Magrão e Casão, “biografia dupla”

Vamos combinar: não precisa ser torcedor do Timão para apreciar a leitura de Sócrates & Casagrande, uma história de amor (Globo Livros, 2016). A dupla de atacantes corintianos que marcou época no futebol brasileiro, por sua alegria e por seus dribles desconcertantes, rende histórias cativantes, tanto no gramado como fora dele. A começar por seu envolvimento na Democracia Corinthiana, um movimento de rebeldia e autoafirmação dos jogadores, ocorrido na década de 1980 e que, salvo engano, não encontra paralelo nos clubes brasileiros.

Os autores do livro são o próprio Casagrande, o “Casão”, e o jornalista Gilvan Ribeiro, que assim repetem a parceria iniciada com Casagrande e seus Demônios (2013), uma biografia do hoje comentarista de futebol. Bem escrito, de leitura fluente e agradável, Sócrates & Casagrande, uma história de amor carrega um título ousado, quase uma provocação frente ao universo machista do futebol. Como explica Gilvan: “O título do livro não poderia ser outro. Sócrates e Casagrande deixaram uma história de amor para o (tantas vezes) agressivo mundo do futebol.

Além do carinho que sempre permeou a relação da dupla, fio condutor da narrativa, cada gesto deles é uma explosão de paixão. Assim foi na criação da Democracia Corinthiana, na luta política contra a Ditadura Militar, na sede insaciável por expressões artísticas, no perigoso mergulho no álcool e nas drogas, ou na entrega sem freios ao amor de uma mulher — no caso de Magrão [Sócrates], muitas, muitas delas”. Um ponto a destacar é o belo prefácio do escritor Marcelo Rubens Paiva, torcedor do Corinthians que teve a sorte de, já na maturidade, tornar-se amigo de “Magrão” e, depois, de “Casão”. Na visão de Marcelo, Socrátes fez do futebol “arte, uma pintura, uma escultura, poesia, um balé”.

O livro registra as aventuras e desventuras da dupla, com muitas passagens surpreendentes e o merecido destaque para a reconciliação dos dois, por iniciativa de Casagrande (arrependido por haver provocado o rompimento, anos antes), pouco antes da morte de Sócrates. Mas deixa de aprofundar a discussão sobre a ligação de Casagrande com a TV Globo, que teria provocado críticas do “Magrão” e levado “Casão”, magoado, a afastar- se do amigo.

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