“É o maior centro de lançamento do Hemisfério Sul”, diz coronel Olany

ENTREVISTA: COMANDANTE DO CLA

Shirley Marciano

Enviada especial à Alcântara

A Torre Móvel de Integração (TMI) de Alcântara pode atender a toda uma família de foguetes suborbitais. O CLA está preparado “para qualquer atividade de interesse do Comando da Aeronáutica, IAE e demandas do PNAE”. O Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), situado no Maranhão, vem passando por um processo de modernização e de reconfiguração da estrutura, além de haver implantado uma série de medidas de segurança, atendendo assim parte das recomendações da comissão que investigou as causas da tragédia de agosto de 2003 — a explosão do Veículo Lançador de Satélites (VLS-1), que resultou na morte de 21 pessoas da equipe técnica e na destruição da Torre Móvel de Integração (TMI).

É o que relata o coronel-aviador Claudio Olany Alencar de Oliveira, comandante do CLA, em entrevista concedida com exclusividade ao Jornal do SindCT na véspera do lançamento do VSB-30, realizado em 7 de dezembro. Exemplos das medidas recomendadas e implantadas são o “Prédio SPL”, que concentra as equipes do Setor de Preparação e Lançamento, e um outro prédio em forma de bunker onde motores e foguetes permanecem semienterrados. Inaugurados em janeiro de 2016, eles tiveram sua construção financiada pela Agência Espacial Brasileira (AEB), a um custo de R$ 16,6 milhões.

“Aqui é o maior centro de lançamento do Hemisfério Sul. Infelizmente nem todos têm essa visão, mas tem uma localização estratégica, com uma importância enorme, não só para a Força Aérea, mas para o país como um todo”, sustenta o coronel Olany. “Hoje o nosso centro se encontra em plena capacidade operacional.

Estou passando o comando em janeiro e entrego o CLA com a satisfação de tudo estar funcionando”. Ao comentar os problemas de financiamento do Programa Espacial, o comandante demonstrou preocupação com a necessidade de reposição da força de trabalho do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE): “Nós temos os recursos humanos altamente especializados que estão em vias de se aposentar. Como a gente vai repor isso daí? Como vai reter pessoal? Então, não é só dinheiro, mas os recursos humanos. Daqui a pouco vamos perder competência humana para execução dos projetos”.

Qual a sua formação e experiência, que o fizeram chegar ao comando do Centro de Lançamento de Alcântara?

C o ro n e l - a v i a d o r Olany. Eu já tenho uma certa experiência atuando na área espacial. Fiz engenharia e pós-graduação no ITA [Instituto Tecnológico de Aeronáutica]. Trabalhei no Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), que é onde são desenvolvidos os projetos de foguetes. Fiz parte do projeto do VLS, do VSB-30 e de várias tecnologias associadas. Isto me deu uma bagagem importante para atuar do outro lado, que é a parte operacional do que é desenvolvido pelo IAE. Fui naturalmente preparado para atuar no CLA. Cheguei em Alcântara em 2013 como vice-diretor e na expectativa de assumir a direção. Então estou praticamente há quatro anos aqui.

Quais foram os principais desafios enfrentados no período em que o senhor esteve no CLA?

Olany. Os principais desafios que enfrentamos nesse período foram a adequação da infraestrutura do centro, atender às demandas do Comando da Aeronáutica, da AEB e também da Alcântara Cyclone Space (ACS). Em 2015 houve a denúncia do tratado da ACS, mas antes disso as obras já tinham parado. Então nós continuamos com o aprimoramento da nossa infraestrutura, modernização dos sistemas que são utilizados numa operação de lançamento, deixando o centro preparado para qualquer atividade de interesse do Comando da Aeronáutica, do IAE e algumas demandas provenientes do Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE).

A TMI, construída para o extinto projeto do VLS-1, está inutilizada ou poderá ser reconfigurada para outros modelos de foguetes?

Olany. Estamos trabalhando nessa estratégia de reconfiguração. A TMI inicialmente foi concebida para atender o projeto do VLS. Porém, ela tem toda condição de atender uma família de foguetes suborbitais, como o futuro VS-43 (que seria o aproveitamento dos motores do VLS-1 do primeiro e segundo estágios para testes de controle), bem como o VS-50, que é um foguete suborbital para certificar o motor do VLM. Então, a torre estaria sendo aproveitada para lançamentos do VS-43 até o VLM. Para foguetes suborbitais, até o porte do VSB-30 e VS- 40, nós temos os lançadores móveis e um de porte médio (LPM), que foi danificado no lançamento do VS-40 e a gente está recuperando.

A plataforma utilizada para a Operação Rio Verde veio do Centro de Lançamento de Barreira do Inferno (CLBI)?

Olany. Sim. A plataforma foi trazida de lá porque a que temos aqui foi danificada no incidente ocorrido no ano passado, com o VS- 40, na Operação São Lourenço. Então, para viabilizar a Operação Rio Verde nós trouxemos o lançador móvel do CLBI que já era CLA/CLBI, instalamos e configuramos. Agora nós vamos ficar em definitivo com os dois lançadores, porque a perspectiva, por medida de segurança, é de que o CLBI não faça mais lançamentos de foguetes grandes. A cidade cresceu no entorno do centro e, por essa razão, o CLBI não lança mais plataformas suborbitais (que são de porte maior). Vai lançar somente foguetes pequenos e atuar nas atividades de rastreio, em parceria com o Centro de lançamento de Kourou [na Guiana].

Como está a questão da segurança do CLA?

Olany. Com o relatório de investigação de 2003, após o acidente com o VLS- 1, houve várias recomendações a serem executadas, e boa parte delas nós já cumprimos. Por exemplo, construímos um prédio de depósito de propulsores em formato de um bunker semi-enterrado, específico para enterrar motores e foguetes. Diferente do que acontecia no passado, quando os motores ficavam no mesmo prédio onde era feita a preparação de integração de foguete. Tem também o prédio de segurança do SPL, onde as equipes ficam concentradas, evitando a dispersão de pessoas andando em setores do SPL sem necessidade. Assim, criamos um processo para garantir a segurança. Hoje cada servidor militar só sai do prédio SPL para outro prédio mediante uma ordem de atividade, sem celulares e sem equipamento. Ou seja, ele vai para executar uma atividade específica por um período de tempo determinado e na sequência retorna ao prédio. Também reconstruímos no final de 2015 nosso posto médico. Está totalmente equipado, com sala de microcirurgia e laboratórios. Está plenamente em funcionamento. Tem atendimento operacional, emergencial em todas as áreas. Então, para o caso de um acidente, seria o primeiro atendimento. Vale salientar que foram revitalizados sistemas que são utilizados durante uma operação de lançamento, como de telemetria e telecomando.

Em comparação a outros centros de lançamento, em que posição está o CLA neste cenário? Está sendo bem aproveitada a estrutura existente?

Olany. Temos a estação meteorológica mais bem equipada do país. A informação que me dão é de que seria a maior da América do Sul. Aqui é o maior centro de lançamento do hemisfério Sul. Infelizmente, nem todos têm essa visão, mas aqui tem uma localização estratégica, com uma importância enorme, não só para a Força Aérea, mas considero para o país como um todo. Não vou dizer que é subutilizado porque uma série de fatores contribui para isso, dentre eles a falta de recursos. Hoje o nosso centro se encontra em plena capacidade operacional. Estou passando o comando em janeiro e entrego o CLA com a satisfação de tudo estar funcionando, como a parte de sistemas, eletrônica, de controle, de inteligência, com toda a parte de lançamento funcionando e com os contratos de manutenção vigentes renovados, além da parte de infraestrutura, processos, onde entra a parte de segurança. É claro que isso requer uma melhoria contínua. Agora nós estamos num processo de implantação de certificação do centro na área de qualidade e depois vamos buscar uma certificação de ISO 9001. Estamos certificando a parte operacional, mas com vistas a certificar o centro todo. Então estamos investindo bastante em gestão estratégica.

Sobre o intervalo entre um lançamento e outro, é possível atender com um intervalo menor para adequar às necessidades dos experimentadores ligados às universidades?

Olany. O fator que menos influencia é o que depende do CLA. Aprovamos um novo cronograma para as atividades espaciais, e isso será usado. Será feita uma revisão do PNAE pela AEB. Temos um cronograma, mas ele depende do quanto a AEB irá disponibilizar. Comercialmente, o VSB-30 não é viável no Brasil porque falta demanda. Agora, se tivesse uma pressão dos acadêmicos, empresas privadas, aí a AEB teria que injetar recursos. Na verdade, o programa de microgravidade pode ser cumprido com o VSB-30, com o VS-40 e outros foguetes. A questão da cadência de lançamento está diretamente ligada aos recursos que a AEB disponibiliza para o IAE e para o CLA. Podemos melhorar, mas a segurança para um lançamento está plenamente operacional. Então, hoje faltam recursos para o IAE, mas não só...

O que mais falta?

Olany. Esse cenário é um pouquinho mais complexo. Nós temos os recursos humanos altamente especializados que estão em vias de se aposentar. Como a gente vai repor isso daí? Como vai reter pessoal? Então não é só dinheiro, mas os recursos humanos. Daqui a pouco vamos perder competência humana para execução dos projetos.

Quantos servidores civis e militares no CLA?

Olany. Em torno de 1.000 pessoas, sendo 87 civis e os demais militares. O CLA tem uma infraestrutura muito grande. Tem essa parte aqui em Alcântara. E lá na Ilha de Santana tem uma estação secundária de telemetria no município de Raposa, além de uma área de apoio administrativo ao lado do Aeroporto. Tenho a Vila Residencial, Rancho, Saúde, e parte operacional em Alcântara e São Luís. A gente depende da maré para manter a rotina de trabalho aqui em Alcântara. Vamos construir em São Luís um atracador flutuante. Aí não dependerá de maré para trazer todo mundo para trabalhar todo dia. Tenho um efetivo que mora em São Luís.

Com relação ao desafio tecnológico da Operação Rio Verde…

Olany. O VSB-30 já é uma tecnologia dominada. Já é qualificado na Europa, já é certificado pela Agência Espacial Europeia. O que a gente aproveita nessas campanhas para testar é a atualização de sistemas que são utilizados aqui no centro, e o próprio IAE desenvolve alguns experimentos. A gente está tentando andar com as próprias pernas, porque você sabe que os outros países não têm interesse nenhum que ingressemos nesse mercado para competir com eles, principalmente quando se trata de lançamento comercial. Queremos crescer, nos solidificar e conquistar nossos espaços.

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