Temer não sai de cena, e campanha para eleição de 2018 ganha o palco

 

PRÉ-CANDIDATOS A PRESIDENTE PERCORREM O PAÍS

Negociatas no Congresso garantem sobrevida ao presidente, ao custo de bilhões de reais. O uso da máquina estatal é imoral e contrassenso para um governo que vendeu a ideia de que impeachment e a política de austeridade estabilizariam a economia

 

Antonio Biondi

e Cristina Charão

Os 263 deputados e deputadas que, no dia 3 de agosto, colocaram Michel Temer a salvo do inquérito aberto pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para investigá-lo por corrupção, obstrução de justiça e organização criminosa, garantiram a continuidade do mandato de um presidente sem qualquer apoio popular, avaliado positivamente por menos de 10% da população.

Demonstraram, por outro lado, o peso da máquina movida a bilhões de reais em emendas parlamentares e outros favores (como o perdão de dívidas previdenciárias de grandes produtores rurais, anunciado na véspera da votação), com a finalidade de agradar grandes bancadas parlamentares, e que deve seguir funcionando até a aprovação da agenda de reformas imposta no pós-golpe.

O uso da máquina estatal por Temer não apenas é imoral do ponto de vista político, como também se mostra um contrassenso para um governo que vendeu à população a ideia de que o impeachment permitiria a adoção de uma política de austeridade que traria estabilidade econômica. 

A conta das negociações entre o Palácio do Jaburu e o Congresso afetou as metas do ajuste fiscal implementado por Henrique Meirelles. A resposta da equipe econômica foi o aumento de impostos. 

Ainda assim, esta máquina deve ser mobilizada novamente para aprovar a (contra)reforma da Previdência, que pode ser apresentada para votação pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, agora em setembro.

Os 308 votos necessários ainda estão sendo contabilizados e as negociatas tendem a se acelerar e subir de preço, uma vez que a votação do pedido de investigação de Temer acendeu o alerta de que a base não está totalmente convencida a apoiar incondicionalmente qualquer medida do governo.

Reforma política

 

Parte das medidas para agradar esta base está contida na reforma política que vem sendo votada temerariamente na Câmara.

A alteração da forma de votação das eleições proporcionais (de deputados federais, estaduais e vereadores) para o chamado “distritão”, por exemplo, caminha justamente na direção de agradar o establishment: ataca as menores siglas da oposição, ao mesmo tempo em que força os nanicos conservadores a repensar estratégias para se manterem no páreo.

A eliminação do voto em legenda e a eleição exclusivamente pela votação nominal tendem a fazer com que tamanho e preço das campanhas determinem ainda mais os resultados, além de facilitar a eleição de figuras com forte apelo popular.

Neste aspecto, também caminha na direção dos interesses de uma bancada de peso, a evangélica, que enxerga no “distritão” uma maneira de usar o prestígio de lideranças de igrejas para aumentar ainda mais o seu peso dentro do Legislativo.

Enquanto o quadro das eleições legislativas deve ser determinado pelo desfecho da agora fatiada votação da reforma eleitoral, as campanhas para as eleições presidenciais parecem ter começado. E com força. São vários os pré-candidatos fazendo turnês pelo Brasil.

Ciro Gomes (PDT) tem sido presença constante em debates organizados por correligionários em vários estados. Esteve em Porto Alegre no final do mês de agosto para falar sobre a reforma trabalhista.

Na mesma data, Álvaro Dias (Podemos) também visitava a capital gaúcha, conversando com lideranças políticas e empresariais.

Já o prefeito de São Paulo, João Dória Jr. (PSDB), vem cumprindo agenda intensa de viagens e encontros com possíveis aliados, especialmente do DEM, que pode abrigá-lo para concorrer à presidência caso os tucanos de fato optem pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB).

A passagem por Salvador rendeu a primeira das cenas anedóticas deste período pré-eleitoral, com uma chuva de ovos sobre Dória e ACM Neto.

Poucos dias depois, o agora pré-candidato pelo recém rebatizado Patriota, Jair Bolsonaro, também levaria uma ovada durante visita a Ribeirão Preto, no interior paulista.

Esta reação popular aos nomes mais identificados com a direita ultraconservadora é um novo ingrediente na conformação das alianças e candidaturas da base aliada, junto com a péssima avaliação do governo Temer e as evidências do envolvimento pessoal do presidente e de seus principais apoiadores em esquemas de corrupção.

 

Racha no PSDB

 

Uma ala do PSDB já tenta se desvencilhar do peso eleitoral de estar na base aliada, ao custo da crescente divisão do partido.

Por orientação do seu presidente interino, senador Tasso Jereissati, o partido apresentou um programa eleitoral de rádio e TV em que atacava o “presidencialismo de cooptação” e afirmava que errou ao fazer “a velha política”, em alusão, respectivamente, ao governo Temer e às acusações de corrupção envolvendo o presidente afastado do partido, senador Aécio Neves.

A reação dos ministros tucanos de Temer foi imediata, reclamando do tom do programa e expondo um racha que também reflete os movimentos eleitorais do partido.

Com Dória aventurando-se pelo país como nova estrela tucana, Geraldo Alckmin teve de reaparecer.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Tasso Jereissati reforçou que o governador paulista tem a preferência para ser o candidato tucano e, atacando o prefeito paulistano, afirmou que “essa política de nós contra eles é um desserviço para o Brasil”.

Ainda assim, a Juventude do PSDB e o Movimento Brasil Livre, um dos principais instigadores do clima de intolerância política, anunciaram que passam a atuar juntos.

Correndo na frente de todos os outros candidatos, tanto nas pesquisas eleitorais como na velocidade da campanha, está Luiz Inácio Lula da Silva.

O ex-presidente assumiu a condição de candidato já em maio, quando o PT transformou seu discurso após o depoimento a Sérgio Moro em um grande comício.

Agora, os 20 dias da Caravana Lula pelo Brasil, passando por nove estados nordestinos entre final de agosto e início de setembro, o colocam definitivamente na agenda, por meio de eventos com forte apelo emotivo, mobilizando especialmente o público-alvo das políticas sociais.

A configuração dos palanques da caravana, com por exemplo a presença de Renan Claheiros em Alagoas, também já indicam a tônica da construção de alianças da candidatura lulista. Um movimento que recebeu, de imediato, críticas dos setores mais à esquerda do próprio PT, da sociedade civil organizada e dos partidos políticos. “Lula é a única figura de massa construída pela política nacional nos últimos 30 anos, isso é inegável”, diz Berna Menezes, da Executiva Nacional do PSOL.

“Mas ele tensiona o povo para negociar com a burguesia”.

“O fato de o lulismo ser de natureza conciliadora — o que explica a aliança com o PMDB e Joaquim Levy na Fazenda — confunde alguns analistas.

O lulismo não é propriamente de esquerda, mas é profundamente popular”, anotou, em artigo publicado na Folha de S. Paulo, o cientista político André Singer.

Os avanços na área social seguem mobilizando um contingente expressivo de pessoas.

Não por acaso, foram a tônica dos vários discursos de Lula pelo Nordeste, como no ato realizado no acampamento sem- -terra de Usina Maravilha, em Goiana (PE): “Eu tenho consciência que conseguimos melhorar a vida do povo como poucas vezes aconteceu nesse País. Tenho consciência da ascensão social de quase 40 milhões de pessoas. Eu tenho consciência da gente ter tirado da pobreza absoluta 36 milhões de pessoas”.

 

 

Lançada em São Paulo a Plataforma Vamos

Em busca da reunificação das esquerdas e da construção de uma referência programática para os diversos movimentos nascidos no país na última década, especialmente entre a juventude, a Frente Povo Sem Medo lançou, no dia 26 de agosto, o ciclo de debates Vamos.

A ideia central é a construção de um projeto popular para o Brasil, a partir da discussão de seis eixos programáticos: um programa negro, feminista e LGBT; democratização do poder e da política; democratização da economia; democratização da cultura e da comunicação; democratização da educação e da saúde; e democratização dos territórios e meio ambiente.

Esta discussão será pontuada por encontros presenciais realizados em todas as regiões do país, mas guiada especialmente por uma plataforma na Internet – www.vamosmudar. org.br

De acordo com Berna Menezes, do PSOL, este formato busca aproveitar o acúmulo das juventudes com as mobilizações em rede, ao mesmo tempo em que estimula o diálogo presencial e a reorganização de núcleos políticos locais que consigam colocar em contato “os setores que não dialogavam, mas que começaram a fazê-lo a partir do golpe e dos atos de resistência contra os ataques que vieram depois e seguem acontecendo”.

“O Vamos é uma tentativa de combater a desesperança e reunificar as esquerdas”, comenta. “Temos de unificar esta geração de uma Luiza Erundina, um Ivan Valente, um Tarso Genro, um Olívio Dutra com esta nova geração de movimentos e lideranças, como o MTST e o Guilherme Boulos, as mulheres negras de Belo Horizonte, os coletivos da juventude como a Mídia Ninja”.

Neste sentido, a mesa composta para o ato de lançamento, realizado em São Paulo, teve peso simbólico importante.

Participaram dela os citados Erundina e Boulos, além de Eduardo Suplicy (PT), Marcelo Freixo (PSOL), Sônia Guajajara (liderança indígena), Dríade Aguiar (Mídia Ninja) e Leonardo Sakamoto (jornalista), como mediador.

 

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