“Governo foi terceirizado para Temer implementar devastação social no País”

ENTREVISTA COM RICARDO ANTUNES

Antonio Biondi

“O cenário mundial é de uma onda neoliberal e grande precarização do trabalho”, diz Antunes. Direitos trabalhistas são um dos principais alvos. Governo atual e Estado de Exceção representam imposição das elites, à frente o setor financeiro. A fim de compreender os impactos da “reforma trabalhista” e de outras medidas do atual governo que impactam o futuro da classe trabalhadora e do Brasil, o Jornal do SindCT realizou entrevista exclusiva com Ricardo Antunes, professor titular de Sociologia no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Campinas (Unicamp).

Um dos principais nomes da sociologia do trabalho na atualidade, Antunes afirmou ao Jornal do SindCT que “o governo Temer, ele próprio, é um governo terceirizado”. E que foi terceirizado “para implementar a devastação no Brasil”. Antunes publicou, entre outros livros: Os Sentidos do Trabalho (2015), Adeus ao Trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho (2015), Continente do Labor (2012), O Novo Sindicalismo no Brasil (1995), A Rebeldia do Trabalho (1992) e Classe Operária, Sindicatos e Partido No Brasil: da revolução de trinta até a Aliança Nacional Libertadora (1982).

O professor, que recebeu o Prêmio Zeferino Vaz da Unicamp (2003), a Cátedra Florestan Fernandes da CLACSO (2002) e a Medalha do Tribunal Superior do Trabalho (TST) (2013), destaca que as elites brasileiras “caminham em uma espécie de pêndulo: ora pendendo para a conciliação, ora pendendo para o golpe, a ditadura”. O governo Temer, portanto, seria “produto de um movimento desse gênero, representando uma imposição das elites, capitaneadas pelo setor financeiro”. Depois de mais de uma década de conciliação, as elites resolvem encerrar o ciclo anterior e implementam “uma verdadeira ditadura de classe, com aparência de civilidade”, um golpe que reúne diversas variáveis (civil, parlamentar, midiático) e que implementa um Estado de Direito de Exceção.

“Tudo que não interessa às classes dominantes deve ser eliminado, reprimido, excluído. Na minha avaliação, portanto, tirando o período militar, vivemos hoje o momento mais difícil da história do país desde o advento da República”. O professor da Unicamp situa o processo brasileiro em um contexto mundial de precarização do trabalho, inserido em uma contraofensiva de caráter neoliberal, que atinge os direitos sociais em geral e os trabalhistas em específico.

“O cenário, portanto, é de uma onda neoliberal, fortalecida ou complementada por uma contraofensiva global, que prenuncia uma era de devastação social”. Professor convidado da Universidade Ca’Foscari de Veneza, na Itália, ele ministrou cursos de pós-graduação e graduação (e conferências) em várias universidades na Europa, América do Norte e América do Sul, bem como na Ásia. Nos diversos países pelos quais passou ou onde publicou seus livros (Itália, Espanha, Argentina, Portugal, Colômbia, Venezuela, EUA, Índia), o professor testemunhou a precarização do trabalho como um fenômeno mundial.

No caso brasileiro, Antunes entende que a crise atual, por outro lado, enterra por um largo período o projeto de conciliação de classes. “Entramos em uma fase de luta de classes aberta”. O professor ressalta, por fim, que a História é imprevisível. “Esse ciclo tenebroso de nossa história vai passar. Precisamos agora acumular oxigênio, para saber utilizar nossas ferramentas e propostas de uma forma melhor do que utilizamos nesses últimos dez anos”.

O Sr. chegava a imaginar que enfrentaríamos um momento tão difícil de nossa história, mais de 30 anos após o final da Ditadura?

Ricardo Antunes. Não chegava a imaginar. Todos que lutamos na juventude contra a Ditadura Militar, e que depois de vinte e um anos pudemos ver o início do fim da Ditadura, não poderíamos imaginar que em 2014 e 2015 enfrentaríamos a profunda crise em que nos encontramos e que depois teríamos de viver sob essa tragédia que marca o governo o Temer.

O período que levou ao fim da Ditadura Militar representou um momento espetacular da história brasileira, com greves históricas, criação da CUT e do PT, as mobilizações pelas “Diretas Já”, o processo da Constituinte... E que perdemos.

Após todo esse acúmulo, chegamos aos anos 1990 com Collor (golpe que foi derrotado logo depois pelos seus artífices), e em seguida vivemos sob o neoliberalismo com Fernando Henrique. Ao passo que Collor representou uma variedade selvagem do neoliberalismo, prisioneiro do seu próprio apetite, Fernando Henrique implementou um neoliberalismo mais racional, mais difícil de se enfrentar, mais consistente do ponto de vista teórico e de políticas. A vitória de Lula em seguida, de certa forma, representou uma vitória política tardia. O Brasil já não era o mesmo. O PT já não era mais o mesmo.

E hoje, qual a leitura do Sr. sobre o momento atual?

Ricardo Antunes. Utilizo- me, com a devida licença, de uma ideia de Florestan Fernandes, segundo a qual podemos afirmar que vivemos hoje tempos de uma “contrarrevolução burguesa preventiva”. Mesmo saben-do que não havia risco de revolução, a burguesia nacional valeu-se de tal mecanismo. Vivemos, também, uma terceira onda neoliberal, envolta em um contexto global de contrarrevolução preventiva — que passa por Trump nos EUA, pelo Brexit na Grã-Bretanha, pelo embate entre Macron e Le Pen na França, por fenômenos semelhantes na Áustria, na Polônia...

Encontramos algumas poucas exceções, como é o caso de Portugal, em que assistimos à tentativa de consolidação de um governo de centro- -esquerda. O cenário, portanto, é de uma onda neoliberal, fortalecida ou complementada por uma contraofensiva global, que prenuncia uma era de devastação social. Esse cenário não é brasileiro, é mundial. Estive por dois meses e meio fazendo pesquisas na Itália, e assisti a um cenário de grande precarização do trabalho.

Por mais qualificada que seja a pessoa, ela pode se sujeitar a trabalhos do tipo intermitente, ou a um tipo de dupla jornada para a mesma empresa, com a segunda jornada sendo acordada e remunerada por fora, entre outros mecanismos do gênero. A financeirização, a terceirização, a precarização representam verdadeiros símbolos dos tempos atuais. Na Inglaterra, há modalidades de contrato em que o trabalhador trabalha quando tem trabalho, e não trabalha quando não tem. Recebe pelo que trabalhou.

E se for chamado, tem que trabalhar. É o que está sendo chamado de trabalho “zero hora”. São fenômenos que dialogam com o que está sendo chamado de “uberização” da economia. Mas em modalidades de trabalho ainda mais precárias e incertas para o trabalhador.

E no caso brasileiro?

Ricardo Antunes. No caso brasileiro, o governo Temer, ele próprio, é um governo terceirizado. Para que ele foi terceirizado? Para implementar a devastação no Brasil. Com a Saúde ainda mais devastada e a PEC do Gasto Público, a terceirização plena, agora a reforma trabalhista, que busca demolir a CLT naquilo que ela tem de positivo, está se implementando a institucionalização da burla: o que antes o empresário implementava a frio e em desacordo com a legislação formal, agora a lei o permitirá fazer.

As reformas trabalhista e da Previdência são integralmente articuladas, com a primeira eliminando direitos e proteções sociais e com a contrarreforma da Previdência eliminando a Previdência Pública — e empurrando para a Previdência Privada quem tiver condições. Sem, no entanto, oferecer qualquer garantia, conforme se deu no caso chileno.

Em outros momentos da história vivenciamos retrocesso dessa profundidade?

Ricardo Antunes. Em relação à situação brasileira, e guardadas as devidas diferenças, podemos dizer que tivemos retrocesso semelhante ao atual com o advento da Ditadura Militar. Foi um momento terrível. A tomada do poder pelos militares (e civis que os apoiaram) levou a um momento de terror político do Estado. Foi algo muito bruto, que não vivemos hoje em termos de mortos, desaparecidos, torturas. Posteriormente, enfrentamos um novo momento muito duro em seguida com Collor.

E que foi equacionado em cerca de dois anos. Nesse sentido, cabe registrar aqui que as elites brasileiras caminham em uma espécie de pêndulo: ora pendendo para a conciliação, ora pendendo para o golpe, a ditadura. Os próprios setores que se conciliavam e articulavam anteriormente, se organizam em seguida para derrubar aqueles que haviam apoiado. Temos vários exemplos nesse sentido, de Dilma ao Estado Novo e a 1930, passando por Collor e por 1964.

O governo Temer, portanto, é produto de um movimento desse gênero, representando uma imposição das elites, capitaneadas pelo setor financeiro. Depois de mais de uma década de conciliação, em que deitaram e rolaram, quando a crise começa a mostrar seus efeitos, resolvem que é o momento de encerrar o ciclo anterior. Implementam, a partir dessa decisão, uma verdadeira ditadura de classe, com aparência de civilidade. Podemos classificar como um golpe civil, um golpe parlamentar, um golpe midiático. Um golpe que reúne todas essas variáveis e que implementa um Estado de Direito de Exceção.

Tudo que não interessa às classes dominantes, com a hegemonia do setor financeiro, deve ser eliminado, reprimido, excluído. Na minha avaliação, portanto, tirando o período militar, vivemos hoje o momento mais difícil da história do país desde o advento da República. Por outro lado, o projeto de conciliação de classe está enterrado por um bom período. Entramos em uma fase de luta de classes aberta. Embora tenha havido um enfraquecimento dos partidos de esquerda no período recente, vamos adentrar um período de luta de classes aberta.

A criação do PT sofreu um abalo monumental. Os partidos mais à esquerda também enfrentam dificuldades em lidar com as críticas ao campo e em ocupar esse espaço aberto. Não obstante, há uma miríade de lutas no Brasil — dos indígenas, quilombolas, periferias, mulheres, negros, do sindicalismo classista, do movimento LGBT...

E essa miríade é um traço muito positivo, que coloca um desafio orgânico para a esquerda brasileira e para esses movimentos, que se apresentam muito desconectados. Atravessamos uma grande crise econômica, política, social, um desencanto muito grande, um enorme, profundo desalento. Mas nós possuímos as ferramentas da classe trabalhadora, do mundo do trabalho, para enfrentar essa hecatombe que se abateu sobre o Brasil.

De certa forma, os movimentos que trabalham com pautas mais do cotidiano, mais reais, urgentes, apresentam dificuldade em pensar um projeto de futuro para o país. Os sindicatos se encontram em um ponto intermediário: trazem um olhar para o país e para um projeto a esse respeito, mas muitas vezes são prisioneiros de questões mais corporativas e burocráticas em suas atividades.

Os partidos de esquerda, por seu turno, possuem um projeto de país e sociedade muito bem delineados. Mas apresentam dificuldades para compreender questões vitais, dificuldades em compreender o que é prioritário, estratégico, para uma determinada conjuntura.

O eixo são as eleições, a luta que passa pelo Parlamento, ou é a luta social? A questão que se coloca não é se uma dessas frentes é mais importante do que a outra, mas sim que essas são as ferramentas disponíveis. As ferramentas que possuímos para criar uma nova forma de organização, novas lutas, um novo ciclo desse campo.

É possível ter esperanças?

Ricardo Antunes. A Nova República acabou. Começou de forma capenga com Sarney e terminou de forma trágica com Temer. Estamos vivendo um ciclo de contrarrevolução preventiva, mas estamos em um ciclo de lutas sociais. A História é imprevisível.

Não é possível abafar suas contradições. Esse ciclo tenebroso de nossa história vai passar. Precisamos agora acumular oxigênio, para saber utilizar nossas ferramentas e propostas de uma forma melhor do que utilizamos nesses últimos dez anos. Algo que também vamos ter que saber reconhecer.

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