Alcântara e a cobiça dos Estados Unidos

A divulgação dos depoimentos de executivos da Odebrecht escancara a relação histórica e quase orgânica entre empresariado e diferentes governos, demonstrando o grau de captura do Estado por interesses do grande capital nacional.

Estes mesmos interesses — e também os representantes dos capitais externos — atuam fortemente no governo Temer e têm, até o momento, garantido a sua sustentação, apesar da impopularidade da sua agenda. Como ressalta no seu blogue o jornalista Leonardo Sakamoto, a cúpula do empresariado nacional e estrangeiro “tapa o nariz” para denúncias de corrupção que envolvem o governo, em troca das “reformas que reduzam o tamanho do Estado de bem-estar social e resolvam a crise econômica, preservando os mais ricos de aumentos de impostos sobre sua renda”.

“Esse grupo, na prática, mostra não se incomodar tanto com a corrupção desde que a missão seja cumprida”, escreve. No caso dos grandes grupos estrangeiros, a missão não é apenas a aprovação das grandes reformas, mas também ataques pontuais e certeiros a setores estratégicos da economia.

Por exemplo: petróleo. O projeto de lei de autoria do senador José Serra (PSDB-SP) que estabelece a abertura do controle de operações no Pré-Sal a empresas estrangeiras foi uma das primeiras medidas aprovadas pelo Congresso após o impeachment. A corrida pela jazida, que pode transformar o Brasil no quinto produtor de óleo cru do mundo, tem se tornado mais intensa.

No início de abril, o Wall Street Journal registrou que o atual presidente da Petrobras, Pedro Parente, compareceu a eventos nos Estados Unidos nos quais apresentou às empresas estrangeiras as oportunidades de negócios no setor. A reportagem também registra o franco interesse da Exxon Mobil em acertar parcerias com a estatal brasileira para a exploração de campos do Pré-Sal, uma vez que somente a Petrobras possui tecnologia segura para a extração de petróleo em águas profundas — o que obviamente joga por terra o suposto “mico” que o Pré- -Sal representaria.

Mas, em troca dessa expertise, a Petrobras seria brindada, apenas, com uma posição minoritária na exploração. Outro setor estratégico que novamente se escancara aos interesses internacionais é o aeroespacial. A discussão quanto ao controle do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA) voltou à baila, com a reabertura oficial das negociações com os Estados Unidos em janeiro. A negociação, iniciada pelo então chanceler José Serra, reconhecido entreguista, agora está nas mãos de Aloysio Nunes Ferreira. Ambos tucanos, ambos indiciados pelo ministro Edson Fachin (STF).

Senador licenciado, o atual chanceler brasileiro esteve nos EUA durante o processo de impeachment, à frente de uma comissão que pretendia negociar o apoio de Washington ao golpe parlamentar-midiático- judicial contra a presidenta Dilma Rousseff. (E que, pelo visto, obteve êxito.) De acordo com o site OperaMundi, uma proposta sigilosa relativa ao CLA, enviada pelo governo brasileiro, foi rejeitada por representantes da gestão de Donald Trump, uma vez que tentava amenizar as exigências estadunidenses. A intenção dos EUA parece ser retornar aos termos do acordo negociado durante o governo Fernando Henrique Cardoso.

Na prática, a proposta transformava Alcântara em uma base norte-americana, prevendo diversas proibições ao Brasil, como lançar foguetes próprios da base, firmar cooperação com outros países, apropriar- se de tecnologias norte-americanas usada em Alcântara e direcionar os recursos obtidos com a cessão da base para o desenvolvimento de satélites nacionais. Enquanto esta negociação se desenrola, o ministro da Defesa, Raul Jungmann (PPS- -PE), anunciou no dia 12 de abril que quatro países — Estados Unidos, França, Rússia e Israel — já manifestaram interesse em formalizar parcerias para a utilização do CLA.

Por fim, uma palavra sobre a lista de Fachin (leia reportagem na p. 10). Se é que as delações que partiram da Odebrecht são 100% verdadeiras (a investigação está apenas começando), a lista indica o seguinte: 1) a corrupção teve início muito antes da chegada de Lula ao governo federal, tanto é que o próprio FHC foi indiciado; 2) o PMDB recebeu 26,7% dos recursos financeiros envolvidos; o PSDB recebeu 23,4%; e o PT, 17,3%, conforme levantamento da Associação dos Especialistas em Políticas Públicas do Estado de São Paulo, com base na lista; 3) portanto, o discurso da mídia, que foca quase exclusivamente no PT (que o jornal O Globo de 22/4 voltou a chamar de “organização criminosa”, com novos ataques ao ex-presidente Lula), é claramente enviesado, distorcido, padecendo da chamada “indignação seletiva”.

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