Aquarius discute o Brasil real

CINEMA BRASILEIRO

Pedro Pomar

O filme do diretor pernambucano Kleber Mendonça toca numa questão nevrálgica do Brasil atual: o direito à moradia, muito mais violado do que respeitado. Basta ver a tragédia do Pinheirinho. Aquarius, a obra mais recente do diretor pernambucano Kleber Mendonça, é um filme impregnado de Brasil. Não naquele sentido ufanista, brejeiro e superficial que alguns acham que se deve empregar sempre que o assunto for o nosso país. Mas no sentido mais realista possível, de quem pretende discutir a sociedade brasileira, apontar suas peculiaridades, contradições, desigualdades, desequilíbrios.

Tal como em Som ao Redor, o longa-metragem anterior de Mendonça, que lhe projetou como um realizador que tem bastante a dizer no cinema nacional, Aquarius trata de questões muito concretas do Brasil atual. A personagem central do filme é Clara (Sônia Braga), mulher madura de classe média, escritora, dona de um belo apartamento em frente à praia de Boa Viagem, no Recife.

Moradora do pequeno Edifício Aquarius, a viúva Clara leva uma vida confortável e tranquila até o dia em que recebe a perturbadora visita dos donos da Bonfim Engenharia, empresa interessada em comprar todos os apartamentos para botar o prédio abaixo e construir no local um moderno e lucrativo empreendimento imobiliário. O conflito entre a moradora que se nega a vender o apartamento, porque não vê nenhuma razão em se desfazer do imóvel de que tanto gosta (e onde criou seus filhos), e a construtora Bonfim, que a vê como um simples obstáculo a ser removido, contamina os vizinhos e até a família de Clara.

A filha Ana Paula (Maeve Jinkings) defende a venda e se acha no direito de procurar a construtora para conversar, à revelia de Clara, que toma conhecimento do fato acidentalmente. “Falando com essa gente, você me coloca como uma louca”, protesta a mãe. Os vizinhos preferem aceitar a oferta da empresa e abandonam o prédio, deixando Clara sozinha. Tempos depois, o filho de um dos casais, ao encontrar-se com ela na praia, a hostiliza por atrapalhar o bom andamento do negócio...

Uma atitude tipicamente brasileira. (No início de dezembro, o autor desta resenha ouviu de um taxista, que trabalhara na construção civil, críticas a um morador que foi o único a recusar-se a vender a casa no entorno de um novo prédio; o chefe da obra deliberadamente infernizava a vida desse morador; o taxista opinou que o chefe da obra tinha razão.).

Paralelamente à trama central, o filme passeia pelos relacionamentos de Clara. Amigas e amigos, parentes, afetos, desejos, envolvimentos, histórias. É quando entram em cena outras questões, como a revolução sexual e a liberação feminina. Sobrevivente de um câncer de mama, Clara busca um companheiro, hesita, rompe barreiras morais. Tenta levar sua vida adiante apesar do cerco movido pela construtora.

Quando a situação se torna insuportável, ela reage e passa ao ataque. Ao fazer da especulação imobiliária o tema central de seu filme, Mendonça toca numa questão nevrálgica do Brasil de hoje: o direito à moradia, muito mais violado do que respeitado. Basta ver as remoções forçadas de populações de bairros inteiros no decorrer das obras preparatórias da Copa do Mundo e das Olimpíadas.

Ou as frequentes ocupações de terrenos e de prédios abandonados nas grandes cidades, normalmente seguidas de violentas reintegrações de posse (como no Pinheirinho em 2014). Em Aquarius, porém, o alvo dos especuladores não são as famílias pobres da periferia, mas uma cidadã de classe média, bom padrão aquisitivo e dotada de alguma visibilidade social. O filme ganhou fama tanto pela boa recepção no Festival de Cannes (França), como pelo contundente protesto de toda a equipe contra o golpe parlamentar e midiático que resultou na deposição de Dilma Rousseff. Mas ele deve ser visto pelos seus méritos intrínsecos, que não são poucos.

Compartilhe
Share this