Humberto Sobral, 50 anos de INPE

Shirley Marciano

Pesquisador identificou as bolhas ionosféricas como causa de fortes interferências nas telecomunicações. “Nosso país tem a maior declinação eletromagnética do mundo e a maior anomalia do Atlântico Sul”, ensina Sobral.  

Gentilmente, o pesquisador José Humberto Cardoso de Andrade Sobral nos recebeu em sua residência, em São José dos Campos (SP), para esta entrevista. Levando-se em consideração seu período como aluno do Mestrado, ele está completando cinquenta anos de atuação no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), onde já se aposentou, mas continua lecionando nos cursos de pós-graduação.

Sobral é graduado em Engenharia Eletrônica pela Escola Nacional de Engenharia (1966), hoje pertencente à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Obteve o mestrado em Ciências Espaciais pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (1969) e o doutorado (PhD) em Electrical Engineering pela Cornell University (1973). Foi coordenador- geral da Área de Ciências Espaciais e Atmosféricas do INPE de 1992 a 1999 e possui mais de 150 trabalhos científicos publicados em revistas especializadas internacionais com revisão editorial. É professor do curso de Mestrado e Doutorado do INPE em Geofísica Espacial.

O pesquisador teve uma brilhante atuação em sua área, destacando-se quando, no final da década da 1970, utilizando fotômetros de varredura da linha vermelha (630nm) do oxigênio atômico do céu noturno, detectou e identificou pela primeira vez no Brasil a ocorrência das bolhas ionosféricas (rarefações do plasma ionosférico) sobre o território brasileiro, o que lhe rendeu duas publicações pioneiras no ano de 1980 e mais uma no ano seguinte. Esses trabalhos, realizados em coautoria com seus colegas de equipe de pesquisas ionosféricas M. A. Abdu, C. J. Zamlutti e I. S. Batista, foram pioneiros no Brasil no tocante à ocorrência do fenômeno das bolhas ionosféricas sobre o território brasileiro.

No final da década de 1980, Sobral identificou pela primeira vez as bolhas ionosféricas como causa de fortes interferências nas telecomunicações transionosféricas durante o período noturno. As bolhas ionosféricas acontecem sobre todo o território brasileiro e interferem drasticamente nas telecomunicações. Elas ocorrem principalmente de outubro a março e no período noturno. Desde a descoberta das bolhas, mais de 300 trabalhos científicos (papers) foram publicados pelo grupo de ionosfera do INPE, em periódicos internacionais com revisores.

Ao ser questionado sobre a eventual opção dos estudantes pela área espacial, ele foi bastante contundente em dizer que considera fundamental que mais e mais pessoas escolham essa carreira: “O Brasil precisa estudar o espaço aéreo. Aqui é diferente de tudo. Nosso país tem fenômenos que não há em qualquer outro lugar. Tem a maior declinação eletromagnética do mundo e a maior anomalia do Atlântico Sul. Portanto, tem um campo vasto de estudo”. Confira os principais trechos da entrevista.

Jornal do SindCT. Qual a avaliação que o Sr. faz das últimas gestões do INPE?

SOBRAL. O [Leonel] Perondi fez uma gestão excelente, na minha opinião. Teve muita gente que não entendeu e deu palpite errado, porque ele passou mais da metade do tempo consertando os erros da administração anterior. Ele é uma pessoa muito séria, muito aberta e foi bastante eficiente. Conseguiu lançar dois satélites, conseguiu resolver a questão das vagas no CPTEC [Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos], que foi um processo penoso de trabalho. E, só nesse concurso, teve mais de 100 impugnações que ele teve que responder, e tudo fazia sozinho, pois não contava com muita ajuda da administração, pelo fato de estar todo mundo se aposentando.

Jornal do SindCT. E com relação ao novo diretor, Ricardo Galvão?

SOBRAL. Ele esteve há alguns anos no INPE, mas eu nunca convivi. Ele conheceu mais o pessoal do Plasma. Mas ele teve algumas atitudes que para mim foram positivas, que pareceram ser positivas, no sentido de que ele estava decidindo por ele próprio, apesar de que eu não coloco a mão no fogo por ninguém que tenha ocupado um cargo de poder, a não ser quando eu faço parte, como aconteceu no Comitê de Busca anterior a este último. Mas uma pessoa que é colocada aí, eu não posso avaliar...

Jornal do SindCT. O que o Sr. acha desse novo modelo de gestão no qual deixa-se de fazer os satélites de encomenda do governo, com aplicações específicas, para fazer somente satélites científicos?

SOBRAL. O INPE tem que fazer satélite não científico também, como sempre fez. Por que agora mudou? Não tem motivo de o INPE parar de fazer.

Jornal do SindCT. O Sr., mesmo já aposentado, faz parte de um renomado grupo de Geofísica Espacial no INPE. O que seria este trabalho?

SOBRAL. Na Geofísica Espacial há subdivisões, como as áreas de Aeronomia e Astrofísica. Então, hoje, a física espacial trata do meio ambiente ou do ambiente espacial externos da circunferência da Terra, trata da interação do Sol com o ambiente terrestre, cujo campo geomagnético é a Terra. A gente desenvolve pesquisa neste campo.

Jornal do SindCT. Que conselho daria aos jovens que estão estudando esta área aeroespacial? É algo promissor no Brasil?

SOBRAL. Aconselho que vá em frente. Sabe por que se estuda essa área espacial? É que o Espaço é grande, e ele também é meio ambiente. Tem o meio ambiente da meteorologia e tem o do Espaço, onde se estuda o plasma livre, que é a eletricidade. O plasma é um gás elétrico composto por energias positivas e negativas. Então, esse plasma é sujeito a correntes e campos elétricos que podem destruir um satélite. Esse ambiente é muito intempestivo.

Jornal do SindCT. O ambiente espacial necessita ser estudado?

SOBRAL. Sim, claro. Só para dar um exemplo, peguei uma vez uma lista da NASA de satélites destruídos. No meio ambiente espacial havia catorze satélites destruídos. Na época eu estava na coordenação da área no INPE, e até tirei o instituto desse programa porque nós tínhamos outra prioridade. Mas sabemos que o Espaço possui muitos fluxos relativistas de elétrons, de partículas. Então, para se ter uma ideia, um próton do núcleo do átomo de hidrogênio pode furar uma barra de ferro de 25 cm. É por isso que essa região de anomalia do Atlântico Sul é tão importante para a navegação espacial.

Aqui o campo magnético é mais baixo. O eixo tem o formato de uma maçã cortada. Só que o eixo não está no centro da Terra. No lugar onde está mais próximo à superfície da Terra, o campo magnético é mais forte e do lado oposto é mais fraco. Nós estamos do lado oposto. Participei de um programa com a NASA. Foi antes de o homem chegar à Lua.

Eu ia para a Barreira do Inferno [Centro de Lançamento da Barreira do Inferno – CLBI] e ficava lá esperando o contato com Houston (EUA) para saber se podia lançar o foguete ou não. A ideia era justamente medir a energia do cinturão interno de Van Allen. Se estivesse muito forte a atividade, teria de abortar a missão. Nesta época era ainda a cápsula Mércure, do Programa Apollo. Minha participação foi em maio de 1969. Então, ainda sobre quem deseja estudar a área aeroespacial, ratifico que, sim, a gente precisa de mais pessoas.

O Brasil precisa estudar o espaço aéreo. Aqui é diferente de tudo. Nosso país tem fenômenos que não há em qualquer outro lugar. Tem a maior declinação eletromagnética do mundo e a maior anomalia do Atlântico Sul. Portanto, tem um campo vasto de estudo.

Jornal do SindCT. Quem é o Sobral e de onde veio? Como se deu sua formação?

SOBRAL. A minha família toda é sergipana. Eu sou descendente de um sobrinho de Mendes Sá, Diogo da Rocha e Sá. Sergipe não existia porque fazia parte da Bahia. Minha família toda era do ramo de açúcar. Meu pai era militar e meu avô usineiro de açúcar. Ele foi o primeiro a comprar usina de engenho. Em 1822, dois membros diretos da minha família foram nomeados para fazer parte da Junta Governativa de Sergipe. Um deles era padre, porque minha família era muito católica.

Sergipe produzia 2/3 do açúcar do país inteiro. Minha família teve muitos políticos. Pelo fato de meu pai ser militar, eu mudava muito de Estado. Morei em diversos lugares. A maior parte da minha infância no Rio de Janeiro, na capital. Mas costumava passar férias em Sergipe. Fiquei no Rio de Janeiro até 1967.

Estudei em colégio militar. Sempre detestei a carreira civil. Toda a minha família era militar e bem nacionalista. Meu pai era muito cauteloso, mas minha mãe era muito nacionalista. No carnaval, ela me fantasiava de marinheiro e outros personagens semelhantes. Ela moldou minha cabeça para ser nacionalista. Ela sempre falava das pessoas que sofrem; que a gente tem que ajudar. Ela era caridosa. Tinha visão social. Ela bordava e no final do ano doava tudo o que conseguia produzir.

Fui criado nesse meio. Essa questão mais social não estava associada a questões políticas. Era algo de querer bem um ao outro. Meu avô montou a primeira escola do Estado na fazenda dele. E meu pai estudava junto a todos os demais. Após o colégio militar, me graduei na Escola Nacional de Engenharia. Uma das mais antigas do Brasil. Estudei em escola militar, e eu até gostava da carreira. Mas quando eu fiz aquele teste psicotécnico, deu para pesquisa científica. E era isso mesmo que eu queria. Se eu quisesse, poderia ter entrado direto no Exército, mas vou lá fazer o quê? Ciência não tem, engenheiro não quero ser e guerra não vai ter! Então, eu vou fazer o que dentro do Exército?

Se eu estivesse nesse ambiente de golpe militar, iria ferrar tudo. Eu ia sair e quebrar o pau porque eu não concordo com tortura. Não gosto também de abusos e mentiras. Tudo era mentira. Esse golpe foi de mentira. Deram um golpe em 31 de março de 1964, e isso não tinha nada a ver com algo contra o comunismo. Era mesmo um ato anti-getulista. Havia um pessoal contra o terrorismo de Estado. De repente, quem era contra o terrorismo passou a ser chamado de terrorista. Então, aí que entrou Dilma e esse pessoal todo, que, na verdade, não era terrorista.

Jornal do SindCT. A esposa do senhor mora atualmente em Porto Rico. Qual é a sua relação com esse enclave norte-americano, já que o senhor viaja sempre para lá?

SOBRAL. Porto Rico foi comprado dos espanhóis pelos EUA. Lá o pessoal vive bem. São cidadãos americanos e a moeda é o dólar. Fui para Porto Rico pela primeira vez em 1970. A minha esposa, Nani, conheci em 1972 e me casei em 1974. Ela é nascida em Porto Rico.

Jornal do SindCT. Como o senhor veio para São José dos Campos?

SOBRAL. Eu queria sair do Rio de Janeiro. Não gostava de lá, embora eu reconheça que lá há muitas belezas. Conheci um paulista de Bauru. Ele é campeão de tênis de mesa e, para meu espanto, uma pessoa muito simples. Ele me inspirou a mudar para alguma cidade do interior de São Paulo. Foi então que um amigo disse que tinha uma vaga no INPE, em São José dos Campos. Cheguei na cidade em 1969, desci na Dutra para ir ao DCTA.

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