaixonado por charges, pela simplicidade com que elas tocam diferentes públicos.

 

“É um negócio muito antigo, desde as pinturas rupestres. Tem muita cor, é muito atraente. Dispensa o uso de palavras, apesar de que eu uso muitas vezes balões, para reforçar. Atinge mais facilmente as pessoas, as que sabem e as que não sabem ler”, celebra.

 

“É muito rico, muito antigo. Antes de saber escrever a gente já está desenhando”.

 

Recentemente, ele publicou um desenho em que Temer é representado oferecendo queijo a um grupo de ratos engravatados, numa clara referência à distribuição de verbas a parlamentares não só com vistas à aprovação da imoral “reforma trabalhista”, mas principalmente para manter de pé o cambaleante, tanto quanto ilegítimo, governo interino.

 

“Uma característica que faz a charge tão popular é o fato de ela utilizar símbolos consagrados pela sociedade. O porco, o rato, estão associados à picaretagem, roubalheira, mau-caratismo.

 

Um rato engravatado, um Congresso cheio de ratos engravatados, qualquer pessoa, por mais leiga em política, associa aquilo à corrupção, roubalheira”, avalia.

 

O Brasil ficou pequeno demais para Latuff, que passou a incomodar além-fronteiras.

 

Problemas com algumas charges fecharam as portas de países como Israel, por causa da firme defesa que ele faz das causas palestinas. “Eu provavelmente seria preso se tentasse chegar a Tel Aviv.

 

A Turquia também, por conta das minhas charges em relação ao Erdogan. Se Israel é tão preocupado com as charges sobre a Palestina, é porque obviamente essas charges estão cumprindo algum papel relevante”, comemora, ao lembrar que o diálogo dele é exatamente com o cidadão comum.

 

Autópsia do Brasil”

 

Latuff definiu o atual momento do Brasil como uma “autópsia” do País: “Todos estão podendo ver as entranhas da nossa oligarquia.

O que a gente está presenciando nos dias de hoje não é nada diferente de dias, anos, décadas, séculos passados.

 

O Brasil não saiu ainda do seu papel de colônia exportadora de matérias primas para os países industrializados. Continuamos tendo uma classe dominante que tem uma mentalidade colonizada.

 

Assim, não vejo novidade naquilo que é mostrado. Como diria o Cazuza, ‘eu vejo um museu de grandes novidades’”.

 

A efervescente política nacional é uma fonte ilimitada de conteúdo para as charges, mas está longe de ser do agrado do cronista.

 

“A crise que foi deflagrada com o impeachment da Dilma é uma espécie de Caixa de Pandora.

 

Abriu a tampa do esgoto e existe uma disputa intestina, uma disputa de poder entre os oligárquicos”, opina, sem deixar de dizer que o Brasil não é tão diferente de outros países.

 

Em várias regiões do globo, Latuff conta colaborar quando acredita em algum movimento, “como as Mães de Maio, ou o MTST; ou na Índia, contra o avanço da Coca-Cola, que rouba água do lençol freático; ou a coalizão contra a Bayer na Alemanha”. Ele não foge de briga: “Há várias ações em que colaboro com charges”.

 

Testemunha”

 

Latuff não se vê como um militante. “Sou um cronista visual da barbárie. Se acompanhar o trabalho de 1990 pra cá, não sou um chargista conhecido pelo bom humor.

 

Nesses 27 anos, são temas relacionados à barbárie. Guerras, torturas, violência policial, colonialismo, imperialismo.

 

Sou mais uma testemunha do que agente de ação. Obviamente quando [as charges são] utilizadas por manifestantes na rua, elas cumprem o papel além do editorial. Elas têm o papel militante.

 

Fico feliz quando são utilizadas e apropriadas pelos verdadeiros militantes”. É por isso que ele se diz feliz em se comunicar com a categoria de C&T por meio do Jornal do SindCT.

 

“Quando a gente faz uma charge do Kassab com um satélite na mão, ‘100% brasileiro’, que foi feito na França e é todo estrangeiro, e dizem que é feito no Brasil...

 

O problema é esse. Não temos governos que tenham interesse em contrariar os trustes que controlam o Brasil. Nossa classe empresarial está empenhada em nos manter como colônia”.

 

Não que o Brasil esteja condenado a uma posição subalterna.

 

“Cérebro nós temos. Pessoas, temos. Mas temos dois problemas. Influência pesada de grupos internacionais que não desejam ver o Brasil disputar espaço e, além do inimigo externo, essa oligarquia atrasada, anacrônica, que defende esses interesses. Eu gosto muito deste trabalho, de o SindCT trazer outros assuntos da pauta internacional, é uma parceria que tem dado bons frutos há muito tempo”. 

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