Títulos, saberes, competências e a cartorialização do mérito

PENSO QUE AS BOAS IDEIAS CIENTÍFICAS VÊM DAS MAIS VARIADAS ORIGENS E NÃO RESPEITAM AS FRONTEIRAS DOS TÍTULOS

O olhar de quem não focou exclusivamente em seu doutorado, mas tirou para si, uma lição que poderia, se aplicada no Brasil, evitar a busca artificial por títulos

 

Por Victor Pellegrini Mammana

 

Apresento aqui uma reflexão sobre formas alternativas e complementares para reconhecer a excelência da contribuição à pesquisa e desenvolvimento (P&D), sem que seja preciso recorrer inexoravelmente ao título acadêmico.

Para legitimar a discussão, diferenciando-a de uma lamúria por flexibilização nas avaliações de mérito, tomarei como base a minha própria experiência profissional num centro de pesquisa norte-americano.

Rogo para que o rumo escolhido para a discussão não seja confundido com alguma forma de subserviência ou idolatria aos valores estadunidenses. Ao invés, não passa de uma opção por tentar aprender com outras culturas. Até Ariano Suassuna, injustamente acusado de repelir culturas estrangeiras, já foi categórico sobre a importância de fortalecer nossa cultura com a incorporação de influências externas, desde que estas nos enriqueçam e não nos esmaguem.

Como ponto de partida, é preciso aceitar a conveniência do uso de critérios objetivos para a legitimação do mérito na atividade de pesquisa. Por outro lado, há que se ter cuidado na escolha desses critérios para evitar realimentação de vícios prejudiciais à própria atividade. A definição descuidada dos indicadores pode reforçar uma busca artificial por números de desempenho, em detrimento de resultados relevantes para a sociedade.

Isto posto, uso como referência para este debate o tempo de estágio no Lawrence Berkeley Laboratory (LBL) durante meu doutorado pela USP.

O LBL é um laboratório federal americano (serviço público) que conquistou 13 Prêmios Nobel. Lá testemunhei um fato inusitado para nós brasileiros: o funcionário público que desempenhava o papel de torneiro mecânico num dos grupos ganhava mais do que os doutores. Aqui talvez esta situação fosse motivo de escândalo e denúncia.

Aliás, no LBL de então, a força de trabalho sequer percebia vantagens pecuniárias decorrentes de títulos acadêmicos, se esses fossem obtidos após a contratação. Ademais, a seleção não se dava por concurso público, o que aqui seria considerado uma forma de improbidade.

A política de pessoal de lá expõe o lado cartorial da forma de reconhecer o mérito daqui, porque, ironicamente, o que aqui seria considerado como “crime”, lá produziu muitos prêmios Nobel.

É evidente que não se está advogando pelo fim dos títulos acadêmicos. Há que se valorizar o título de doutorado na avaliação do mérito, até como forma de coibir o charlatanismo. Adicionalmente, a experiência no LBL, mencionada acima, é apenas uma das possíveis experiências que um cientista poderia ter naquele gigantesco país. Outras organizações americanas laureadas podem ter regras diferentes das mencionadas, principalmente as universidades.

Não obstante, penso que as boas ideias científicas vêm das mais variadas origens e não respeitam as fronteiras dos títulos. O título de doutorado é resultado de um momento intenso na vida de um cientista, mas representa um período relativamente curto de sua carreira. Portanto não é um atestado definitivo de conhecimento ou desempenho e não encerra a vida de estudos e aprendizado.

Na minha visão, o doutorado é, acima de tudo, um exercício do método científico e uma “autorização” para orientar e formar novos doutores, guardiães da erudição e desse mesmo método. Como tal, é uma conquista muito importante no meio universitário, mas deve ser usado com cuidado como indicador de mérito em centros de pesquisa, para que não se transforme num fim em si mesmo.

Neste sentido, talvez seja o momento de começar uma discussão sobre como prover formas complementares de reconhecer a contribuição de pesquisadores no âmbito de centros de pesquisa.

Uma alternativa é o reconhecimento de “Saberes e Competências” por meio de gratificação específica, uma versão acadêmica para a carreira em Y. Esta alternativa, que seria diferente da avaliação de desempenho, permitiria maior respeito às vocações dos profissionais, estimulando-os a desempenhar as atividades que mais dominam e as que mais produzem resultados para a instituição, com maior satisfação pessoal.

Nessa toada, seria uma forma justa de compensar funcionários que focalizam demandas específicas da instituição e que, ao escolherem a trilha dos "Saberes e Competências", não ficariam restritos em seu crescimento profissional. Evitar-se-ia, também, a busca artificial por títulos, que na prática acaba por representar frustração para o servidor e desperdício para as instituições.

 

Victor Pellegrini Mammana é Doutor em Física e servidor do CEMADEN.

 

*Este texto foi adaptado a partir da coluna do autor no jornal Correio Popular de Campinas.

Compartilhe
Share this