“Antes que Seja Cedo” mostra beleza do Banhado e questiona projeto viário

FILME DE MÉDIA-METRAGEM FOI INTEGRALMENTE FILMADO EM SÃO JOSÉ DOS CAMPOS

Angela Lima

Com apenas R$ 300, a produção questiona o projeto “Via Banhado”, que pretende resolver problemas de trânsito por meio da abertura de uma rodovia de 4 km no Parque Natural do Banhado, área de preservação.  Cartão-postal de São José dos Campos, o Banhado é testemunha e cenário para o média-metragem ficcional Antes que Seja Cedo. O filme narra a história de Lilian e Gustavo, jovens que se conhecem por acaso no terminal central de ônibus e decidem, impulsivamente, passar a noite juntos no centro de São José dos Campos.

Realizado pela produtora joseense FolhaFilmes, é uma livre adaptação do longa-metragem Antes do Amanhecer (Before Sunrise), do diretor Richard Linklater, rodado em 1995. Com R$ 300 no bolso e uma paisagem singular como cenário, o projeto se tornou realidade em 120 dias. A produção é colaborativa: em função dos recursos escassos, os envolvidos na produção, inclusive a dupla de atores, desempenham todas as funções.

“O Banhado foi a força propulsora do roteiro”, destaca Marcelo Lira, um dos diretores do filme, acrescentando que o cenário escolhido teve como pressuposto a importância de a cidade se apropriar do local. Tema que entra no roteiro de Antes que Seja Cedo em meio a imagens impactantes da orla do Banhado.

Em formato de concha, essa remota área alagadiça de São José dos Campos compreende a várzea do rio Paraíba do Sul e equivale, em extensão, a cerca de 470 campos de futebol. Extensão verde de beleza ímpar que tem no pôr do sol seu grande atrativo. É na caminhada através da madrugada pela Avenida São José, que margeia o Banhado na região central da cidade, que Gustavo explica para Lilian, encantada pela paisagem, o projeto de construção de uma via que pretende dar fluidez ao trânsito atravessando uma área de preservação ambiental.

O tom de Gustavo é de crítica. Assim, a narrativa ficcional do filme remete a algo bem real: o projeto “Via Banhado”, retomado pela Prefeitura, que planeja lançar o edital para as obras no início de 2018. O projeto “Via Banhado” prevê a construção de uma rodovia que terá quatro quilômetros e atravessará o Parque Natural do Banhado, uma área de proteção ambiental.

Um dos principais objetivos do projeto consiste em desafogar o trânsito da região central, realizando a ligação da zona Norte da cidade à zona Oeste. Com orçamento de R$ 75 milhões, o “Via Banhado” prevê ainda a desapropriação e retirada de famílias de uma comunidade que existe no local há 80 anos. Por esse motivo o projeto encontra resistência de grande parte dos moradores.

A Prefeitura, através da Secretaria de Mobilidade Urbana, confirmou ao Jornal do SindCT que concederá aditamento de prazo para o consórcio Cobrape, responsável pelo projeto executivo. E informou que ainda está desenvolvendo os estudos para concluir o projeto executivo até o final deste ano.

Reticente em polarizar o debate sobre o projeto “Via Banhado”, o diretor Lira se mostra categórico ao ressaltar que um dos papéis da arte é promover o debate crítico, ressaltando que essa discussão não poderia ficar de fora da narrativa do filme.

Falta incentivo

A escassez dos incentivos para audiovisual é uma outra preocupação que Lira destaca. “O mundo é cada vez mais audiovisual e sem editais locais aumenta a dificuldade de se tornar competitivo e se profissionalizar em âmbito nacional”. Para este ano, o orçamento da F u n d a ç ã o Cultural Cassiano Ricardo (FCCR) é de R$ 25,7 milhões, conforme peça orçamentária enviada à Câmara Municipal em 2016. De acordo com sua assessoria de Comunicação, a FCCR não trabalha com orçamentos específicos para cada área de atuação.

Os recursos são aplicados para a realização de suas atividades, independentemente da área ou manifestação artística. Apesar de confirmar que não há previsão de novos editais para audiovisual este ano, a FCCR disse ser este o desejo da nova gestão e que projetos desta natureza poderão ser apresentados para que a fundação seja uma parceira na execução, por exemplo, disponibilizando seus equipamentos culturais ou mesmo por meio da apresentação de projetos para o Fundo Municipal de Cultura, que terá uma nova edição nos próximos meses.

Lira ressalta a importância do financiamento público, lembrando que, sem incentivos para as produtoras locais, a cidade passa a ser descrita somente em roteiros elaborados pela ótica das produtoras privadas. O diretor lamenta que hoje não exista ninguém sendo preparado para roteiros independentes que retratem as questões mais críticas do cotidiano de São José dos Campos.

O amor pela sétima arte faz de Lucas Paixão, integrante da equipe colaborativa, um otimista. Ele diz que hoje a tecnologia é uma grande aliada, pois com celulares e a redução de custo dos computadores é possível ao artista se comunicar com relativa qualidade.

Antes que Seja Cedo, que estreou no Cine Santana no início de julho, contou com o apoio e divulgação da Prefeitura, encontrando-se disponível na Internet, “uma plataforma de divulgação dos conteúdos e de discussão fundamental para o debate e reflexão”, avalia Lucas (confira em http://www.facebook. com/folhafilm).

Ana Macieira, a Lilian do filme, descreve a importância da experiência: “Foi uma grande oportunidade vivenciar o projeto”. Fala com entusiasmo dos dias com a equipe e da participação de todas as tarefas dentro da produção, além de atuar como atriz. Destaca o envolvimento do grupo e a dinâmica da produção. Ela, que no filme recita parte de um poema de Fernando Pessoa, descreve o que sentiu, remetendo ao próprio poeta: “Eu amei participar”.

A equipe decidiu não inscrever Antes que Seja Cedo em festivais. “O filme teve seu tempo e serviu para debruçar na busca de qualidade, aprimorar e compreender a importância de um bom roteiro, mostrar outras possibilidades entre as quais os roteiros ficcionais”, explica o diretor Lira. É a isso que o grupo tem se dedicado, desde o lançamento do média-metragem.

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